Os segredos da laca japonesa

Há pó de ouro e prata à mesa. Ao lado estão placas de madrepérola, tão finas que mais parecem asas de borboleta. Estes são apenas alguns dos delicados materiais necessários para a técnica da laca japonesa. O método milenar foi ensinado, ao longo da semana passada, pelo especialista belga Jean Lemmens para 12 participantes da oficina "Uma Matéria/ Um Mediador Cultural", na Escola Superior de Artes e Design (ESAD), na Senhora da Hora, Matosinhos. O grupo incluiu estudantes e profissionais de joalharia, que pretendem utilizar esta arte no fabrico das suas peças. Pena é que quase todos estes ingredientes são demasiado caros e não estão à venda em Portugal. Para facilitar o trabalho dos alunos portugueses, Lemmens trouxe na bagagem não só os materiais importados do Japão, mas também placas lacadas já prontas. Elas estão para os trabalhos com laca como a tela para a pintura. Os participantes perderiam duas semanas só para fazê-las - são finas tábuas de madeira, cobertas por laca com farinha de arroz, depois por barro, um pano de linho e, só então, pintadas com laca colorida. Assim, o artista belga queima uma etapa e passa logo para a seguinte e mais criativa: decorar aqueles rectângulos negros ou vermelhos. O aluno da ESAD Ricardo Barbosa, de 22 anos, inspirou-se numa pintura pop de Roy Lichenstein e criou uma composição com três elementos: uma mulher, uma árvore e uma planta rasteira. E cada uma das figuras pretende utilizar materiais diferentes. No terceiro dia da oficina, Ricardo gastou três horas a aplicar minúsculos pedaços de madrepérola sobre o desenho do vegetal. "Veja como ele está feliz, trabalhando em silêncio. A laca é uma maneira de viver", nota Lemmens. Àqueles que querem lançar-se na aventura da laca improvisadamente, o artista belga adverte que "esta arte exige muita disciplina e paciência". É que, uma vez iniciada a tarefa de aplicar o pó ou a casca de ovo sobre a laca líquida, é preciso completá-la sem interrupções. Quando está no seu gabinete de criação e o telefone toca, por exemplo, Lemmens ignora o som intermitente e deixa que o atendedor de chamadas resolva o problema. Apenas uma pessoa com esta organização conseguiria demorar três anos para finalizar uma peça - um aparador de louças vermelho, com três metros de comprimento, em forma de barco. Lemmens diz que é o único especialista desta técnica na Europa e reconhece que ela exige muito do artista. Talvez por isso já esteja a ensinar, particularmente, dois alunos seus da Academia Real de Belas-Artes da Bélgica, onde lecciona joalharia. Instado a comentar o desempenho do grupo português, Lemmens limita-se a dizer que são "muito interessados" e que se "encantaram com os materiais e instrumentos". Pincéis feitos de pêlos de rato, gato e até de cabelo feminino, espátulas artesanais e verniz de cinzas de corno de veado despertam, indiscutivelmente, o interesse de qualquer um. Foi o caso de Ana Resende, de 23 anos, formada em joalharia. Apesar de ter faltado ao segundo dia da oficina, estava disposta a conhecer vários materiais orgânicos. Planeou formas geométricas para o seu rectângulo, e vai preenchê-lo com madrepérola, laca colorida, pó de prata e ovo. Já a estudante Telma Oliveira, de 24 anos, optou por construir ondas de mar nacaradas. A aluna estava ansiosa para conhecer a técnica desde o dia em que a professora Ana Campos anunciou, numa das aulas, a vinda de Lemmens a Portugal. "É uma forma de abandonar a ourivesaria tradicional e utilizar, por exemplo, a laca como complemento do ouro. Só é pena não termos acesso a esses materiais em Portugal", disse Telma. A ESAD estuda agora a possibilidade de retribuir a visita de Lemmens. A ideia é que Ana Campos vá a Antuérpia participar numa oficina homóloga, ainda que sobre outro tema, com os belgas.