Crítica

O Anjo da Guarda

Depois do prometedor "Relação Fiel e Verdadeira" e da invisibilidade de "A Rosa Negra", devida a inexplicáveis problemas de distribuição, Margarida Gil consegue, finalmente, entrada de leão no panorama do cinema português. E que falta fazia este olhar magoado sobre um mundo em abismo, de sensações e de memórias feito! Construído com uma sensibilidade rilkeana sobre os resquícios de um romantismo impossível, "O Anjo da Guarda" é um filme sobre a morte e sobre a agonia dos sentidos. Quatro mulheres conduzem o jogo e pautam uma geografia reconhecível da sobrevivência entre ruínas: a memória etnográfica (e idealizada) de Timor, a imagem da casa, espaço da infância, com a repetição ao pormenor de todas as iguarias, de todas as recordações, de todos os fragmentos de melodias perdidas. Belíssimo, o momento antológico em que Natália Luísa (como é possível que uma fabulosa actriz como ela continue nas margens, à mercê de redescobertas episódicas) e Isabel de Castro (a grande "feiticeira" que encerra o ritual de vida após a morte) se encontram em silêncio, prolongando a necessária mas temida chegada à palavra, numa conivência atávica e eterna; belíssima a sequência em que Pedro Hestnes e Natália Luísa se atribuem nomes de rosas, supremo acto de amor que se desdobra na elíptica união, depois do pudico banho. Contrapondo-se a esta tessitura feita de surdinas do sentimento, ergue-se o estrépito de um olhar satírico sobre o nosso descontentamento (porque nos lembrámos de "Tráfico"?). Do total, pontuado pela imagem de um anjo de gravura colhido na infância, ressalta a capacidade para conciliar, sobre as harmonias mais-que-perfeitas de Maria Velho da Costa, as intranquilidades possíveis. A não perder por nada desta vida.