Os super-heróis sobrevoam Festival de BD da Amadora

Os heróis com poderes supra-humanos são a grande atracção do 11º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que começa hoje. Os quadradinhos de expressão francesa saem de cena - pelo menos este ano -, e a criação em língua portuguesa ganha um novo alento com a presença de excelentes criadores brasileiros.

O passado e o futuro dos super-heróis marcam a partir de hoje encontro na Amadora, onde se inicia a décima primeira edição do Festival Internacional de BD daquela cidade (FIBDA). O festival prolonga-se até ao dia 5 de Novembro.A Fábrica da Cultura é, como nos anos anteriores, o principal espaço de exposições e é aí mesmo que a organização propõe duas abordagens dos super-heróis em sentido oposto. Ao incontornável balanço dos heróis com poderes especiais desde a sua "nascença" em 1938 - quando Superman começou a voar nos céus da América em defesa dos oprimidos -, contrapõe-se uma "exposição-oficina" prospectiva de super-heróis para o século XXI. Entre estes dois pólos nucleares situa-se uma vasta área de intervenção preenchida pela presença de "autores-chave que actualmente produzem super-heróis", diz Nelson Dona, director do festival. Eis os seus nomes: Rick Veitch (Swamp Thing, Miracleman, Rare Bit Friends, etc), Dave Gibbons (Watchmen, Green Lantern, 1963), Peter David (Spider Man, The Incredible Hulk, Aquaman) e os históricos Joe Kubert (ver outro texto) e Jerry Robinson (criador de Robin e Joker na série Batman). As suas presenças estão confirmadas e animarão uma série de debates e encontros na Fábrica da Cultura com o público durante o período das respectivas permanências no festival.Se os "comics" são os incontornáveis protagonistas desta edição, a "bande dessinée" surge relegada para um espaço a que não tem estado habituada na Amadora. Com efeito, a "honra da casa" da criação em língua francesa é apenas defendida pela mostra de jovens autores suíços, apresentada no grande edifício da Fábrica da Cultura. Têm todos entre 25 e 35 anos e embora integrem o chamado "grupo de Genebra", numa alusão à cidade da Suíça onde vivem, nem todos são genuinamente helvéticos. Assim, Tirabosco nasceu em Roma, Wazem é de origem ucraniana, Raviscioni tem apelido italiano, e Reumann é de origem germânica.A organização relativiza esta característica do certame, não fechando as portas à possibilidade de acolher em edições futuras novos valores emergentes no panorama criativo e editorial de língua francesa. O problema, explica Nelson Dona, é que "o filão estava um bocado esgotado", recordando que praticamente todos os nomes de proa da BD franco-belga já estiveram, a diversos títulos, na Amadora. Por outro lado, o declínio relativo de grandes festivais alimentadores da iniciativa portuguesa com exposições alugadas, como Angoulême (França) e Barcelona (Espanha), acabaram por limitar seriamente as possibilidades de escolha do festival português, que preferiu virar-se para novas direcções. Daí que a inflexão, mais do que uma verdadeira ruptura, no sentido do que se faz fora da Europa, acabasse por surgir como uma solução natural.É neste quadro que se poderá compreender também o grande destaque dado à BD brasileira, que nunca deixou de estar presente na Amadora e este ano apresenta um núcleo de importantes autores, como é o caso de Lourenço Mutarelli, Angeli, Adão Iturrusgarai e Luciano Queiroz (Luke Ross, com carreira feita sobretudo nos Estados Unidos).Outro vector importante é o dos quadradinhos portugueses. Os autores com exposições próprias são João Fazenda (que é também o responsável pelas linha gráfica do festival), Pedro Brito, Luís Pinto Coelho, José Abrantes, Augusto Trigo (exposição na Galeria Municipal Augusto Boal) e José Carlos Fernandes (Centro Nacional da BD e Imagem), sem esquecer a ilustração de André Letria na Casa Roque Gameiro.Do lado das exposições há ainda a referir a presença do Festival Internacional de Humor de Piracicaba (Brasil) no Espaço Delfim Guimarães, e as mostras com os trabalhos concorrentes aos concursos de BD (tema: os super-heróis no século XXI) e "cartoon", e sobre o ano editorial português, ambas na Fábrica da Cultura. Neste último local, no edifício dos Recreios da Amadora e na Escola Superior de Teatro e Cinema decorre a iniciativa paralela do ciclo de cinema de animação, que será inaugurado apenas a 27 de Outubro.As conferências-debates da edição de 2000 do FIBDA organizam-se em cinco ciclos, a desenvolver nos fins de semana: os super-heróis e o mercado norte-americano no século XXI; especial Brasil; novos rumos para a BD; a BD e outras formas de comunicação; e a BD em Portugal.São esperados inúmeros lançamentos de álbuns durante o festival, confirmando-se assim o crescente interesse dos editores pelos períodos privilegiados de divulgação e vendas que são os festivais. Nesta perspectiva, a zona comercial regista este ano uma dimensão apreciável para o pequeno meio português, com a presença de nove editores e distribuidores (Meribérica-Liber, Livraria Dr. Kartoon, Kingpin of Comics, Vitamina BD, Edições Polvo, Mongorhead Comics, BDMania, Baleiazul e Contemporânea).