Amores e desamores dos irmãos e irmãs de Portugal

"Ao fim de um certo tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta de frutos da terra. Por seu lado, Abel ofereceu primogénitos do seu rebanho e as suas gorduras. O Senhor olhou com agrado para Abel e a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta. Caim ficou muito irritado e andava de rosto abatido." Génesis 4, 3-5.

Há a distância. Os destinos profissionais diferentes. A morte dos pais. As partilhas. Mas para a maioria os laços fraternos permanecem ao longo da vida. Quando não se reforçam. Por causa dos filhos, por exemplo. Sondagem da Universidade Católica no país e inquérito directo da PÚBLICA junto de dezenas de irmãos e irmãs de apelidos sonantes.Não há dificuldade na vida que ponha em causa o amor dos portugueses e portuguesas pelos seus irmãos e irmãs de sangue. É esta, porventura, a principal conclusão de uma sondagem sobre o relacionamento fraternal, encomendada pela PÚBLICA à Universidade Católica Portuguesa.Para a maioria dos inquiridos, as relações com os irmãos permanecem iguais ao longo dos anos. Um em cada seis sente mesmo que elas se reforçaram. Apenas 7,6 dizem que os laços têm vindo a enfraquecer, ainda que mais de 20 por cento tenham preferido não se pronunciar sobre este ponto.Uma das provas do excelente relacionamento entre irmãos em Portugal, a fazer fé na genuinidade das respostas, é que mais de metade dos inquiridos já prestaram ajuda financeira ou albergaram um irmão e mostram-se convencidos de que a recíproca será verdadeira. As outras são a regularidade das visitas e o contacto telefónico que mais de 40 por cento dos inquiridos afirmam manter uma, duas, três, quatro, cinco vezes por semana. Chega quase aos dez, até, a percentagem dos que se falam todos os dias ao telefone. Mais de 60 por cento dos inquiridos visitam-se todos os meses pelo menos uma a duas vezes. Destes, cerca de 20 por cento fazem-no mais de dez vezes por mês.Surpreendentemente ou talvez não, a principal razão para o reforço dasligações fraternais é o orgulho que 38,6 por cento dos inquiridos dizem ter por pertencerem à mesma família, em contraste com os reduzidos 4,4 por cento que assumem ter pouco apreço pela família.O desaparecimento de alguém do círculo familiar íntimo e dificuldades de um dos irmãos contribuíram também em partes sensivelmente iguais para a melhoria do relacionamento. Há casos, porém, em que a morte dos pais desempenha um papel não negligenciável no esmorecimento das mesmas relações.Mas o principal factor que afasta os irmãos uns dos outros é a distância geográfica. A percentagem que atribui o enfraquecimento das suas ligações a esta razão quase coincide com a percentagem (27,9) dos que vivem a mais de 100 quilómetros dos irmãos. Quando crescem e se independentizam, os irmãos e irmãs não ficam a viver no mesmo bairro ou aldeia, nem sequer na mesma vila ou cidade, e apenas 9,3 por cento vivem juntos.A seguir à distância, os inquiridos apontam os destinos profissionais diferentes como principal factor de afastamento. Uns e outros, observa o psicólogo e professor universitário Eduardo Sá, "talvez representem formas subtis de racionalizar, através de motivos razoáveis, outras razões que o coração bem conhece". As desavenças familiares, como se esperava, pesam também no enfraquecimento das ligações. Entre elas, 8,8 por cento dos inquiridos apontam especificamente as partilhas, importante sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Norte (por esta ordem). O desejo de maior independência quase não tem relevância.Todos os factores relacionados com a assistência aos irmãos atingem particular relevância no Norte e Centro e no Alentejo, região onde a percentagem relativa dos que prestam apoio diário ou semanal na doença aos irmãos é das mais altas do país. Comenta o psicanalista Coimbra de Matos, a propósito dos amores e desamores que estes resultados indiciam: "Irmãos (no limite, gémeos) quanto baste para selar a necessária similaridade (triunfo da igualdade) e diferentes ('desirmãos') o suficiente para não se confundirem e sem o excesso que os possa tornar invejosos."Os sentimentos fraternais dos portugueses anónimos revelam-se, no essencial, semelhantes aos dos famosos. Apesar de algumas recusas ou silêncios (o psiquiatra Daniel Sampaio, o líder do CDS-PP Paulo Portas, os irmãos Mello, o banqueiro Jardim Gonçalves, alguns dos irmãos Beleza, entre outros) e de várias inacessibilidades momentâneas ou estratégicas, dezenas de irmãos e irmãs supermediáticos aceitaram desvendar à PÚBLICA sentimentos recíprocos, nomeadamente sobre a, por vezes, delicada questão da fama, que, ao catapultar um, pode colocar na sombra outro, não necessariamente menos dotado.O tempo outra coisa não tem feito senão reforçar os laços entre os nossos irmãos famosos, situação que surge claramente à frente entre as respostas às hipóteses oferecidas pelo inquérito. E não são poucos os que se declaram orgulhosos com a família em que nasceram. A professora universitária e escritora Clara Pinto Correia, a mais velha de quatro irmãs, considera que "o orgulho de pertencer à mesma família contou sem dúvida muito" para o reforço dos laços entre todas. "O desaparecimento de um membro talvez também, no sentido em que talvez nos tenhamos agarrado mais umas às outras desde que o nosso pai [José Pinto Correia, gastrenterologista de renome, presidente do Conselho Científico da Faculdade de Medicina e vice-reitor da Universidade Clássica] morreu. Mas é difícil predizer se as coisas teriam sido diferentes estando ele vivo." A actriz e realizadora de cinema Inês de Medeiros procede igualmente a uma viagem por "algumas constantes da família", que considera "marcada por uma grande independência". O orgulho de pertencer à mesma família "sempre existiu", mas Inês releva o que cada uma das suas irmãs (Maria, também actriz e realizadora, a residir, como ela, em Paris; Ana, meia-irmã, estudante de violino em Lisboa) "é como pessoa". Diz que lhes admira "os seus caracteres, talentos, força de vontade, inteligência e sensibilidade", mas acrescenta que também tem "alguma ternura por alguns defeitos", que aliás diz partilhar.Para explicar o sentimento "talvez indefinível e seguramente incomparável" que a une às suas duas irmãs (a deputada do CDS-PP, Maria José, e a responsável pelo guarda-roupa da SIC e "free lancer" de revistas de turismo e lazer, Maria da Assunção), a jornalista Maria João Avillez regressa à infância, "à tão feliz e deslizante infância, vivida numa grande casa onde cada uma tinha o seu canto que era um mundo; ao jardim imenso; às férias passadas noutra casa, ao pé do mar. À sorte de ter uns pais que nos explicaram que era melhor pensarmos por nós, abrindo-nos a janela de mundos muitos diversos, social, cultural e politicamente falando. (Direi porém que nada disto teve a ver com dinheiro. Nunca fomos ricos mas crescemos sem ouvir falar da importância ou do estatuto que vem através do dinheiro). À medida que íamos crescendo, tudo o que se seguiu continuou naturalmente pela vida fora, esta cumplicidade dependente que temos umas com as outras."A irmã Maria José, antiga subsecretária de Estado da Cultura, deputada do CDS-PP, explica como, para além dos laços do sangue, essas cumplicidades se foram reforçando: "Porque vemo-nos como uma equipa e sentimo-nos como os três mosqueteiros. Porque sempre que é preciso estão (estamos) lá. Porque tivemos da vida a mesma aproximação. Porque as coisas que priorizámos coincidem."Há quem veja, na intensa fraternidade de hoje, a forte ligação de ontem. Catarina Furtado, o rosto do lançamento da SIC, onde vai regressar dentro de três meses à frente do elenco da primeira telenovela do canal campeão de audiências televisas, di-lo explicitamente em relação a sua irmã Marta, actriz e finalista do Conservatório: "Ajudei os pais a tomar conta, dei-lhe beliscões, escondi-lhe a chucha, contei-lhe histórias, mentiras e verdades, levei-a pela mão, dei-lhe ordens, ensinei e aprendi, ri e chorei. Mais ou menos o que faço hoje, e o que sinto hoje, com um enorme orgulho. A relação foi crescendo no tempo e à medida das nossas próprias fases; a infância, a adolescência e o mergulho na maturidade. Hoje como ontem, dependemos dos conselhos mútuos e dos mimos." Nuno Azevedo, administrador executivo da Efanor Investimentos SGPS SA (holding detentora da participação de controlo na Sonae SGPS), aponta "razões profissionais e hábitos familiares (reuniões de família, prática de desporto, férias conjuntas)" como estando na base do reforço das relações com os seus dois irmãos, Cláudia, administradora da Sonae Matrix Multimedia SGPS, e Paulo, presidente da comissão executiva da Sonae.com.Alguns dos inquiridos indicam, contudo, que o verdadeiro e íntimo relacionamento surgiu na maturidade. "Não há nada melhor que as relações saudáveis entre adultos (certamente muito melhor que as birras da adolescência)", observa Clara Pinto Correia.Entre os irmãos mais velhos, um novo factor de aproximação, não contemplado no inquérito, surge com o nascimento dos filhos. "Todas temos filhos, e temo-los criado juntos tanto quanto podemos. É muito bom", diz Clara. Os filhos, observa ainda, fazem-nas sentir "parte integrante de um todo" que passa por elas "e se prolonga no tempo".O escritor António Lobo Antunes alude também ao "relacionamento espantoso, perfeitamente tribal" entre os 16 (dezasseis) filhos dos seis irmãos.Se estivesse em causa eleger a fratria mais feliz (avaliada através do tom das respostas), as quatro irmãs Pinto Correia e os dois rapazes e cinco raparigas da família Cavalleri figurariam certamente entre os principais candidatos. Do mais velho, Alexandre, 32 anos, à mais nova, Diana, 10 anos, todos os irmãos Cavalleri praticam ou já praticaram judo e é lá, sobre o tapete, que Filipa (a atleta olímpica) continua a encontrar-se várias vezes por semana com as suas irmãs Andreia e Inês, com as quais, aliás, horas depois volta a cruzar-se nos corredores da Faculdade de Motricidade Humana. "O judo reforçou-nos a noção, recebida da família, de que os mais velhos devem cuidar dos mais novos."A distância e os destinos profissionais diferentes, apontados pela sondagem como principais factores de distanciamento entre os irmãos, nada afectaram a magnífica relação que as Pinto Correia exibem. Clara esteve muitos anos na América, Teresa, geógrafa, professora universitária, esteve muitos anos na Dinamarca e agora vive com o marido e os filhos num monte alentejano, e no entanto as relações "reforçaram-se. Muito". A um ponto tal que sem elas Clara acha que "certamente não seria a mesma pessoa". Mais: "Ficaria completamente perdida."Rosário, 42 anos, directora da OgilvyOne, diz que as irmãs já se emprestaram dinheiro mutuamente, "várias vezes", e que os carros também já circularam entre umas e outras. "Felizmente as doenças não nos têm obrigado a apoios mútuos - mas eles existirão, sem dúvida, se forem necessários." Acrescenta: "Há um mini-apartamento para o que for preciso em minha casa e em casa da Teresa, e quartos em todas as outras casas... e já todas os usámos."No plano político-ideológico - o mais evidente, mas não o único em que figuras da mesma família em Portugal protagonizam projectos e comportamentos distintos e conflituais (vide caso herança Sommer) -, desacordos conhecidos ou intuídos transparecem nas respostas de alguns irmãos. "Há naturalmente, são conhecidas, opiniões políticas divergentes", assume António Lobo Antunes. No mesmo sentido vão as respostas dos três irmãos Rebelo de Sousa, que se situam politicamente em "quadrantes diversos". António Lobo Antunes conta que a política pura e simplesmente não é objecto de conversa entre os irmãos. Augusto Ferreira do Amaral, fundador do PPM, advogado (entre cujos cinco irmãos se encontram o candidato presidencial "dos não socialistas" e um antigo assessor do Presidente "socialista" Sampaio), aponta-nos um estratagema semelhante no qual provavelmente muitas famílias se reconhecem: os irmãos falam, "de preferência", de tudo o que os une "e mais facilmente agrada". Os inquiridos abordam com a maior naturalidade a questão da exposição pública. Para uns ela "é tão antiga, que é natural, é 'o dado'" óbvio, que as Pinto Correia, por exemplo, comentam "se for caso disso... para rir ou para chorar". Os Ivo Cruz (Mafalda, escritora, e três irmãos ligados ao mundo musical) lembram, por seu lado, que a música "está na família há três gerações".Quanto a ódios, se os houve, a raivas e a inveja, se as há, não transparecem nas respostas dos famosos, nisso coincidindo uma vez mais com os resultados do inquérito aos anónimos. Neste, a referência a "outras desavenças familiares" somou 14 por cento das respostas, menos de metade da percentagem de respostas que apontam a distância como causa principal do enfraquecimento das relações. Outro factor, além dos já citados "destinos profissionais diferentes" e das partilhas, é a morte dos pais, apontada por um em cada dez inquiridos como factor de afastamento dos irmãos.Estes resultados - os da sondagem nacional e os do inquérito junto de 12 famílias famosas - não surpreendem o psicanalista Coimbra de Matos, segundo o qual o sentimento de igualdade "dentro da fratria" proporciona "fortes e consistentes laços de união, ainda que se conheça também o poder da violência das guerras fratricidas". Carlos Amaral Dias, outro dos três psicanalistas abordados pela PÚBLICA, não acredita, porém, na genuinidade destas respostas, que atribui a um mecanismo psicológico próprio dos adultos que consiste "na transformação de uma emoção ou de um afecto ou de um pensamento penoso para a consciência no seu contrário". A resultante das complexas relações entre as crianças "é sempre conflitual", sustenta este professor com cátedra na Universidade de Coimbra e no ISPA de Lisboa. O que acontece é que, à medida que crescemos, "a vida faz-nos cada vez menos irmãos" e passamos a ter outras pessoas com quem estamos em conflito, rivalidade e competição (os colegas, os chefes). Amaral Dias não tem dúvidas: "Os irmãos são com certeza muito menos amorosos e afectivos na fratria do que se mostram no inquérito." Caim e Abel permanecem na História, portanto. O episódio bíblico que os dois irmãos protagonizam (Caim matando Abel por inveja dos favores que este merece de Deus) tem correspondência em cenas do nosso quotidiano. Basta olharmos para o que se passou na Fundação para a Prevenção e Segurança, de Armando Vara, nota o psiquiatra referindo-se ao caso que há duas semanas pôs o primeiro-ministro à beira de um ataque de nervos, levou à demissão de um ministro e de um secretário de Estado e causou estragos no partido no poder ainda por avaliar. "A Fundação podia chamar-se 'Caim e Abel'. Repare-se como nela o desejo de morte esteve omnipresente. Doutra maneira, claro: hoje já ninguém se mata, ministros não matam ex-ministros e vice-versa..."