Crítica

A Sombra dos Abutres

Este é a primeira longa-metragem de Leonel Vieira realizada em 1996 e que agora encontrou possibilidades de estreia graças ao sucesso do filme seguinte do realizador, "Zona J". Os resultados não podiam ser mais diferentes: "Zona J" captava uma energia urbana de hoje, num gesto quase gráfico de pintura de "graffiti"; "A Sombra dos Abutres" imobiliza-se em vinhetas que querem reconstituir os anos 60 portugueses no nordeste transmontano, contando a aventura de dois homens ? o mineiro Daniel (Vítor Norte) e o seu cunhado Zé (Diogo Infante) ? em fuga para França com a sombra dos "abutres", a PIDE, a fazerem-lhes o cerco. O maior problema deste filme é que lhe falta uma razão de ser para além dos esforços de reconstituição ? do guarda-roupa à "voz" da rádio que anuncia, para situar cronologicamente a acção, a morte "da famosa actriz Marilyn Monroe" ?, que resultam "falsos", expedientes de maquilhagem. O filme fica marcado por um "neo-realismo" balofo que afecta o didactismo de que o filme se investe com a estreia à beira das comemorações do 25 de Abril. Ainda por cima "A Sombra dos Abutres" vem a seguir a "Cinco Dias, Cinco Noites", de Fonseca e Costa: a comparação é imediata, dá um tom perverso de colagem, e é desfavorável em relação ao filme de Leonel Vieira.