Os anos que passaram por Bill Clinton

William Jefferson Clinton foi o único Presidente democrata a ser reeleito desde Franklin Roosevelt. Os oito anos que passou na Casa Branca (1993/2000), foram os mais prósperos dos Estados Unidos e os mais rápidos da humanidade. Ajudou a gerar a sociedade global. Mudou as relações internacionais. Será lembrado pelos fracassos, como os africanos, onde o efeito dos electrodomésticos pequeninos e silenciosos da globalização não se sentem. Será lembrado pela obsessão de querer entrar na História. Será lembrado como o único Presidente que passou por um processo de destituição. Por causa de um caso amoroso passageiro, mas de efeito longo e devastador. Queria ser um herói da América. Sai de cena como uma personagem trágica. Como Shane, o "cowboy" incompreendido, que só pode partir em direcção ao deserto, porque não há coroa de louros quando o trabalho chega ao fim. Na terça-feira, os Estados Unidos escolhem um novo Presidente.

A era da Internet: Diz-se de Bill Clinton que é um Presidente com "Sonar". Por entender sinais pouco óbvios. No início dos anos 90, intuiu que as novas tecnologias iriam transformar a América. E o mundo. Iriam transformar as tarefas domésticas, a circulação da comunicação, a economia. Os satélites, a televisão por cabo, a Internet, os telefones móveis. "Entrámos numa nova era. A era da informática, da economia global... num verdadeiro novo mundo", disse, já Presidente. Para o dia em que tomou posse pela segunda vez, em 1997, o Presidente fez construir, nos jardins da Casa Branca, um cenário: uma ponte feita de materiais "high tech". "Estamos a construir pontes para o século XXI". Hoje, os Estados Unidos são um país cibernáutico, uma em cada casa está ligada à "Rede". Silicon Valley fabrica tecnologias de ponta, mas também milionários (64 por ano). Em Washington, e em dez anos, os assalariados do sector da biotecnologia ultrapassaram, e muito, os funcionários federais (um milhão para 350 mil). Há oito anos, começou a era Bill Clinton."É a economia, estúpido!": Para um mundo em transformação, um Presidente pouco ortodoxo. Poderia ter sido o lema de arranque da era Clinton, no dia 20 de Janeiro de 1993. Porque os anos Clinton arrancaram confusos, erráticos. O Presidente ziguezagueava nas opiniões, nas prioridades. Recorria a expedientes políticos pouco comuns, como sentenciou Joe Klein, que foi jornalista da "Newsweek" e é o autor do livro "Cores Primárias", inspirado na corrida de Clinton à Casa Branca. "Clinton acreditava nas aparentes contradições da sua agenda - o apoio ao comércio livre, que agradava aos conservadores; a defesa da reforma da Segurança Social, que agradava aos liberais. Não eram contradições, mas a estratégia de uma missão maior: conduzir a nação na transição da era industrial para a era informática."Clinton definiu-se como um "novo democrata" e, para a sua filosofia/modo de agir, adoptou a designação "terceira via". Primeira prioridade: endireitar a economia em estado de falência, herança de 12 anos de administração republicana. "Sem a economia, não se pode fazer mais nada", disse o Presidente eleito em 1992 com uma frase inventada pelo "guru" dos estrategas da política dos Estados Unidos, James Carville: "É a economia, estúpido!". A receita Clinton chamou-se disciplina fiscal e orçamental. E, em oito anos, aconteceu a maior expansão económica da História do país: 22 milhões de novos empregos e taxa de desemprego a rondar o zero, o número de dependentes da Segurança Social baixou para metade, a diferença de rendimentos entre brancos e negros e latinos é a mais pequena de sempre. Dois em cada três indivíduos têm casa própria. Em dez anos, a obesidade duplicou, o que, nos Estados Unidos, pode não ser sinónimo de qualidade de vida, mas é certamente de abundância, como provou um estudo em "The Wall Street Journal". A prosperidade sem precedentes fez nascer palavras novas, como acontece sempre que o dinheiro cria fenómenos sociais. Morreram os "yuppies", nasceram os "bobo" (meio burgueses, meio boémios, cem por cento esbanjadores).O terror dentro de portas: No dia 19 de Abril de 1995, o optimismo que a nação redescobria foi derrubado por um atentado na cidade de Oklahoma. Uma bomba de grande potência esmigalhou um edifício federal e matou 167 pessoas, entre elas 19 crianças. Dois anos antes, um atentado nas torres do World Trade Center de Nova Iorque fizera os americanos perceber que não estavam imunes ao terrorismo do fundamentalismo islâmico. Atribuíram-se culpas aos "miseráveis cobardes" árabes, como disse Clinton. As investigações provocaram um segundo choque: o bombista chamava-se Timothy McVeigh, 27 anos, ex-membro de uma das muitas milícias dos Estados Unidos. As milícias gastam o tempo a juntar armas e a planear guerras. Contra quem? Contra um inimigo chamado governo federal. Os americanos descobriram, horrorizados, o terrorismo interno. Clinton declarou guerra à cultura das armas de fogo, de venda livre a maiores de idade, o que é um direito constitucional. O "lobby" das armas provou ser mais forte, mesmo depois da tragédia de Waco, de Oklahoma ou da espiral de violência em escolas secundárias, como em Colombine, onde dois estudantes mataram, a tiro, dez colegas e professores e, depois, suicidaram-se."Gays", o primeiro erro: Dizem os antigos colaboradores que a metamorfose de Bill Clinton - a passagem de governador a Presidente - foi das mais complexas de que há memória. Na primeira conferência de imprensa depois da vitória, cometeu o primeiro erro. Será o próximo Presidente a favor da presença de homossexuais nas Forças Armadas? "Sim". "Enviei a mensagem errada", admitiu depois. Apresentava-se aos eleitores como um candidato fraude. Clinton, o novo democrata, o centrista que cativara votos libertando-se da ala ideológica (esquerdista) do partido, afinal mentira. Era um "velho democrata". O Presidente que não foi à tropa - nos primeiros tempos, os jornais encheram páginas a comentar a falta de habilidade do chefe do Estado Maior das Forças Armadas em bater a continência -, entrava na Casa Branca irritando os poderosos e o "mainstream". Voltou atrás, corrigiu-se, pacificou-se com o militar mais influente da nação, o general Collin Powell, herói da Guerra do Golfo que foi o primeiro professor de defesa de Clinton. A gaffe como que definiu o início do mandato do Presidente, que conseguiu aprovar um orçamento à medida do "novo mundo", mas falhou no resto da agenda, que tinha inscrito a criação de um sistema universal de saúde, projectado pela mulher, Hillary Clinton. Uma ajuda chamada Monica: Joe Klein escreveu recentemente um artigo sobre o Presidente para a revista "New Yorker". Na capa, ironia e drama: Clinton, a cavalo, em direcção ao pôr-do-sol, como "Shane", o pistoleiro incompreendido que sabe que à frente está apenas o deserto. Klein - e Clinton concorda - sentencia que Monica Lewinsky foi o ponto de viragem na presidência. Deixara de ser o "Presidente Elvis" - de saxofone na mão em banquetes de Estado -, aprendera a manobrar o Congresso, a sua visão económica provava estar certa. Lewinsky foi o ponto de viragem pela incredulidade. De repente, o "staff", os jornalistas, os cidadãos, perceberam que o Presidente retrocedera. E se há retrocesso é porque primeiro há evolução. Nos piores momentos do episódio Lewinsky - a estagiária com quem teve relações sexuais na sala oval da Casa Branca, de quem recebeu presentes, a quem sujou um vestido de sémen e finalmente sobre quem mentiu sob juramento, o que quase o levou à destituição -, Clinton "afundou-se em trabalho", conta Klein. Depois, pediu reconciliação à nação. Foi semi-perdoado. E, ironia, enfraqueceu o seu melhor momento. É por isso que, à frente, está o deserto. O que vai fazer Bill Clinton, 54 anos, quando, no dia 20 de Janeiro de 2001, passar o testemunho ao próximo inquilino da Casa Branca? Ou, mais importante, como vai ser lembrado? Um aperto de mão emprestado: Dizem as más línguas de Washington que, este ano, Bill Clinton esperava receber o Prémio Nobel da Paz. Pelos esforços de mediação de muitos dos conflitos do mundo. Erro de avaliação, próprio de um ego do tamanho do mundo, disseram os analistas mais conservadores e, por isso, mais anti-Clinton. Notaram-lhe os fracassos na política externa, que foram muitos. A começar pelo Médio Oriente. O momento de glória de Clinton é o aperto de mão entre o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, e o líder palestiniano Yasser Arafat. O momento histórico aconteceu nos jardins da Casa Branca e Clinton aparece de braços abertos, atrás dos dois homens, como um protector. Mas não participou na pacificação dos inimigos, as negociações que deram origem ao aperto de mão decorreram na Noruega, sem os Estados Unidos. Depois, Rabin foi assassinado. Finalmente, os recentes esforços de paz na região, mediados por Clinton, fracassaram, a violência regressou à Palestina e os Estados Unidos castigados - 17 mortos num atentado terrorista contra um navio americano no Iémen. Clinton diz estar frustrado, desanimado. Prometeu não desistir de mediar a paz, mas falta-lhe tempo. Tempo e habilidade. Os analistas admitem que Bill Clinton é, provavelmente, o mais charmoso e sedutor dos líderes do mundo. Inspira cumplicidade e respeito. Porém, garantem, é um péssimo diplomata. As traseiras: Os mesmos analistas que criticaram Clinton por tentar forçar um acordo permaturo no Médio Oriente, à medida da sua urgência de deixar marcas no mundo antes de partir, explicam que, falhanços à parte - a Irlanda do Norte foi outro; não foi a mediação americana que fez avançar o processo de paz - Bill Clinton revolucionou as relações internacionais. Num mundo sem Guerra Fria, tornou a economia na prioridade da política externa. Fez acordos de comércio livre, com a China, ou com os parceiros do continente americano, como o México, com a assinatura do NAFTA, o acordo de comércio livre da América do Norte. Também introduziu um conceito chamado "promoção da democracia", ao abrigo do qual despachou as tropas que ajudaram a arrasar a ditadura no Haiti.Um sucesso chamado Balcãs: Só em 1995 Bill Clinton tomou a decisão de intervir nas Balcãs. A missão das Nações Unidas no terreno entrara em ruptura e os aliados europeus insistiam na maior participação dos Estados Unidos, que se reduzia ao apoio humanitário à região. Em Washington, Clinton lutava com duas frentes de opinião: uma do ainda influente Colin Powell (anti-intervenção), outra do vice-presidente Al Gore, pró-envio de tropas. Foi Powell quem determinou a operação armada na Somália, que se revelou errada. "Oito mortos. Vou lamentar sempre o que aconteceu. Acho que poderia ter lidado com a questão de outra maneira", admitiu depois Clinton. No caso da ex-Jugoslávia, Gore ganhou, e os bombardeamentos contra os sérvios da Bósnia, primeiro, e contra Belgrado, depois, aconteceram. O Presidente disse estar seguro de que a decisão ajudou a derrubar Slobodan Milosevic. A Jugoslávia é a medalha de Clinton na política externa. Um dos raros sucessos de escala planetária, ou pelo menos ocidental, que começou com o êxito da partilha da Bósnia, com os acordos de Dayton, mediados pelo negociador mais feroz de Clinton, Richard Holbrooke - o homem que sentou os negociadores debaixo de caças-bombardeiros.A Rússia: Bill Clinton pode ser um mau diplomata. Mas fez amigos pelo mundo. Um deles chama-se Boris Ieltsin. Quando o senhor do Kremlin partiu, este ano, envelhecido, alcoolizado e doente, Clinton não falou de saudade, que é diplomaticamente incorrecto. "Vou lembrar-me sempre dele", disse antes. Para o Presidente dos EUA, o investimento no homem que desfez a União Soviética seguiu uma estratégia. Apoiar quem dava a melhor garantia da democratização da Rússia, apesar de ser evidente que uma grande parte do investimento económico (as ajudas para equilibrar as finanças russas) escorria pelos canos da ineficiência e da corrupção. A solidificação da democracia russa, ou a estabilidade política e económica do país, fez parte de outra mudança de prioridades que o fim da Guerra Fria gerou. Clinton é o Presidente mais europeísta em décadas. E soube, com uma ajuda de Al Gore, fazer renascer a parceria atlântica (até por causa da ex-Jugoslávia), que tornou num pilar da democratização e ocidentalização do leste, antigo satélite soviético. Apoiou o alargamento da NATO à Polónia, República Checa e Hungria. África não renasceu: África é outro dos fracassos de Bill Clinton. A apregoada "renascença africana" não aconteceu. O continente continua mergulhado em conflitos, e Angola (onde há petróleo) e a Serra Leoa são apenas dois exemplos. Um genocídio aconteceu no Ruanda, perante a passividade das potências ocidentais. As delapidadas economias continuam a matar populações, pela fome. Mas África permitiu a Clinton outra mudança nas relações externas: disse que política externa não são apenas interesses estratégicos imediatos, é também o intervencionismo humanitário e a guerra à sida, as novas ameaças da nova era. Pôs a saúde e as relações económicas no topo das prioridades e é por isso que os analistas dizem que não é um internacionalista, mas um globalista.