Crítica

O Verão de Kikujiro

Mesmo para quem só tenha vista "Fogo de Artifício", o único filme de Kitano até agora estreado entre nós, já de si uma obra de transição, longe da concentração implosiva de uma obra-prima de violência contida como "Sonatine", este "O Verâo de Kikujiro" faz figura de estranho ovni. Filme experimental sobre relações entre personagens, produto de uma quase improvisação sobre os espaços, viagem a um mundo representativo da infância com uma inocência estudada e deliberada, esta história quase chaplinesca de um pequeno tratante e do seu companheiro infantil parece aproximar o Kitano-actor da sua persona clownesca de incidência televisiva e de tão grande popularidade no Japão. Não obstante alguns momentos em que tacteia à procura de uma espessura narrativa, que parece escapar-lhe, "O Verão de Kikujiro" acaba por revelar-se um belíssimo estudo sobre a inexistência de um tempo real no cruzamento entre dois projectos complementares, dois esboços de ficção, duas personagens perdidas à procura de autor