Falta de coelhos ameaça águia-perdigueira

Os biólogos do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) estão assustados com a diminuição da densidade de coelho nesta área protegida. Um surto da doença hemorrágica viral de proporções nunca vistas provocou, no ano passado, uma verdadeira razia naquela espécie, que constitui a base de alimentação de alguns predadores, como é o caso da águia-perdigueira, uma das aves de rapina mais ameaçadas e que tem naquele parque um dos seus santuários. No PNDI fala-se já em "drama silencioso".

"Um drama silencioso". É assim que António Monteiro, biólogo no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) se refere ao surto da doença hemorrágica viral (DHV) que, no ano passado, dizimou as populações de coelho no Nordeste transmontano e na zona espanhola fronteiriça. Mais do que um problema cinegético, a escassez de coelhos representa um problema ecológico de consequências inimagináveis, uma vez que esta espécie é o pilar da cadeia alimentar naquela área protegida.O coelho serve de alimento à raposa, à gineta, à fuinha, ao açor, ao britango (também conhecido como abutre do Egipto), à águia-calçada, à águia-real e, sobretudo, à águia-perdigueira (águia de Bonelli), espécies todas elas existentes na área do Douro Internacional. Do coelho também depende o lince, mas este predador há muito que desapareceu daquelas paragens. O que mais preocupa os biólogos do PNDI são as consequências que a diminuição do coelho pode ter sobre a população de águia-perdigueira. Ao contrário do que acontece com a águia-real, que tem hábitos alimentares mais variados, a águia-perdigueira tem no coelho um dos seus principais alimentos. "Estamos muito apreensivos. O surto hemorrágico foi mesmo grave e não sabemos que impacto vai ter sobre esta ave de rapina", diz António Monteiro. A águia-perdigueira é uma das espécies mais ameaçadas em Portugal. Em todo o país deverão existir cerca de 85 casais, grande parte dos quais nidifica no Nordeste transmontano. O Douro internacional, o Douro nacional, o vale do Sabor e o vale do Côa são, por esta ordem em termos de importância, os principais santuários da espécie.Na Península Ibérica, a águia-perdigueira está em regressão, mas na área do PNDI, onde estão referenciados 14 casais, a espécie está estável. Porém, a sua taxa de reprodutividade é muito baixa, sendo bastante inferior a uma cria por casal por ano. "São valores já por si muitos baixos e o nosso receio é que baixem ainda mais", sublinha António Monteiro. Os surtos de mixomatose e de DHV nos coelhos são recorrentes, mas o surto de hemorrágica viral que ocorreu no ano passado, em particular no primeiro semestre, atingiu um nível nunca visto. Sobretudo em Trás-os-Montes e nas Beiras. "Não me recordo de um ano tão fraco em coelhos", diz Castanheira Pinto, presidente da Federação de Caçadores da 1ª Região Cinegética. "Há zonas do Douro Internacional em que o coelho desapareceu completamente. Talvez se tenha atingido o pico mínimo da densidade da espécie", acrescenta António Monteiro. Tanto a mixomatose como a DHV são doenças virais. A primeira tem nos mosquitos e nas pulgas a principal via de contágio. A infecção desencadeia a proliferação de pequenos tumores, em especial na zona do nariz e dos olhos, que levam à morte dos coelhos geralmente 12 a 21 dias após o contágio. Trata-se de uma enfermidade sazonal, uma vez que a sua máxima incidência ocorre na Primavera e no Verão. Por sua vez, a DHV ocorre durante todo o ano e caracteriza-se por causar a morte repentina dos animais, dois a três dias após a infecção, normalmente por asfixia, resultante de fortes hemorragias nos órgãos internos. A difusão desta enfermidade é muito rápida e a infecção induzida por via nasal e oral. A transmissão pode dar-se através do contacto directo entre os coelhos ou realizar-se de forma indirecta, através da ingestão de alimentos ou água contaminada com secreções ou excreções de animais infectados. Ambas as doenças são altamente contagiosas. "Basta haver um coelho infectado para que possa ocorrer uma redução drástica da população em causa", explica Helena Gonçalves, bióloga do Centro de Estudos de Ciência Animal, da Universidade do Porto. Nos últimos anos tem havido mais surtos de hemorrágica viral do que de mixomatose. O primeiro registo da doença em Portugal data de1989, um ano depois de ter sido detectada em Espanha. Cinco anos depois, a doença já estava disseminada por todo o território nacional. Um inquérito dirigido a todas as zonas do regime cinegético especial, realizado no âmbito de um protocolo estabelecido entre o ex-Instituto Florestal e o Instituto de Ciências Agrárias e Tecnologias Agro-Alimentares (ICETA), da Universidade do Porto, permitiu saber que a DHV tem uma maior incidência nos concelhos do interior de Portugal, "o que deverá estar relacionado com a ocorrência, em Espanha, de surtos da doença anteriores aos verificados no nosso país". Para os responsáveis por este estudo - Paulo Célio, Helena Gonçalves e Nuno Ferrand de Almeida -, "o aumento do número de concelhos com incidência de DHV pode estar associado ao elevado número de repovoamentos que, nos últimos anos, se têm efectuado em Portugal e nos quais se utilizam, frequentemente, coelhos provenientes de Espanha".Castanheira Pinto reconhece que há cada vez mais zonas de caça a importar coelhos espanhóis para repovoamento. Na sua opinião, esta prática só irá agravar ainda mais a situação da espécie, já que aumenta o risco de propagação da DHV e da mixomatose. Para António Monteiro, a resolução do problema pode passar pela criação de "santuários de reprodução natural" em áreas de interdição cinegética. Mas, como uma medida destas só produz efeitos ao fim de vários anos, o primeiro passo terá sempre que passar pela "redução da pressão cinegética". O problema é que a maioria dos caçadores não está disposta a esperar. Para estes, a solução chama-se vacina. As que existem actualmente são praticamente ineficazes, já que o seu efeito perdura apenas durante seis meses. As esperanças dos caçadores estão agora depositadas numa nova vacina que está a ser desenvolvida em Espanha e na Austrália. Trata-se de uma vacina recombinante, pensada para resistir tanto à mixomatose como à DHV, e em que é o próprio mosquito que leva o anticorpo aos coelhos.