O par ideal da NBA

Karl Malone e John Stockton são uma espécie de Bucha e Estica do basquetebol: uma parelha que encontra a força nas suas diferenças e que se entende na perfeição. Jogam juntos nos Utah Jazz há 16 anos e as suas carreiras na NBA têm sido uma sucessão de recordes individuais. Mas continuam a faltar os títulos.

Monótonos. Há quem até os ache os jogadores mais chatos que já passaram pela Liga Norte-Americana de Basquetebol profissional (NBA). Porque jogam sempre da mesma maneira e sempre com a mesma eficácia. O base John Stockton conduz o ataque, passa a bola ao extremo-poste Karl Malone que converte o cesto. Tem sido quase sempre assim nos últimos 16 anos. Os adeptos dos Utah Jazz já aprenderam a contar com a previsibilidade das suas duas "estrelas" e não se chateiam que o jogo da equipa seja igual há mais de década e meia. Desde que as vitórias continuem a aparecer, Stockton e Malone podem jogar em Salt Lake City até aos 50 anos. E ninguém tem dúvidas de que, quando acabarem as respectivas carreiras, ambos vão ter estátuas à porta do Delta Center, o pavilhão onde os Jazz disputam os seus encontros em casa.Se há equipas na NBA que são construídas à volta de um jogador - os Chicago Bulls de Michael Jordan são o melhor exemplo -, poucas são as que conseguem reunir no mesmo grupo duas "estrelas" com a qualidade de Karl Malone e John Stockton sem que haja qualquer tipo de conflito ou de sobreposição de vontades individuais sobre as necessidades do colectivo. Não são nem de perto nem de longe os jogadores mais bem pagos da NBA, mas nunca abandonaram os Jazz , equipa onde prometem ficar até ao fim da carreira.Malone tem 37 anos e Stockton 38, mas nenhum deles pensa em abandonar num futuro próximo. "Vou deixar de jogar quando vir que já não consigo correr o campo todo. Não quero andar a arrastar-me", confessa Malone, que tem um contrato com os Jazz até 2002. Já Stockton termina a sua ligação no final da presente temporada, mas, apesar de Malone ter divulgado que tanto Stockton como o treinador Jerry Sloan (12 épocas em Utah) iriam abandonar , Stockton manifesta-se disposto a continuar, mas não a qualquer preço. "Não posso ignorar a verdade. Se um treinador se chegar ao pé de mim e disser 'acabou-se', não quero continuar a jogar", declara o base dos Jazz que, a renovar o contrato, ainda estará a jogar quando tiver 40 anos.Quando chegaram à NBA ninguém dava muito por eles e muito menos se esperava que se viessem a dar tão bem. Ambos vinham de universidades obscuras e as grandes equipas tinham medo de apostar em jovens quase desconhecidos, com poucas credenciais. Malone veio da Louisiana Tech, enquanto Stockton se formou na Gonzaga University em Spokane, no estado de Washington. Fisicamente diferentes - Malone é negro e alto (2,05m) enquanto Stockton é branco e baixo (1,85m) -, apenas um ano separou a sua entrada na NBA. Juntos combinaram para 48034 pontos ao longo de 16 épocas e ambos detêm vários recordes da NBA (ver caixa). "Vi todos os pontos que ele marcou", recorda Stockton, que contribuiu com muitas assistências para grande parte dos pontos do "carteiro", alcunha que foi dada a Malone por um jornalista por este "entregar sempre a encomenda".Em 1992, viajaram juntos para Barcelona, onde integraram o "Dream Team" (equipa de sonho) que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Na primeira vez em que os jogadores da NBA puderam estar em palcos olímpicos, Malone e Stockton estiveram ao lado de "Magic", Jordan e Bird, todos eles "estrelas" de primeira grandeza. E, de entre eles, foi Malone quem marcou o primeiro cesto.Desta equipa de sonho restam ainda sete jogadores em actividade (Chris Mullin, Scottie Pippen, Pat Ewing, David Robinson e Christian Laettner, para além de Malone e Stockton), mas poucos demonstram a regularidade e a longevidade da dupla dos Jazz. Em 93, perante o seu público, foram eleitos "ex-aequo" como os jogadores mais valiosos (MVP) do tradicional "All-Star" de meio da época.Mas, curiosamente, a relação perfeita no jogo não é transportada para fora fora dos campos de basquetebol. "Não nos damos muito fora do 'court'", explica Malone. "Ele tem os filhos dele, eu tenho os meus. No Verão, juntamo-nos e tentamos fazer qualquer coisa, mas não na dimensão que as pessoas pensam. Ele tem a vida dele e eu tenho a minha." Malone e Stockton prezam muito a vida familiar e fazem todos os possíveis para preservar a intimidade fora dos campos de basquetebol. Stockton é particularmente avesso a entrevistas e não gosta muito que lhe tirem fotografias. "Obviamente que isto não é Hollywood e eu não sou uma estrela de cinema", refere o base dos Jazz, sempre pouco dado a protagonismos individuais. Já Karl Malone é um pouco menos reservado que o seu "gémeo" e não tem medo de falar quando acha que tem algo para dizer, como aconteceu quando acedeu a fazer publicidade para a National Rifles Association, uma organização norte-americana que defende o uso de armas pelos cidadãos.Tal como acontece com tantas outras "estrelas" que nunca ganharam títulos da NBA - Barkley, Ewing ou Olajuwon -, também Malone e Stockton não foram os melhores do seu tempo, que é como quem diz, jogaram ao mesmo tempo de Michael Jordan, pelo que a glória suprema de um título da NBA passou-lhes sempre ao lado. Por duas vezes chegaram à final e, por duas vezes, em 97 e 98, foram derrotados pelos Chicago Bulls de "Air" Jordan. E mesmo quando Jordan, considerado o melhor jogador de todos os tempos, abandonou, nenhum deles foi apontado como o seu sucessor. Porque a Liga prefere associar a sua imagem a jogadores novos, com outra atitude, em vez de apostar em veteranos que não têm piercings nem tatuagens. Mas a Malone e Stockton já ninguém lhes tira um lugar na lista dos 50 melhores jogadores da história da NBA, por muito que isso custe a quem os acha chatos e previsíveis.

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