Rock morto, rock posto

Depois de uma década passada às apalpadelas nas caves escuras do "underground", os Lulu Blind espreitam finalmente a luz com "Foge de Ti", o seu novo álbum de originais. Alguém disse que o rock morreu?

Os Lulu Blind são donos de um percurso em tudo contrário à corrente em que navegou na última década a música moderna em Portugal. As suas origens remontam à idade da inocência do rock português, à época em que os amplificadores se carregavam às costas e em que o mercado era ainda um lugar desconhecido e apenas ao alcance de alguns. Foram das primeiras bandas nacionais a fazerem do inglês a sua arma de arremesso, e foi nessa condição que lançaram "Dread" (1993) e "Blast" (1996), álbuns ofuscados pelo súbito crescimento do "mainstream" que se verificou a partir de 1994 e da consequente queda do "underground" no anonimato. Numa altura em que o seu nome parecia já ter sido riscado do mapa, eis que regressam com "Foge de Ti", manifesto libertário e contracorrente assinado em português que se confunde com uma forma de reacção, o desejo de um estilo de vida menos ordinário, uma declaração de guerra à realidade. O rock vive e recomenda-se.Tó Trips - Este disco é sobretudo muito honesto em relação a nós próprios. Essa foi a nossa preocupação. Se estoirar, marcará uma diferença fundamental em relação ao que tem vindo a ser sonegado à música em Portugal: a ideia de que é possível fazer rock em português, não o rock português herdado dos anos 80, mas um rock que adopta sonoridades estrangeiras e que é cantado em português. A malta do hip-hop já o tinha feito há uns anos e com resultados satisfatórios, mas o rock parece ter sido arrastado na miragem da internacionalização. De repente, as pessoas esqueceram-se de que o mercado da música em Portugal continua a ser um artesanato. Foi por causa disso que o máximo que as bandas conseguiram foi serem internacionais dentro de portas, o que ao olhar de um estrangeiro é risível. Tudo bem: isto já não é o Portugal dos Pequeninos, fazemos parte de uma aldeia global, mas um gajo chega a uma dada altura e diz: "Porra, alto aí!" Deitamo-nos na cama com a miúda ao lado, e dizemos-lhe "eu amo-te" - é em português, não é em inglês. Quando um gajo se chateia, chateia-se em português. E por aí fora... T.T. - Uma tomada de consciência, talvez. Um dia fomos tocar a Portalegre, e havia uns putos que curtiam a malta e que organizaram aquilo com as melhores das intenções. Enquanto fazíamos o "sound-check", uns avós do campo corriam com as crianças atrás do porco, e um gajo estava a olhar para aquilo e a pensar que aquela cena era realmente um bocado Almodóvar: ali estávamos nós, a cantar em inglês, e aquilo não tinha nada a ver. Pedro Vargues - Tem tudo a ver com o facto de estarmos um pouco mais crescidos, de termos perdido aquela obstinação ferrenha da juventude. É uma descida à realidade.P.V. - A 1997, quando iniciámos uma pesquisa por uma identidade própria. Foi na altura em que lançámos um EP que acabou por não ter distribuição comercial, mas em que as músicas já eram cantadas em português. Depois, acabámos por chegar a acordo com a NorteSul e as coisas começaram a andar para a frente. T.T. - Na altura passámos por problemas pessoais e isso reflectiu-se na música, que era triste e desiludida. O Richie e o Samuel entraram entretanto na banda e introduziram a alegria que está estampada no álbum. Um dos aspectos positivos do "Foge de Ti" é que se sente que um gajo gosta mesmo de tocar e de estar bem com toda a gente. É quase Huckleberry Finn... T.T. - Essa é a grande novidade em relação a este álbum. Nos dois discos anteriores não tínhamos canções, tínhamos temas. E já que um gajo até toca umas coisas, por que não tentar tirar o máximo partido disso? A verdade é que hoje é raro ouvir os outros discos, não porque não goste deles - tiveram o seu tempo -, mas simplesmente não sou capaz.T.T. - Os Lulu Blind foram sempre uma banda pequena, que se mexia nos meios "underground", apesar de nunca terem feito disso uma bandeira. Mas a verdade é que quando olhamos para aquilo que se passava há uns anos atrás, vemos que se editavam coisas, que havia editoras pequenas, espaços para tocar. E os Lulu Blind sempre viveram desses espaços. As bandas já o eram mesmo antes de as editoras pegarem nelas. Hoje, as bandas começam e acabam na garagem. P.V. - Agora a exigência é maior, com grandes produções e tudo isso. Antigamente, o pessoal pegava num amplificador de 20 contos às costas, dava uns concertos num bar e curtia. Isso agora é impensável. As bandas já não cumprem um percurso. Ou têm logo um emprego de topo ou não são nada. Lembro-me de uma vez termos ido ver os Xutos & Pontapés ao Jardim Zoológico, tínhamos para aí 17 anos, e estávamos cheios de pica porque íamos ter ensaio a seguir. E um gajo ficava a pensar que aquilo afinal não existia só lá fora, que aqui também era possível fazermos certas coisas que nos faziam sentir vivos. E isso deixou de existir. T.T. - Claro que tem! Por alguma razão deixei o emprego onde estava, que era um bom emprego, onde ganhava bom dinheiro, para não aturar certo tipo de coisas e poder viver a minha vida. Se calhar ganhávamos mais dinheiro a arrumar carros. Mas o pessoal gosta mesmo disto. P.V. - As pessoas deixaram de viver as suas vidas. Aquilo por que são avaliadas é apenas o sucesso - quando isso deve ser consequência e nunca objectivo. Mas o que interessa é o consumismo, está toda a gente endividada, tudo de sorriso nos lábios porque à pala do crédito conseguimos vestir-nos bem para ir para o emprego. De repente, as pessoas passaram a ter medo de saírem para as ruas. Preferem ficar em casa a tomar Prozacs e anseolíticos. Mas isto há-de rebentar por um lado qualquer. E um título como "Foge de Ti" diz isso. É uma chamada de atenção para os valores que à partida deviam ser os verdadeiros, e que hoje em dia não passam de adereços. T.T. - Tem um lado infantil e irreverente, tipo "vive a tua vida". É uma forma de reacção contra aqueles "slogans" conformistas do tipo "vocês têm 35 anos e continuam a ser uns putos, deviam era ter juízo". Quando saí do emprego, houve um tipo que me perguntou se eu não gostava de ter um jeep. É claro que toda a gente quer ter jeeps, piscinas, casas e não sei quantas miúdas. Mas não quero ter um jeep para a minha vida ser uma aventura entre a casa e o emprego. Essa é a aventura do Marlboro...Samuel - Somos mais "Português Suave" [ri-se, enquanto puxa de um maço].Richie - É uma questão de ciclos. Nos anos 70 havia o "disco sound", e depois veio o punk como forma de reacção extremada. A verdade é que o rock se tornou numa grande mentira a partir de meados dos anos 90. Grandes pirotecnias, tudo muito asseadinho, com aqueles superguitarristas que um gajo olhava como heróis mas que no fundo andavam a sumo de laranja. É uma mensagem saudável, "tudo bem, não tomo drogas e sou um grande músico", mas toda a gente sabe que o rock nunca foi muito saudável. O rock mata, para o bem ou para o mal. E o que passa hoje é uma nova valorização do lado físico da música, que nunca desaparecerá. T.T. - Lembro-me do pessoal estar no Bairro Alto e de alguém ter dito "é pá, isso do rock já morreu". O rock não morre enquanto houver pessoas. Há quem diga que sim, mas essas são as mesmas pessoas que são capazes de ir ver um espectáculo dos St. Germain ao Lux e aquilo ao vivo não é nada. Só quem está nas modas é que gosta daquilo, não percebem que aquilo foi feito para dançar. Quando vieram os Thievery Corporation já não fui vê-los, porque já estava avisado.S. - Uma maneira de estar na vida.T.T. - É uma brincadeira nossa que serve para explorar aquele lado "fan" que um gajo sempre teve. Os "Moshers do Universo" somos nós, era o nome que usávamos quando carregávamos os amplificadores. É a nossa entidade superiora.T.T. - Jeff Buckley. Smashing Pumpkins. Melvins. Chet Baker.P.V. - Os Placebo do "Without You I'm Nothing". Queens of Stone Age. Mudhoney. Agent Travellers.S. - "Kid A", dos Radiohead. Goldfrapp.