"Um museu não se faz num ano"

Uma festa com muitos convidados, música ao vivo e "performances" e ainda a inauguração de novas exposições assinala esta noite a passagem do primeiro aniversário do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto. Altura para fazer o balanço de um ano de actividade de um novo museu que no cenário do belo edifício desenhado por Siza Vieira e sob a direcção artística de Vicente Todolí transformou Serralves num lugar cada vez mais cosmopolita. E também para traçar os cenários da sucessão de João Marques Pinto, o presidente da fundação a primeira hora que no final do ano, e em respeito aos estatutos, tem de abandonar a Administração.

Vicente Todolí, de 42 anos, chegou ao Porto há cerca de quatro para alterar definitivamente o panorama da arte contemporânea portuguesa. E é na cidade onde está sediado o museu que dirige - o Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS) - que as transformações mais se fazem sentir: do fenómeno galerístico da Rua de Miguel Bombarda à nova organização institucional das instituições dependentes do Ministério da Cultura, passando pela clara aposta da Porto 2001 na área das artes visuais, tudo parece beneficiar da dinâmica criada pelo valenciano. A inauguração, em 6 de Junho de 1999, do edifício projectado por Siza Vieira veio complementar a estratégia de afirmação internacional de Serralves, hoje um espaço incontornável da agenda cultural portuense.Com uma vasta experiência internacional, adquirida sobretudo no Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), Todolí lembra que "um museu não se faz num ano, precisa de construir a sua própria história ao longo do tempo". As exposições realizadas quer na casa, quer no novo espaço museológico, têm revelado as linhas de força desenhadas pela direcção artística de Serralves, de que se pode destacar a revisão histórica de momentos-chave da arte produzida nos últimos cem anos. A mostra-manifesto "Circa 1968" constituiu o exemplo maior de uma intenção prosseguida em outras iniciativas, de que se podem destacar "Andy Warhol - A Factory", "Arte em Berlim no Século XX" e individuais dedicadas a El Lissitzky, Merce Cunningham, Pedro Cabrita Reis e René Bértholo - refiram-se ainda os projectos especiais realizados por Pierre Huyghe, Fernando José Pereira e Joana Vasconcelos.A integração do MACS no circuito internacional de itinerância de grandes exposições é outro dos objectivos prosseguidos por Todolí, que sublinha o facto de as futuras mostras dedicadas a Matt Mullican e a Dan Graham serem inauguradas no Porto, seguindo depois viagem para outros países. O diálogo com a região onde o MACS está inserido tem vindo também a ser objecto de uma particular atenção por parte da direcção artística, que é completada pelo portuense João Fernandes. A apresentação da colecção em diversos espaços museológicos do Norte e o trabalho desenvolvido pelo serviço educativo junto das escolas são exemplos citados pelo valenciano: "Queremos chegar a todos que nos queiram ver", nota.Os 75 mil visitantes de "Andy Warhol - A Factory" contribuíram para os 219 mil que passaram pelo MACS durante o primeiro ano da sua existência. O número de pessoas atraído pelos trabalhos criados pelo mais mediático dos artistas pop superou as expectativas de Todolí. Contudo, o director artístico não se deixa deslumbrar pelo sucesso da exposição: "Não vamos cair no erro; uma exposição não se mede em termos de audiência", assinala. E acrescenta: "Queremos a cumplicidade, a participação do público, mas, para mim, a mostra de Warhol foi tão importante como a realizada em torno de René Daniëls".Uma iniciativa com um forte contributo para a alteração da habitual relação entre o espectador e o museu tem vindo a ser experimentada nas noites de quinta-feira. Trata-se de uma série de eventos protagonizados por dj's ou grupos de música electrónica - os berlinenses Scion foram responsáveis pela animação da última destas sessões, que foi assistida por cerca de 300 pessoas. O objectivo destes espectáculos passa por captar um público consumidor das novas tendências urbanas - da moda às sonoridades alternativas -, ou seja: "Gente nova que pode pensar que um museu é uma coisa chata, onde apenas se vêem vestígios de coisas passadas", aponta Todolí, que opina ainda acerca da necessidade de "afastar o lado de mausoléu que pode ter um museu, de modo a convertê-lo num hábito quotidiano, como o ir ao cinema".Apesar de o seu contrato com a Fundação de Serralves terminar em Julho próximo, Todolí ainda não pensa no futuro: "Prefiro estabelecer objectivos a curto prazo". Para já, assinala, existe o compromisso de realizar o programa de 2001, para o qual irá comissariar um grande número de exposições. As maiores possibilidades orçamentais fornecidas pela Capital Europeia da Cultura fazem mesmo com que qualquer momento do ano seja encarado pelo valenciano como um ponto alto da programação do MACS: "Damos tudo o que temos", refere. Todolí esclarece ainda que só depois de ter fechado o "'dossier' 2001" irá tentar perceber se os objectivos da nova Administração de Serralves se adaptam, ou não, àquilo em que acredita. "Não efectuar compromissos irresolúveis" - esta é a actual posição do responsável pela programação do MACS, que lembra o velho princípio de ninguém ser indispensável.Acerca de João Marques Pinto, que vai abandonar a presidência da fundação no final deste ano (ver texto ao lado), Todolí realça a relação "impecável" que com ele foi possível manter ao longo de todo este tempo. "Senti sempre um grande apoio e cumplicidade da sua parte". O valenciano refere a importância de se constituir um fundo necessário para se dar continuidade à colecção do MACS, que considera a "espinha dorsal, os ossos, do museu; os músculos e a carne são as actividades complementares". E termina: "Em 2002 [ano em que termina o actual protocolo para compra de obras de arte], é necessário encontrar uma nova forma de prosseguir as aquisições para o acervo do museu".