Luís Miguel Cintra fala da rodagem de Branca de Neve: Um filme de crise

Pensando sobretudo na importância da sua presença na obra de Monteiro, Cintra diz que hoje é difícil partilhar as vias do João César. "É difícil partilhar com ele qualquer coisa, neste momento, porque ele é muito solitário, os filmes são cada vez mais as coisas secretas dele."

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arquivo público

Este texto foi publicado a 11 de Novembro de 2000.

Como intérprete de Branca de Neve - como a voz do Caçador -, Luís Miguel Cintra é um actor frustrado, embora ontem ainda não tivesse visto o filme. E sentiu o mal estar - "foi desagradável, para nós actores e para ele, realizador" - a instalar-se no plateau de rodagem do filme, no Jardim Botânico, em Lisboa.

"O que estava previsto", conta, "era que em algumas cenas apareceriam os actores e noutras só o som - embora fosse gravado no mesmo local em que se filmavam as imagens. Mas percebeu-se logo que o João César não estava satisfeito, que já não estava convencido do que queria fazer, e nós tínhamos a sensação de que estávamos a trabalhar para algo em que ele já acreditava. Ele optou então pela solução que é hoje o filme, não aproveitou o que tinha filmado connosco - quer em exteriores, quer num dos edifícios do jardim, uma espécie de observatório abandonado, belíssimo - e aproveitou o som".

Se está frustrado, também acrescenta que não percebe a polémica. "Foi-lhe atribuído um subsídio, ele depois achou que tinha de reformular o projecto. Foi honesto consigo próprio. A única coisa que há a fazer, agora, é devolver o dinheiro que não se gastou. O problema é artificial, se calhar o escândalo para as pessoas é apenas ele ter feito um filme sem imagem."

Pensando sobretudo na importância da sua presença na obra de Monteiro, Cintra diz que hoje é difícil partilhar as vias do João César. "É difícil partilhar com ele qualquer coisa, neste momento, porque ele é muito solitário, os filmes são cada vez mais as coisas secretas dele."

A escuridão de Branca de Neve como sinal de suspensão de um cineasta? Crise? "Sim", concorda Luís Miguel, "mas digo isso sem menosprezo pelo gesto artístico. Porque há aqui, também, uma enorme lucidez. Há todas as razões, hoje, dada a grosseria do sistema de produção e de distribuição, para um criador sentir todas as dúvidas e exibir a sensação desse impasse, sem saída".