Crítica

O Vento Levar-nos-á

Uma Fatia do Mundo Em todo o cinema contemporâneo, ninguém manipula mais os dados do real e a percepção do espectador do que Abbas Kiarostami: o iraniano pode ser ou não o melhor cineasta em actividade, mas é seguramente o mais sofisticado. A pouco e pouco, mas sem impasses nem recuos, o cinema de Abbas Kiarostami não pára de nos obrigar a rever as ideias que temos sobre ele. Hoje, já ninguém repetirá o que se dizia no princípio da década de 90, quando Kiarostami foi revelado ao Ocidente sob o signo do neo-realismo, cujo "segredo" mais cuidadosamente escondido (o de Rossellini) ele teria descoberto. Mesmo que, de certa forma, se possa, por essa ordem de ideias, defender que o seu cinema é cada vez menos "realista" ("neo" ou não) e cada vez mais "rosselliniano", e que nele os seres e as coisas são cada vez mais atravessados por uma metafísica enigmática que questiona o lugar do humano e o lugar do divino, numa hipotética equivalência islâmica para os dilemas católicos do realizador italiano - e nisso, o filme precedente de Kiarostami, "O Sabor da Cereja", terá ido tão longe quanto, até agora, foi possível. Mas já ninguém falará, também, da simplicidade ou da "limpidez" do cinema de Kiarostami. Pela boa razão de que os seus filmes estão cada vez mais obscuros (porventura sempre o terão sido), e cada vez mais organizados (cerrados?) em torno de um jogo entre verdade e falsidade cujos termos Kiarostami nunca tem interesse em deslindar. Esse jogo, que passa pelas mirabolantes construções formais do iraniano, tem incidências especiais não só sobre o "realismo" do seus filmes mas mais ainda sobre a validade das suas propriedades "documentais": a Kiarostami interessa menos o "documento" do que o "documentário" enquanto género cinematográfico, ou seja, enquanto produção formal cujos códigos e regras servem sobretudo para reinventar, sabotar e simular - é por isso que mesmo os seus mais celebrados dispositivos de "apropriação" da continuidade do real (por exemplo, os famosos travellings com a câmara montada em automóveis) se vêem com a sensação perturbante de que estão a ser utilizados para esconderem em vez de revelarem, para distrairem o espectador oferecendo-lhe uma "fatia do mundo" e fazê-lo esquecer da existência de um fora de campo. Em todo o cinema contemporâneo, ninguém manipula mais os dados do real e a percepção do espectador do que Kiarostami - a simplicidade outrora louvada dá lugar à única conclusão possível: o iraniano pode ser ou não o melhor cineasta em actividade, mas é seguramente o mais sofisticado.

O mais complexo filme de Kiarostami

Isso vê-se muito bem neste "O Vento Levar-nos-á", que guarda muito boas razões para ser considerado o mais complexo filme do cineasta. O ponto de partida é este: um homem (que não é um duplo de Kiarostami mas reproduz o seu estatuto enquanto cineasta, enquanto alguém que vai filmar "os outros") desloca-se a uma aldeia perdida nos confins do Irão com o fito de registar uma cerimónia fúnebre particularmente violenta, em que as carpideiras se auto-flagelariam e auto-mutilariam para exprimir a sua dor. O tempo do filme é o tempo da permanência do homem na aldeia, à espera que uma idosa moribunda finalmente morra e propicie a cerimónia - o que não vai ser tão rápido quanto o homem esperava, e o obriga a permanecer na aldeia durante alguns dias. Em princípio, tem portanto tempo suficiente para se envolver no quotidiano da aldeia, observá-lo e percebê-lo. Mas não observa nem o percebe, porque entre outras coisas essa personagem serve a Kiarostami para mais uma vez abordar o documentário enquanto género cinematográfico - neste caso, para fazer a sua crítica. Não é inocente o tema da morte nem o pretexto da cerimónia, porque quer um quer outro servem para exprimir uma certa atitude "vampiresca" do documentarista, aquela espécie de fascínio mórbido, entre o egoísmo e a compaixão, do "homem civilizado" pelo sofrimento do "subdesenvolvido". É significativo, portanto, que o homem acabe por não ver nada, nem a cerimónia (que acontece muito rapidamente e o apanha desprevenido) nem o que se passa à volta dele. E o que há de genial em "O Vento Levar-nos-á" é a forma cinematográfica como Kiarostami lida com esse "não ver". Primeiro pelo ritmo que opõe o "civilizado" aos "subdesenvolvidos": o filme tem um movimento diabólico, totalmente inesperado num filme de Kiarostami, gerado por uma ideia admirável - o telemóvel do homem (irónico símbolo da sua "urbanidade") não consegue obter linha na aldeia, o que obriga a personagem a um frenético vaivém entre a aldeia e uma colina próxima sempre que recebe uma chamada. Depois, pela utilização altamente sistematizada do fora de campo: há personagens (por exemplo os próprios colaboradores do nosso homem, ou o operário que apenas ouvimos dentro do buraco que se encontra a escavar) de que apenas temos o som, campos/contracampos apenas intuídos e, nalguns casos (o plano do homem barbeando-se com a câmara no lugar do espelho), no limite do exibicionismo do aparelho cinematográfico.

A impotência do cinema

Em campo, ficam portanto apenas uma série de indícios que reenviam permanentemente para o espaço em "off", mas indícios com que o nosso homem não sabe o que fazer - pode-se dizer que os deita ao rio, como na última cena faz ao fémur que o coveiro lhe tinha passado. Mas também aqui há um discurso sobre o cinema: sobre a sua impotência para influenciar o rumo das coisas (a aldeia resiste incólume à passagem do cinema por ela, e até o cágado que o homem virara de pernas para o ar com um pontapé depois se consegue endireitar sozinho); e num contexto porventura mais especificamente iraniano, sobre a sua incapacidade para abordar a "verdadeira vida". É como se dessa vida Kiarostami não pudesse dar senão, justamente, indícios - da conversa com a velhota, logo ao princípio, sobre "as três profissões da mulher", ao plano quase "mizoguchiano" da rapariga "sem rosto" que trabalha às escuras no fundo de uma cave, passando pelo rosto do miúdo aterrado com os seus "trabalhos de casa" e com os exames que lhe perguntam "o que acontece aos bons e aos maus no dia do julgamento final", coisa a que ele não sabe responder. Se a dimensão política (ou seja, de análise das condições sociais do quotidiano iraniano) sempre esteve presente de forma subtil e sibilina no cinema de Kiarostami, talvez nunca tenha parecido tão evidente como neste filme. Porque ao empolar a construção formal até níveis próximos do exibicionismo (que lhe terão valido as primeiras acusações de se estar a repetir e auto-citar), ao denunciar essa construção como um logro, e ao esvaziar e remeter tudo para o fora de campo, Kiarostami estará afinal a confrontar-nos com o único campo possível de "O Vento Levar-nos-á": a maneira como vivem as mulheres e as crianças do Irão rural. Por portas travessas, o documentário sempre acaba por se cumprir. Mas é pelas chaves que conduzem a essas portas que Kiarostami é, repetimos, o mais sofisticado de todos os cineastas.