Morreu o galã da luva preta

<EM><FONT FACE="Times New Roman" SIZE="4">FUNERAL DE ARTUR SEMEDO REALIZA-SE HOJE</FONT></EM><STRONG><EM>Vivia entre o cinema e o seu Benfica. Era um dos últimos de uma geração de grande actores, irreverente, sempre com um riso nos lábios, mesmo estando só</EM></STRONG>O seu último filme foi "O Querido Lilás". Obteve com esta obra, em que participou Herman José, o Grande Prémio do Cinema Português atribuído, em 1991, pelo ex-Instituto Português do Cinema. Foi uma espécie de troféu simbólico para coroar uma vasta carreira multifacetada de realizador, argumentista, actor, cronista, com um pé no teatro e no cinema e outro na rádio e na televisão. Artur Semedo morreu na madrugada de ontem, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, vítima de cancro. Tinha 77 anos.Nasceu em Arronches, distrito de Portalegre, em Novembro 1924, de uma família de latifundiários e militares. Mas não seguiu os passos dos seus antepassados, tendo optado por uma carreira de artista. Em Portalegre, o seu professor, o poeta José Régio, descobriu nele, desde cedo, disse Manoel de Oliveira à Lusa, uma veia com "qualidades artísticas". Este cineasta considerava-o "uma pessoa muito especial" cujos filmes possuíam "uma realização muito concertada".Semedo frequentou o Colégio Militar, cursou Ciências, mas a sua natureza indisciplinada, o seu humor muito particular, a sua paixão pelo teatro e pelo cinema levaram-no a inscrever-se no Conservatório (1944) e a iniciar uma carreira artística na companhia Os Comediantes de Lisboa. O seu mestre no teatro, segundo dizia, foi o actor Ribeirinho com quem trabalhou no Trindade e no antigo Teatro Apollo, no Martim Moniz. Semedo trabalhou com grandes actores como João Villaret, António Silva, Maria Lalande, Vasco Santana, Mirita Casimiro, Alves da Cunha, Lucília Simões. No antigo Teatro Monumental, durante mais de uma década, contracenou com Laura Alves e viveu um momento alto da sua carreira de actor de teatro com êxitos como "O Meu Amor é Traiçoeiro" de Vasco de Mendonça. A sua passagem pelo Parque Mayer ficou também marcada pelo seu traço humorístico, polémico, cáustico e comprometido na crítica ao regime, denúncias que estendeu aos seus filmes, que não poupavam, ainda que de uma forma subtil, o salazarismo, a PIDE, os governantes e a mentalidade tacanha do Portugal de então. O primeiro filme que realizou, uma longa-metragem datada de 1956, tinha já um título intencional, "O Dinheiro dos Pobres". Outros filmes espelham esse lado satírico de Artur Semedo, como "Malteses, Burgueses e às Vezes" (1973), "O Barão de Altamira" (1987) e talvez o seu maior êxito, "O Rei das Berlengas" (1977), protagonizado pelo actor genial que era Mário Viegas.Estreou-se no cinema como actor, em 1949, no filme "Sol e Toiros" de José Buchs, tendo entrado em dezenas de filmes portugueses e estrangeiros. Trabalhou com os mais conhecidos realizadores portugueses da velha e da nova geração do cinema português dos anos 50 e 70. Entre eles, estão Manuel Guimarães ( "Saltimbancos", 1952 e "Vidas sem Rumo",1956) e Jorge Brun do Canto ("Chaimite", 1953) e duas décadas depois, José Fonseca e Costa ("Os Demónios de Alcácer Quibir", 1975), Luís Galvão Teles ("A Confederação", 1976) e Fernando Lopes ("Crónica dos Bons Malandros", 1977). A sua última aparição no cinema foi em 1992, num pequeno papel, em "Aqui D'El Rei" de António Pedro Vasconcelos. Este cineasta, para quem Artur Semedo era um homem de "um humor fino e subtil", salientando também a sua "amizade e lealdade", inventou para ele uma rábula apenas para que ficasse ligado aos seus filmes. No estrangeiro participou em vários filmes, destacando-se, em 1981, a sua presença em "O Estado das Coisas" de Wim Wenders.O funeral de Artur Semedo realiza-se hoje, pela 14h, da Igreja das Furnas, em Lisboa, para o cemitério dos Prazeres, estando prevista, às 14h30, uma passagem pelo Estádio da Luz, onde a bandeira está desde ontem a meia- haste, em memória de um dos mais emblemáticos e ferverosos sócios daquele clube.