Fiorentina "roubou" Leandro

Leandro esteve no Porto a"arranjar" a transferência para a Fiorentina. Depois de ter tudo acertado com a Portuguesa de Desportos, o FC Porto viu o negócio esfumar-se após os italianos terem beneficiado da ajuda do empresário do jogador, que não resistiu às liras. Leandro vai ganhar em Itália 32 mil contos/mês, o triplo do que ia receber nas Antas. O FC Porto volta a estudar alternativas a Jardel.

As liras pesaram mais do que os escudos e o avançado brasileiro Leandro Amaral, depois de várias peripécias rocambolescas, fez abortar a sua transferência para o FC Porto e hoje mesmo segue para Itália para assinar um contrato de cinco anos com a Fiorentina. O clube de Rui Costa enviou ontem uma "embaixada" ao Porto e, para conseguir convencer ojogador, beneficiou da ajuda do seu empresário, Oliveira Júnior, que esticou a corda nas negociações com os portistas até obter a rotura. "Leandro parecia uma marioneta nas suas mãos", disse ao PÚBLICO o administrador portista Angelino Ferreira. Para dar o dito pelo não dito, Leandro aceitou receber do clube italiano 32 mil contos por mês, em vez dos dez mil que ia receber nas Antas.A Fiorentina vai pagar, a pronto, 13 milhões de dólares (cerca de 2,8 milhões de contos) pelo passe do avançado brasileiro, sendo que 15 por cento (cerca de 420 mil contos) serão para dividir entre Leandro e o seu representante. Recorde-se que o FC Porto tinha aceitado pagar à Portuguesa de Desportos seis milhões de dólares (cerca de 1,2 milhões de contos) por metade do passe, comprometendo-se a dar metade do produto de uma eventual venda futura.O FC Porto está já no mercado à procura de um novo substituto de Jardel. O norueguês Andreas Lund não é alternativa, por ser caro e não se enquadrar no 4x4x2 em que Fernando Santos parece ir apostar esta época. Uma das hipóteses era o brasileiro Lucas Severino, um jogador de 21 anos do Atlético Paranaense. Mas as últimas informações apontam para que já esteva comprometido com o Inter de Milão.A explicação para o facto de o FC Porto não ter aproveitado os dois dias em que o jogador esteve no Porto para garantir a assinatura do contrato residiu, segundo explicou ao PÚBLICO uma fonte portista, na necessidade de efectuar primeiro os testes médicos, uma vez que a FIFA deixou de permitir que a validade dos acordos dependa do resultado dos testes. Um cuidado que se compreende, uma vez que Leandro já sofreu roturas dos ligamentos cruzados nos dois joelhos que obrigou a outras tantas intervenções circurgicas. Ontem, em Spa, Reinaldo Teles fez mesmo declarações nesse sentido, lembrando os "problemas de Leandro no joelho", que, na sua opinião, poderiam vir a não dar totais garantias ao FC Porto. O vice-presidente portista garantiu ainda que o FC Porto "tem várias alternativas em carteira". "Mas, por uma questão de ética e como é meu timbre, só será divulgada a escolha depois de estar concretizada", acrescentou.A reviravolta é bem provável que tenha começado anteontem, depois de a Fiorentina ter perdido a corrida pelo avançado argentino Diego Tristán, do Palma de Maiorca, que assinou pelo Real Madrid. A Fiorentina fez então uma lista alternativa que incluia o português Nuno Gomes, que pode também seguir para Florença, o brasileiro França, do S. Paulo, e o argentino Cruz, do Feyenoord, para além de Leandro. É provável que anteontem tenham sido estabelecidos os primeiros contactos por telefone, percebendo-se assim melhor os protestos exagerados que o empresário Oliveira Júnior fez ao tempo gasto por Leandro nos exames médicos pretendidos pelo FC Porto. A estratégia estava montada e hoje chegaram ao Porto o delegado conselheiro da Fiorentina Luciano Luna e o ex-internacional brasileiro Alemão, prospector do mercado de futebolistas ligado ao clube de Florença. Ficaram instalados no hotel Meridien, onde tudo indica terão recebido ontem de manhã Leandro e o seu representante. A dupla brasileira seguiu depois para um hospital onde esteve a cumprir a parte final dos testes médicos pretendidos pelo FC Porto e, de seguida, deslocou-se à SAD portista.Aí, Oliveira Júnior mostrou que levava a lição bem estudada e começou a fazer uma série de novas exigências, suplementares ao acordo pré-estabelecido. Os administradores portistas Adelino Caldeira, Angelino Ferreira e Nuno Espragueira Mendes ainda começaram por aceitar as primeiras, mas abriram a boca de espanto quando o empresário terá exigido para si dez por cento do ordenado do jogador, com os cerca de mil contos a terem de cair na sua conta todos os meses durante os cinco anos, isto sem contar com a sua comissão no negócio. Pior ainda, pouco depois terá querido que todos os direitos de imagem de Leandro passassem a pertencer de forma exclusiva a uma empresa de que ele próprio é sócio. A conversa de meia-hora ficou estragada e Leandro e Oliveira Júnior abandonaram o edifício aparentemente furiosos. Não falaram aos jornalistas e apanharam um táxi.Depois de almoço, o trio de responsáveis portistas foi ao hotel Tivoli à procura de Leandro. Encontraram-no sozinho, mas logo depois chegou Oliveira Júnior, que entretanto se pensa ter estado novamente com a delegação da Fiorentina. E repetiu-se o teor da conversa havido horas antes. Pouco depois, os responsáveis portistas abandonavam a unidade hoteleira e Adelino Caldeira assumia a rotura. "Havia um acordo entre o FC Porto e a Portuguesa dos Desportos e o negócio estava completamente fechado. Mas não foi possível chegar a acordo com o jogador, fundamentalmente pelas exigências colocadas pelo empresário, que foi subindo sistematicamente as exigências e chegou a pedir 10% do ordenado do jogador, a ser pago mensalmente. Damos por encerradas as negociações. Leandro não vai ser jogador do FC Porto", afirmou, acrescentando que "com gente desta não se pode trabalhar". Adelino Caldeira elogiou ainda o comportamento da Portuguesa dos Desportos, que "manteve sempre a palavra". Amílcar Casado, presidente do clube brasileiro, explicou, mais tarde, que "não havia maneira de efectuar o negócio do FC Porto" porque seria impossível contrariar "a vontade do jogador e do empresário". Segundo o PÚBLICO apurou é mesmo provável que o jogo de preparação que o FC Porto tinha previsto para o próximo dia 22 com a "Lusa" se mantenha.O clube italiano pretendia levar de imediato o brasileiro para Florença, mas como não havia vôos para Itália foi preciso desfazer novamente o plano e adiar, já no Aeroporto Sá Carneiro, a viagem para hoje de manhã. De camisola "violeta" envergada, "uma coincidência", Leandro surgiu cabisbaixo. "Não fiz mal a ninguém", balbuciou o avançado com os olhos fixos no chão, a evitar o mal estar evidente.