Apresenta-se a "Xylella fastidiosa"

Um consórcio brasileiro, financiado com dinheiro público, investiu na sequenciação dos genomas de organismos que atacam plantações de grande impacte económico. A primeira destas bactérias é apresentada hoje e o homem conta com mais uma arma para combater as pragas que lhe disputam a comida.

A grande inimiga das laranjas do Brasil está posta a nu na edição de hoje da revista "Nature". O genoma da bactéria "Xylella fastidiosa" foi completamente sequenciado por um consórcio brasileiro, que identificou vários genes envolvidos no metabolismo e processo de infecção. O Brasil produz cerca de um terço das laranjas do mundo e metade do concentrado para sumo, sendo a União Europeia o principal cliente. Quando, em 1987, foi dado o alerta sobre o aparecimento de uma nova doença nas laranjeiras dos estados de São Paulo e Minas Gerais, já a clorose variegada dos citrinos (CVC) se espalhava rapidamente, transportada nos enxertos e nos bicos dos insectos. Os sintomas da doença são visíveis nas manchas das folhas, que ficam acastanhadas e exibem uma baba pegajosa no lado inferior; os frutos ficam pequenos e endurecidos, perdendo todo o valor comercial.A "Xylella fastidiosa" é, como o nome sugere, uma bactéria do tipo fastidioso, ou seja, cresce devagar e demora a manifestar-se na planta. Como resultado muitas árvores podem estar infectadas sem o demonstrar, tornando ainda mais difícil o controlo de uma praga dissimulada, mas muito eficaz. Outras estirpes deste micro-organismo são responsáveis por outras doenças que afectam plantas de valor económico, como é o caso das videiras ou do cafeeiro."O principal objectivo da sequenciação da 'Xylella fastidiosa' foi aumentar o nosso conhecimento sobre os mecanismos da patogenicidade em plantas", explicou ao PÚBLICO João Carlos Setúbal, da Universidade de Campinas, em São Paulo, um dos responsáveis pelo projecto que permitiu dotar este estado brasileiro com uma moderna unidade de investigação genómica. "Daqui para a frente há muito trabalho".A forma de lidar com esta doença passará ainda por muitas experiências a realizar no campo e no laboratório. A solução poderá ser um químico novo para irrigar as plantações ou a biotecnologia para alterar as próprias laranjeiras e torná-las resistentes. Se bem que a legislação brasileira no domínio das plantas transgénicas não esteja definida: "Temos um grande debate a correr sobre os transgénicos. A situação não é clara. É permitido realizar experiências científicas, mas ainda a semana passada um carregamento de milho argentino foi impedido de ser distribuído porque era transgénico", relatou João Carlos Setúbal.A CVC ataca por enquanto laranjeiras no Brasil e na Argentina, mas não é certo que a maleita não se propague ao resto do mundo. A bactéria ataca os vasos condutores da água e sais minerais na planta e consegue multiplicar-se no interior dos insectos que se alimentam deste suco. O contágio mais frequente é feito por estes animais, que as injectam directamente nas células hospedeiras da planta. Curiosamente, a análise do genoma agora publicado revelou a ausência dos genes que limitam o leque de hospedeiros, o que explicaria o seu sucesso infeccioso em espécies de plantas tão diferentes. A toxicidade desta bactéria está associada, por exemplo, à produção de toxinas, antibióticos e sistemas que impedem o movimento dos iões (átomos ou moléculas com carga eléctrica) de um lado para o outro.Depois do primeiro sucesso seguem-se outros projectos que conjugam os esforços de uma vintena de laboratórios brasileiros na aplicação da nova tecnologia genómica. O departamento de Agricultura dos EUA acabou de contratar os serviços do consórcio brasileiro para sequenciar uma outra variedade de "Xylella fastidiosa", que ataca as videiras da Califórnia com a chamada doença de Pierce. Esta região dos EUA é um importante produtor mundial de vinho e esta patologia letal pode obrigar à replantação na maioria das áreas afectadas. Ainda nos EUA, existe uma outra bactéria, tão devastadora como a "Xylella", que está também a ser sequenciada pelo consórcio brasileiro, a "Xanthomonas citri", causadora do cancro cítrico, uma doença de espectro mundial que em 1996 afectou grande parte das laranjeiras da Florida, em consequência de um tornado.Financiado em 98 por cento com dinheiro público, o consórcio brasileiro tenciona disponibilizar todos os dados das suas investigações. Para o final de 2001 esperam-se os resultados de um projecto de amostragem do genoma da cana-de-açúcar. "Estamos a contribuir para a formação de um banco de genes da cana-de-açúcar, quem sabe para conseguir variedades mais produtivas. Neste caso não se trata de descodificar o genoma completo porque é gigantesco, três vezes superior ao do homem", explicou João Carlos Setúbal.