É a comédia, é a commedia!

Uma aposta nas loucuras da commedia dell'Arte. Miguel Seabra dá corpo a um projecto colectivo que tem marcado a cena teatral portuguesa desde 1992. É um novo ciclo que se inicia no Teatro Meridional, um regresso ao passado com um grande sentido de futuro dentro do incomparável estilo Meridional. "Delírios dell'Arte" é o título do espectáculo. Estreou-se ontem em Lisboa.

É a comédia, é a comédia! Atenção meus senhores, ides levar a comédia ao ao vosso estômago! Dois actores da commedia dell'Arte, Carla Maciel e João Ricardo, apregoam, numa feira dos subúrbios de uma grande cidade, o espectáculo delirante que se vai seguir. Eles vão fazer cinco personagens para gáudio dos espectadores: Zanni, Colombina, Doutor, Isabela e Flávio. Hilariante, naif, festivo, desconcertante, belo e imaginativo. Muito Meridional. Falo da última peça do teatro Meridional, "Delírios dell'Arte", com texto de Mário Botequilha e encenação de Miguel Seabra que teve a sua estreia ontem, no Auditório Carlos Paredes, em Lisboa (Benfica)."Por detrás deste espectáculo está um processo delirante, uma criação colectiva no melhor sentido da palavra. Estou totalmente feliz. Tive o privilégio de estar à frente de uma equipa muito rica do ponto de vista humano e artístico", disse Miguel Seabra ao PÚBLICO.Estas palavras de regozijo do encenador não podem deixar de ser lidas no contexto da ruptura que aconteceu ao Teatro Meridional. Dois dos fundadores que têm trabalhado com Miguel Seabra, os actores espanhóis Alvaro Lavín e Julio Salvatierra, decidiram radicar-se definitivamente em Espanha e continuar aí o seu próprio Meridional."É como as estações do ano, passam, voltam e renovam-se. Eles em Espanha e eu aqui. Ficam as raízes, os pressupostos que deram origem ao grupo, mas os projectos tornaram-se independentes. É que fomos descobrindo pequenas diferenças de concepção, de dramaturgia, de encenação", disse Miguel Seabra. O momento da separação deu-se no ano passado após a produção da peça "Qfwfq. Uma história do Universo", uma adaptação de Julio Salvatierra baseada em textos de Italo Calvino realizada no Acarte, com encenação de Miguel Seabra. A mesma peça foi levada à cena pelo Meridional em Espanha, com uma outra concepção cénica e obteve um grande sucesso naquele país. Esta realidade - o mesmo grupo incrustado em dois mundos distintos, Portugal e Espanha- esteve na origem da ruptura. Não foi muito pensado, mas o subconsciente funcionou. Porque não fazer de novo um espectáculo ao estilo da commedia dell'Arte, que foi como o teatro Meridional nasceu? Um espectáculo que espelhe a alegria que temos em fazer teatro, que seja um espaço de encontro de pessoas, um espaço de comunicação, de sonho, de imaginário?A primeira peça do grupo intitulava-se "Ki Fatxiamu Noi Kui" e a ideia surgiu durante um curso de commedia dell'Arte com António Fava em Reggio Emilia, Itália, em1992, ano em que o grupo se formou. Ora, o actor João Ricardo que entra na peça que ontem se estreou, "Delírios dell'Arte", acabava de fazer (em Agosto deste ano) o mesmo curso com António Fava. Foi como peixe na água. "Foi um estágio de Verão na Escola Internacional de António Fava, que é a representante da linha histórica da commedia dell'Arte, a que retrata as personagens de um ponto de vista psicológico. Acrobacia, improvisação e espectáculos abertos ao público fazem parte desta aprendizagem. Fava disse no final do estágio que se fizesse vida disto seria o Doutor ou o Zanni e não poderia fazer mais nenhum outro, tal é a perfeição a que se chega", disse João Ricardo ao PÚBLICO.Só faltava escolher uma actriz. Natália Luíza, assistente da direcção e membro do Meridional lembrou-se de Carla Maciel, actriz que dirigiu na recente série televisiva "Cruzamentos". Carla havia participado, em Abril passado, num seminário nesta área teatral, com Ferrucio Soleri, do Piccolo di Milano. Estava encontrado o elenco. Ao grupo veio juntar-se um especialista de construção de máscaras, Nuno Pino Custódio que tem trabalhado com Filipe Crawford (Casa da Comédia).Após estes encontros havia que dar corpo ao Zanni, à Colombina, ao Doutor, a Isabela e a Flávio. Miguel Seabra propôs um trabalho de improvisação seguindo uma linha narrativa prévia, escolhida por ele e por Natália Luiza, e partiu para os ensaios na presença do autor, Mário Botequilha. Este foi fixando o texto, alterando-o à medida que os dias iam avançando, até à forma final. Depois, José Pedro Caiado foi criando as sonoridades de rua com um apontamento de Scarlatti, o próprio Seabra concebendo as luzes, Marta Carreiras a cenografia e os figurinos. E nasceu uma peça, como diz o encenador, de teatro vivo, criativo que "corre o risco do inesperado e da transgressão", um teatro assente no desempenho do actor enquanto elemento indispensável do espectáculo, a partir de um trabalho que segue as regras da commedia dell'Arte, ou seja, o comportamento físico das personagens, a simplicidade narrativa, a forma como ele se desenvolve, a desconstrução das personagens para enriquecer o jogo teatral e a transformação do espectáculo em acto teatral festivo em partilha directa com o público.Uma peça onde existem os criados Zanni (João Ricardo) e Colombina (Carla Maciel), um patrão Doutor, eloquente e maneirista, a filha deste, Isabela, que possui um mestrado sobre "A morte da poesia" e vive uma história de amor proibido com um cavaleiro andante, Flávio, filho de Pantalone (outro personagem típico da commedia dell'Arte), inimigo ancestral do Doutor. Os filhos vivem uma engraçada réplica de Romeu e Julieta.Zanni é um dos mais típicos personagens da commedia dell'Arte, o equivalente- salvaguardando as devidas distâncias- ao popular Zé. Tem um nariz comprido, é espontâneo, imediatista, naif e tacanho. A sua preocupação é sobretudo o estômago, a dormida e o beijocar. Enquanto Colombina, sua companheira de jogos e amores, é viva, brejeira, afável, encantadora e imaginativa. Sabe também levar a cabo pequenas vinganças. Depois de dez anos de espera pelo casamento, decide empreender uma fuga para a frente. É um nunca mais parar de rir.