Crítica

Perros Danados

Diz Alejandro González Iñárritu que concebeu "Amor Cão" como "uma experiência antropológica" e que o seu filme resulta numa "pequena reflexão sobre o complexo e barroco mosaico que é a Cidade do México". Será a mais laboriosa definição de "Amor Cão" que, no meio da sua tão badalada violência (as imagens de combate entre cães obrigaram o realizador a assegurar que nenhum animal tinha sido ferido durante as filmagens, quando da sua exibição em Cannes), faz retroceder a natureza humana a uma espécie de primitivismo animalesco como via possível para a redenção e reposição da moralidade.

Como proposta "antropológica" é tudo e, enquanto retrato de um microcosmos urbano, Iñárritu demite-se de oferecer um olhar unificador da Cidade do México - aqui, a cidade é definida pelo seu tecido humano.

São três as histórias que convergem para formá-lo e é aí que, porventura, reside o maior mérito de Iñárritu: montagem sincopada para fazer coincidir as diferentes narrativas, embora, inevitavelmente, o filme se divida em três partes, privilegiando uma das histórias em dado momento.

A primeira fixa-se em Octavio, jovem de um lar miserável que aposta o seu cão em combates, tentando assim, reunir suficiente dinheiro para fugir com a cunhada, Susana, grávida do segundo filho. Na segunda, Daniel, um editor de sucesso, abandona a família para se juntar a Valeria, uma modelo reproduzida em poses "sexy" nos gigantescos cartazes publicitários pelas fachadas da cidade, e ao seu caniche. Na terceira, "El Chivo", um vadio assassino a soldo amante de cães tenta prestar contas com o passado através de uma aproximação à filha, que o desconhece.

Além do elemento "canino", a servir de pedra-de-toque em todas as narrativas (partindo do pressuposto de que cada cão é uma projecção do seu dono), Iñárritu socorre-se de outro dispositivo para fazer convergir as três histórias: um aparatoso acidente de viação (a lembrar solução idêntica no recente "Snatch - Porcos e Diamantes", de Guy Ritchie) acolhe-as no mesmo espaço e serve ao realizador para expor o seu domínio da coreografia narrativa, onde a referência a Quentin Tarantino parece inevitável (embora dada a certos exageros, já que o realizador de "Pulp Fiction" dispensa o calculismo moralista de "Amor Cão" e a crueza deste último parece mais radical em relação à ironia refinada de Tarantino).

"Amor Cão" abre aos solavancos, com uma perseguição de automóveis e um corpo a sangrar no banco de trás, tal como "Cães Danados" - só que, desta vez, não é Tim Roth (Mr. Orange), mas um cão a merecer cuidados intensivos. "El Chivo", o assassino a soldo, resgata o cão feroz de Octavio para o seu casebre e trata dele, mas um dia, quando o deixa sozinho com os outros rafeiros de estimação, é a sua própria natureza que fica à mostra nas carcaças ensanguentadas dos cães. Moral da história: "El Chivo" redime-se e parte para o deserto à procura de vida nova. É, esse, aliás, o destino de todos os protagonistas de "Amor Cão" - o reencontro (possível) depois da perda.

Iñárritu, cuja primeira longa-metragem já mereceu as mais entusiásticas aclamações, revela pulso no encadeamento das narrativas - a que se alia a sempre tão eficaz câmara trepidante, a propulsionar o ritmo alucinante do filme -, mas o resultado estará mais próximo de uma linguagem que remete para os videoclips rock (com uma dispensável sobrecarga da banda sonora) do que da cuidada "mise-en-scène" de Tarantino, para voltar à referência mais recorrente. Por outro lado, a forma como a razia devoradora se dissolve num moralismo sobranceiro atira "Amor Cão" para um convencionalismo disfarçado. Ainda que espertalhão.