A paixão das bibliotecas públicas

Durante três dias, sob a égide da presidência portuguesa da União Europeia, directores, investigadores e autarcas debateram o futuro das bibliotecas públicas. Num mundo que navega na Net, que lugar ocupará amanhã a rede de leitura pública? A diversidade europeia, mais uma vez, não encontra uma resposta única. As realidades são diferentes, os desafios - e as paixões... - também. Portugal, apesar do esforço que está a ser feito com Rede Nacional de Bibliotecas Públicas continua, em alguns aspectos, na cauda da Europa.

Portugal é, entre os países europeus, dos que menos investe na suas bibliotecas públicas - 1799 euros, por mil habitantes (360 contos) em contraste flagrante com a média europeia, 15.423 euros (3092 contos). Esta foi uma das revelações mais chocantes que o director da Biblioteca Municipal de Setúbal, José António Calixto, fez durante a conferência internacional Bibliotecas Públicas: Inventando o Futuro que terminou ontem em Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB) com uma videoconferência entre o CCB e as Bibliotecas Públicas de Vila Nova de Famalicão e Beja (ver caixa).Com base no relatório Millenium Study (LibEcon 2000) - o maior levantamento que até à data foi financiado e realizado pela União Europeia (UE) tendo sido divulgado no passado mês de Abril - Calixto chamou a atenção para outros dados preocupantes. A média da UE em termos de pessoal que prestam serviço nas bibliotecas é 31, 9 por cento por cada 100 mil habitantes. Em Portugal, ficamo-nos pelos 14,3... O cenário é negro? É e não é. Há outros dados e outras realidades com que contar. Quando em 1983, o manifesto "A Leitura Pública em Portugal" foi publicado o quadro era ainda muito mais sombrio. A descrição parece de um romance neo-realista, puro e duro: as bibliotecas eram "edifícios velhos, acanhados e desconfortáveis", as verbas "irrisórias", as actividades de animação "demasiado elitistas ou eruditas, distantes dos reais interesses da população". Hoje, porém, a paisagem - apesar daqueles números - alterou-se radicalmente. Uma primeira constatação: entre 1988 e 1999, foram inauguradas 80 bibliotecas e é preciso não esquecer que o projecto de Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNLP) já conheceu vários responsáveis políticos: do PSD, primeiro, do PS depois. Não é tudo: o actual ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, não deixa de garantir, repetidamente, que em 2003 todos os concelhos do continente ficarão abrangidos pela RNBP num programa de colaboração com as autarquias que, até àquela data, investirão em conjunto cerca 30 milhões de contos.O Millenium Study (que o leitor pode consultar na íntegra no "site" http://www.libecon2000.org/milleniumstudy/default.htm) mostra um lado bem mais sorridente: entre 1991 e 1998, o número de utilizadores inscritos nas bibliotecas portuguesas aumentou a olhos nunca vistos: passou de 628.000 para 3.233.904 utentes - um acréscimo percentual de 6 para 32 por cento. Ou seja, multiplicou cinco vezes. O números de empréstimos triplicou de 70 livros por mil habitantes, em 1991, para 207 mil livros, em 1997. Obviamente que ainda há muito a fazer mas a verdade é que os directores de bibliotecas municipais de outros países, em particular do pelotão da frente da Europa, como o dinamarquês Rolf Hapel, da Biblioteca Municipal de Aarhus, não deixaram de aplaudir o esforço que os "colegas portugueses estão a fazer".Num mundo em constante mutação - em que a própria noção de tempo, sobretudo quando se propõe inventar o futuro é extremamente nebulosa - os desafios que se colocam às bibliotecas municipais são de vária ordem. Como acontece com as bibliotecas nacionais (ver PÚBLICO de 8/4), as realidades com que se confrontam - do Atlântico à Escandinávia - são diferentes e complexas: uns já estão, como a Dinamarca ou a Finlândia, a navegar na era do digital, pensando em tornar a suas bibliotecas num espaço de lazer - a de Estugarda, parece, é um autêntico cruzeiro, com cadeiras de lona onde os leitores podem ler ou simplesmente dormir, ter silêncio e sossego - enquanto outros, como Portugal, ainda não têm, em muitos casos, bibliotecas devidamente apetrechadas. Se os serviços on-line adquirem uma importância cada vez maior, a leitura pública - com todas as actividades que lhe estão associadas - faz da biblioteca um espaço "híbrido", foi o conceito mais utilizado ao longo dos três dias de debate. "É melhor não sonhar muito alto", comentava a directora da biblioteca de Estugarda, Alemanha. Mas um dilema veio ao de cima no segundo dia do encontro quando o diálogo verdadeiramente se instalou: que papel estará reservado às bibliotecas do futuro? Um lugar de inclusão social, como defenderam acerrimamente os britânicos da Terceira Via trabalhista? Em Portugal, Calixto - que está há três anos na Universidade de Sheffield a preparar a sua tese de doutoramento - chegou a lembrar que muitas bibliotecas servem ainda para dar lanches às crianças e são os únicos sítios onde os idosos podem consultar jornais... Ou, pelo contrário, as bibliotecas devem continuar a ser, à luz do modelo iluminista, um espaço de transmissão de conhecimentos e saberes? Esta via - "que poderá até não ser politicamente correcta" como ironizou o director da Biblioteca Municipal de Lyon -, foi particularmente defendida pelo director da Rede de Leitura Pública da Dinarmarca, Jens Thorhauge. "As bibliotecas", dizia ao PÚBLICO, "não podem ser pau para toda a obra. Os meus colegas ingleses têm um problema, que é real - o da exclusão social. Mas essa não pode ser a única paixão. Temos que ser suficientemente flexíveis para encontrar em cada caso a melhor solução."Se é certo que se falou muito das novas possibilidades tecnológicas a comunicação do sociólogo José Paquete de Oliveira pôs o dedo na ferida, daquilo que designou como info-exclusão. Os dados dão que reflectir: todos os dias nascem com as três letrinhas mágicas www três milhões de novas páginas. Mas 80 por cento dos "sites" são apenas mensagens ou anúncios comercias... São escritos em inglês, mas no mundo só 10 por cento da população fala a língua de Shakespeare. Não é tudo: o analfabetismo à escala mundial é da ordem dos 880 milhões, sendo que 60 por cento são mulheres. Em todo mundo, 125 milhões de jovens entre os seis e os onze anos estão sem escolarização, enquanto outros 150 milhões abandonam a escola antes de terem adquirido uma formação mínima.Como lembrava no primeiro dia do encontro - que contou com a presença do Presidente da República, Jorge Sampaio, o secretário- geral da Federação Internacional das Associações de Bibliotecários (IFLA, http://www.ifla.org) - numa altura em que, aparentemente, toda a gente parece falar pelo telemóvel, 80 por cento da população mundial nunca fez um telefonema. E ler um livro? E entrar numa biblioteca?