Os dias da vida dos 'gangs' de Lisboa

Assaltam e agridem pessoas. Provocam desacatos. Pegam fogo a contentores, pintam graffitis, furtam automóveis. São adolescentes que se movimentam em bandos de 10, 15, 20 elementos. Fumam haxixe, a maior parte não usa drogas duras. Habitam sobretudo bairros degradados, clandestinos ou sociais, da região de Lisboa. Uma parte, pertence à segunda geração de africanos que vieram para Portugal: mas tem mais afinidades com o imaginário "rap" americano do que com a cultura dos pais. Isso percebe-se no orgulho negro, no ódio à "bófia", na música, nas sapatilhas coloridas, nos bonés, na agressividade. Outra parte, são jovens brancos da periferia de Lisboa, tão marginalizados como os primeiros. Mas é frequente encontrar-se grupos com brancos e negros. A polícia conhece alguns cabecilhas. Captura-os até frequentemente. E, frequentemente também, solta-os. A raiz do problema, claro, é sócio-económica. A solução, essa, poderá passar pela readaptação das escolas. E pela reintegração dos pequenos criminosos.

Pouco passa das 9h00. Pelo bairro cabo-verdiano das Fontainhas, na Amadora, já circulam paisanos da PSP. "Aquele é o Pringle, a gente conhece-os a todos. Devem andar à procura dos miúdos do comboio de Cascais", diz Barros, 23 anos, um ex-"bad boy", avistando o polícia desfardado desaparecer nas ruelas labirínticas. "Não vão ter sorte". Durante a manhã, há pouca gente nas ruas. Só velhos praticamente. Os miúdos, ou foram para as escolas, ou andam na "vadiagem". Sassá, um dos jovens referenciados pela polícia, está escondido em casa. Não quer falar com ninguém. Já foi inquirido na esquadra e jura à família que "vinha no comboio mas não fez nada". A tia Cecília, são-tomense, vizinha do lado, diz que ele está farto de se meter em alhadas. "É duro de cabeça e está a pagar por isso. Já tem processo de roubo, de fazer asneiras na rua. Só que nós nunca desconfiámos de nada até há pouco tempo."Nas Fontainhas toda a gente se habituou à presença policial. Volta não volta, há rusgas: as brigadas anti-crime cercam o bairro, não deixam ninguém entrar ou sair, e vasculham as casas. Os motivos são quase sempre os mesmos: roubo, actos de vandalismo, tráfico de haxixe, agressões, fuga das casas de correcção. Barros guia-nos pelos becos esconsos e imundos do amontoado de casas das Fontainhas, do 6 de Maio e da Estrela de África, onde moram em condições desumanas mais de 10 mil pessoas, na maioria cabo-verdianos. É um negro robusto, 23 anos, com projectos de vida e com filhos. Mas já foi um dos maus. Saiu da prisão há poucos meses, depois de cumprir três anos de pena. "Fiz umas traquinices: assaltos, tráfico de haxixe, cata aos betos, esse tipo de coisas", confessa. Agora, tenta "mostrar aos miúdos outro caminho". Conhece bem os vizinhos de que toda a gente fala: "Os putos foram à praia do Estoril e, à vinda para cá, roubaram umas carteiras". A polícia estima que fossem perto de 60 a entrar nas estações de Monte do Estoril e Algés. Vivem quase todos nos bairros clandestinos de cabo-verdianos da Amadora. A maioria já estava referenciada nas esquadras da Damaia, Alfragide e Venda Nova, como membros de grupos de delinquentes. Muitos tinham fugido recentemente de casas de correcção para menores. Moreno, 21 anos, também já andou "em cenas com os amigos". A expressão do rosto é tímida mas agressiva. Fala olhando para o chão. "Os pretos estão sempre lixados". Veste uma "T-shirt" larga por cima das calças de fato de treino, usa sapatilhas de marca, e transporta um "discman" na mão. No rosto de miúdo, sobressaem as argolas douradas, uma em cada orelha. "As televisões só falam dos indivíduos de raça negra. Quando são os brancos, já não há indivíduos de raça, há só indivíduos que assaltam", queixa-se. Sobre o assalto ao comboio diz não saber nada. Sobre os erros do passado diz não querer falar. Está a refazer a vida, mas o tribunal prepara-se para lhe dar quatro anos e meio de prisão.Existe um certo orgulho "black", assumido, entre os jovens do bairro. Barros ressalva que isso é uma resposta à opressão da sociedade - ao racismo. Dá exemplos do dia a dia, "de todos" os dias. "Chegar a um café e ser atendido em último. Chegar à praia e as pessoas começarem a afastar-se. Passar na rua e a senhora desviar a mala. Ninguém nos alugar casa, etc". Moreno confirma: "Como querem que os jovens não sejam assim, se vivem mal, sem condições, a lidar com a discriminação?"Nas Fontainhas e no 6 de Maio quase toda a gente desvaloriza o caso do comboio de Cascais, em que dezenas de passageiros foram roubados. Um jovem diz: "Eu já fiz o mesmo, também já puxei o alarme de comboios. Era frequente: a malta ia toda junta para a praia do Estoril e, à vinda para cá, no comboio, limpava as carteiras. Os telejornais é que exageraram. Vêem um grupo de pretos e é logo um 'gang'. 'Gang' é uma palavra muito dura para a realidade portuguesa", defende. A PSP faz uma análise idêntica: "Os grupos de que falamos, ainda não têm a hierarquia, a estrutura, a violência dos 'gangs' americanos, por exemplo." Mas um operacional aduziu já existir alguma organização, com um ou dois indivíduos a terem ascendência sobre os restantes. A situação de líder adquire-se pelo currículo criminal. "Normalmente é aquele que comete mais delitos, o mais violento, o que desafia mais a autoridade, o que já disparou contra alguém". Alguns são "bandidos de respeito", apesar de muito novos. A maior parte utiliza armas brancas, embora haja quem esteja munido de armas de fogo. "É um grande problema. Sempre que desconfiamos do sítio onde elas estão, tentamos apanhá-las. Trata-se de proteger a população e de nos protegermos a nós próprios", sublinhou a mesma fonte policial.Alguns destes pequenos criminosos não têm sequer 10 anos: "São uma dor de cabeça". Muitos dedicam-se ao tráfico de droga - "quase sempre haxixe" - a mando dos mais velhos, que os utilizam como correio. "Quando os apanhamos em flagrante e os interrogamos não contam nada, com medo de desiludir os chefes, que são os seus ídolos". Maria João, da Associação Unidos de Cabo Verde, trabalha com estas comunidades há 18 anos. Diz que alguns dos jovens mais terríveis, "ao pé dos pais, são uns santinhos". "Eles nem sonham o que os filhos fazem fora de casa". A família está quase sempre ausente, a trabalhar: os homens na construção civil e nos serviços camarários; as mulheres nos serviços de limpeza e na venda de peixe. "Muitas saem de casa à meia-noite, meia-noite e meia, para irem comprar peixe ao Cais do Sodré, voltam no outro dia de manhã, e, à tarde, ainda vão trabalhar num biscate qualquer. Os miúdos ficam abandonados", conclui Maria João.Entre estes adolescentes - estas crianças - prevalece um sentimento de impunidade. Andam "a gozar" até aos 16 anos. "Sabem que não lhes acontece nada".