Vida de violinista

Vasco Barbosa recebeu este ano o Prémio Ribeiro da Fonte, uma merecida homenagem a toda uma vida dedicada à música. E diz: "Graças a Deus tenho muita coisa para recordar."

O violinista Vasco Barbosa falou com o MIL FOLHAS no Bar dos Artistas do Teatro Nacional de São Carlos. Como concertino [primeiro-violinista] honorário da Orquestra Sinfónica Portuguesa, ia participar de seguida na última récita de "Parsifal". Despediu-se para se dirigir à sua estante no fosso, meia hora antes do início do espectáculo, porque, para ele, a concentração nesses minutos prévios é a garantia de que tudo vai correr bem. Vasco Barbosa, que já conta 70 anos, dedicou toda a sua vida à música, que para ele "é uma paixão, um amor, uma religião, é sagrada." Nasceu no seio de uma família de músicos. Formou-se com o seu pai e com dois dos maiores violinistas de todos os tempos: Georg Kulenkampf e George Enescu. Foi, durante décadas, o concertino da Orquestra da Emissora Nacional e da Orquestra do Teatro de São Carlos e teve ainda tempo para desenvolver uma intensa carreira como solista, chegando a ser, como o seu pai antes dele, o violinista português mais importante da sua geração.Vasco Barbosa - Dei o meu primeiro concerto aos 11 anos de idade, portanto, lá vão 59 anos de carreira. Fiz a minha primeira apresentação com a minha irmã e com a Orquestra da Emissora Nacional, dirigida pelo maestro Pedro Blanch. Era um grande maestro e um grande acompanhador e tratou-me com muito carinho. Na orquestra estava o meu pai e outros músicos que faziam parte do Quarteto da Emissora, da qual ele era chefe. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, de ir à Rua do Quelhas. Nesse tempo, aquilo para mim era Hollywood: com aqueles microfones, a orquestra, aqueles corredores...Falou no seu pai e na sua irmã: provém, portanto, de uma família musical...Nasci numa casa de músicos, já que o meu pai, Luís Barbosa, era considerado o melhor violinista português do seu tempo. Além de grandes dotes como violinista, também tinha grandes dotes de pedagogo. Conhecia a música toda e não ignorava nada dos segredos da arte do violino. A minha mãe foi discípula do meu pai, mas depois dedicou-se ao piano e tocou com ele todas as sonatas mais importantes que existem. A minha irmã Grazi foi sempre a minha grande acompanhadora.Chegou a frequentar o Conservatório?Eu não sou um produto do Conservatório. Ao Conservatório só fui fazer exames. Tive depois uma bolsa de estudo do Instituto para a Alta Cultura. Fui para a Suíça, em 1947, para trabalhar com Georg Kulenkampf, um grande violinista alemão, de quem eu tenho umas saudades imensas, como professor e como pessoa. Tinha o braço direito mais leve que eu vi na minha vida.Fui, depois, para Paris, onde tive aulas com George Enescu e com a assistente dele, Ivonne Astruc. O maestro Enescu dava sete horas seguidas de aula sem pôr uma partitura na estante do piano. Tocava tudo de memória, já que era também um excelente pianista. Personificava a música. Mais tarde estive em Nova Iorque, com uma bolsa da Gulbenkian, onde estudei com Ivan Galamian, que era então uma "fábrica" de violinistas.A primeira vez que toquei numa orquestra foi também com a da Emissora Nacional. Eu estava na América, e nessa altura retirou-se um violinista, muito bom, chamado Paulo Manso, um grande amigo meu. Ele passou para a segunda estante, e, então, o chefe da repartição musical, Pedro Prado, mandou perguntar se eu não queria o lugar de solista, alternando com outro violinista que estava lá há mais tempo. Voltei e entrei na orquestra. Pedro de Freitas Branco estava então a preparar a "Quinta Sinfonia" de Mahler, que é uma obra muito difícil, de maneira que passou o tempo a gozar-me, vendo a minha atrapalhação e dizendo: "Que estreia, Vasco, que estreia!"Como conseguia conciliar o trabalho na orquestra com a sua carreira como concertista?O lugar de concertino é muito fatigante. Não é só tocar. É preciso marcar as arcadas, é preciso afinar a orquestra, essas coisas todas. Por isso acabei por desistir da leccionação, já que também nunca quis abdicar da minha carreira como solista. Contudo, o trabalho na orquestra é de tal maneira absorvente que, às vezes, mesmo que tenhamos tempo, já não temos coragem para pegar no violino, de maneira que eu não fiz na vida senão uma pequena parte daquilo que gostaria de fazer. Acha que, nessa altura, os músicos eram bem vistos profissionalmente?Um músico poderia ser considerado o melhor de Portugal, mas nunca obtinha nem o prestígio nem a consideração que se conseguiam noutras profissões. A música é uma coisa muito bonita, mas... Os "cachets" foram sempre muito pequenos neste país. Na Emissora Nacional, por um recital, eu ganhava 500 escudos. Mais ou menos por essa altura, na Rádio Genebra ganhava, pelo mesmo recital, sete contos. Temos grandes nomes - uma Maria João Pires um Pedro Burmester -, mas nós, aqui, não passamos desta modéstia. O nosso trabalho dificilmente chega até Badajoz.São precisos mais concertos. Se você me dissesse agora: "prepare o concerto de Brahms", para mim não seria a mesma coisa prepará-lo para uma só vez do que para dez vezes. É também preciso investir na formação de mais público, através das escolas e com sessões no género das organizadas pelo maestro Atalaia. Eu próprio colaboro nos seus concertos com o meu quarteto, que se chama Quarteto Atalaia em homenagem a ele. Trata-se de um trabalho extremamente gratificante.Em jeito de conclusão, é capaz de assinalar os momentos mais importantes da sua carreira como intérprete?Qualquer dos concertos que fiz foi para mim importante, fosse qual fosse o maestro e fosse qual fosse o concerto. Toquei como solista em Paris, na Alemanha, toquei o concerto de Saint-Saëns no Utrecht, e na Musikverein de Viena. Toquei em Barcelona e em Londres, no Palácio de Windsor. Dei recitais no Brasil. Com a Orquestra, lembro-me também de coisas maravilhosas: dos primeiros Festivais Gulbenkian, onde trabalhei com grandes maestros, e de óperas magníficas, aqui no São Carlos, com maestros já históricos, que conheciam os cordelinhos todos do ofício. Graças a Deus tenho muita coisa importante para recordar.