O Fidel amigo

Nunca visitou a Sierra Maestra, mas revê-se na imagem do "guerrilheiro de arma apertada o dia inteiro". Não conhece Fidel Castro, mas lamenta que já não se façam heróis assim. António Manuel Ribeiro saiu da toca dos UHF, descobriu a espiritualidade e assina agora o seu primeiro trabalho a solo. "Escrevo canções para curar os males do mundo", diz em entrevista.

Depois de os 20 anos dos UHF terem sido devidamente assinalados com a edição da colectânea "Eternamente", António Manuel Ribeiro atravessou um período difícil, fechou-se no seu interior e dele saiu em paz e poesia. "Sierra Maestra", o primeiro álbum a solo do autor de "Cavalos de corrida", é um disco sereno que fala da bonança que se segue à tempestade, assinado por um escritor de canções que se diz em paz consigo mesmo. António Manuel Ribeiro, Manuel Faria e Cajó produzem. O Delfim Miguel Ângelo também por lá anda. "No ano passado foram várias as coisas na minha privada que não funcionaram nada bem. O meu pai tinha falecido, borrifei-me para tudo o que andava à volta do mundo da música e tive o meu segundo divórcio. Enfim, foi um 'ano terribilis'. Os UHF editaram entretanto o 'Eternamente', uma colectânea que para todos os efeitos foi fácil de fazer, e portanto tive o espaço suficiente para dedicar-me a uma coisa minha. O 'Sierra Maestra' acabou por funcionar para mim como um regresso à normalidade. Sentia necessidade de respirar, de trabalhar, de sair do aquário, e foi assim que comecei a escrever canções"."Por tudo o que aconteceu à minha volta podia ter escrito um disco crispado, um disco de vingança contra a vida, mas não o fiz. O 'Sierra Maestra' é um disco muito sereno, não só na música como nos textos. É um disco que corresponde a uma acalmia minha enquanto ser espiritual, no encontro que tenho entre mim, Deus e o Universo. Hoje sinto-me em paz comigo mesmo. A longa doença do meu pai ajudou-me muito em todo este percurso, e entretanto pus-me a ler uma série de livros como 'A Décima Revelação' e 'A Profecia Celestina', do James Redfield, e as 'Conversas Com Deus', do Neale Donald Walsch, que foram livros que me mudaram a vida. Se sou religioso? Sou um ser espiritual, embora não esteja ligado a qualquer religião instituída. Não aceito que administrem uma fé que é minha". "O 'Sierra Maestra' é um disco de autor, onde me revejo sobretudo na figura do poeta, do escritor de canções. E também é o disco em que canto melhor em toda a minha vida. O trabalho de base foi todo ele feito em piano e guitarra acústica, e do rock está lá mais a atitude do que a sonoridade propriamente dita. São tudo canções inéditas à excepção do "Podia ser Natal", em que participa o Miguel Ângelo, e que é um original dos Espanta Espíritos que decidi recuperar porque foi algo que se perdeu no tempo". "Chamo a atenção para a faixa 'Ser eterno (porque foges)', onde falo para todos os seres humanos que são almas. Nós não temos de fugir do medo. O medo é algo que nos inculcam, das religiões aos poderes instituídos. As governações, as fronteiras, as bandeiras, os hinos nacionais e por aí fora. E quando chegamos a uma fase onde já conseguimos desmontar isto tudo e onde já não temos pachorra para aturar o que passa à nossa volta - e que todos os dias nos é vendido como uma grande verdade -, ficamos melhor com o mundo e só queremos transmitir isso. O que eu quero transmitir com este disco é um pouco esse meu lado sereno, uma nova visão do mundo. Quero ajudar o mundo a ser melhor. Não vou pedir perdão por dizer isto, mas eu escrevo canções para curar os males do mundo. São elas que nos fazem lembrar coisas que os outros nos querem fazer esquecer". "No 'Sierra Maestra', o tema de abertura do álbum, falo de um 'guerrilheiro de arma apertada o dia inteiro'. Por vezes revejo-me nessa imagem. Costumo dizer que nesta Europa em que vivemos considero-me poeta, mas neste mundo de poucas causas quase já não há heróis. O Xanana Gusmão é o único herói que tivemos desde há muitos séculos. De resto são tudo umas palhaçadas, mais ou menos mediatizadas. Se vivesse na América Latina, provavelmente seria guerrilheiro. É uma forma de estar e de intervir numa sociedade que está podre, aborrecida, vergonhosa, quase caricata. Nós preocupamo-nos com coisas que metade do mundo nem sequer sabe o que são. Pensamos em quotas de carne de vaca quando os africanos não sabem sequer o que é um bife. Este mundo está podre".