Desta vez, o Nicola morreu mesmo

Há cafés que morrem devagar, demasiado devagar. E talvez isso explique a ausência de paixão pela morte do Café Nicola, na Figueira da Foz. A transformação do espaço numa pizzaria arrasta saudades, mas saudades de há muito tempo. Do tempo em que o balcão era alto de mais, em que as mesas eram pesadas, de mármore, e as cadeiras desconfortáveis; em que o soalho cedia a um passo mais convicto e a luz se recusava a entrar pelas várias portas que se escancaravam para a Rua do Casino e para o Picadeiro. Pode ter-se saudades de uma coisa assim? Jorge Rigueira sorri: pode.Jorge Rigueira não tem saudades apenas do tempo em que viveu o Nicola. Sente a falta do que ouviu contar. E esse é um sentimento que partilha com outros ex-clientes do café, que beberam dos pais e dos avós os relatos de uma época em que ninguém se lembraria de querer pôr a Figueira na moda porque, de facto, ela já estava na moda. Chamavam-lhe a "Rainha das Praias" aqueles que, sazonalmente, a invadiam para uma feira de vaidades que tinha o epicentro entre o Nicola, precisamente, e o Casino da Figueira da Foz. Nos anos 50, já o café de muito fumo, música ao vivo e tacadas ruidosas nas mesas de bilhar tinha sido invadido pelas mulheres, uma conquista das refugiadas da II Grande Guerra que, desafiando os costumes, desbravaram um caminho que outras trataram de seguir. Num tempo em que se mudava três vezes de "toillete" - uma para ir à praia, outra para passear pelo Picadeiro e uma terceira para as animadas noites do Casino -, o Nicola entrou no roteiro da noite, um palco a somar aos outros, onde se invejavam elegâncias e se adinhavam novos amores e traições iminentes.Aberto até às 4h00 da manhã, o Nicola matava os apetites da madrugada, quando senhoras e senhores aperaltados, saciados de espectáculos de variedades e das sortes do jogo, se entregavam a um bife à Nicola para esgotar o fio da noite. Pela manhã, acordava pronto para servir o abatanado, um café vertido em chávena larga, que enganava o cansaço e dava alento à má língua, a quem deixava também correr a tarde por entre os prazeres dolentes do "crochet", de um jogo de xadrez ou de mansas leituras de jornal. As memórias de Jorge Rigueira, de 58 anos, cruzam-se com as de Silvino, de 73. Silvino, de fraque no Inverno e casaca branca no Verão, mestre da bandeja, que explica que o balcão não era alto de mais: tinha a medida certa para que os clientes a ele não se encostassem, sentando-se antes às mesas, onde os empregados amealhavam o ordenado: dez por cento da caixa, ao fim do dia. A Silvino e António - os dois empregados de mesa do Nicola durante dezenas de anos - juntavam-se sazonalmente mais sete, os necessários para dar resposta à vaga de turistas que o calor arrastava. De entre estes, havia sempre um mais ousado que gritava "Aí vai rato!", para que todos pudessem apreciar o "frufru" das senhoras em guinchos, de saias levantadas, em cima das cadeiras. Aquela brincadeira - a dos ratos - poderia tê-los feito perceber que a morte do Nicola estava próxima. Nos início dos anos 70, a Inspecção Sanitária ditou-a encerrando a casa, que reabriu mais pequena, sem as mesas de mármore, sem o piso incerto, sem a sala de bilhar, sem o balcão alto de mais. "Uma tragédia", resume Rigueira. "Muita gente chorou", confirma Silvino. Reabriu mais moderno, o Nicola, que ainda acolheu as conversas segredadas daqueles que sonharam a revolução de Abril. E mais moderno foi ficando, ao ritmo da fuga dos turistas para o Algarve e das sucessivas remodelações, que o tornaram cada vez mais igual aos outros. Aparentemente, é assim que morrem os cafés, quando morrem devagar. Se calhar, quando encerrou as portas, este mês, já só lhe restava o nome. Reabrirá com outro: Pizza Hut. Desta vez, o Nicola morreu mesmo.