"Et tu, Sampaio?!"

No seu "Júlio César" Shakespeare atribui ao moribundo César, ao ver-se apunhalado pelo seu amigo Brutus, no Senado de Roma, as seguintes palavras, em latim e tudo: "Et tu Brute!" ("Também tu, Brutus!") Essa célebre frase ficou desde então como símbolo da amarga estupefacção perante as atitudes de quem menos se devia esperá-las.Essa cena da tragédia shakespeariana veio-me à lembrança, guardadas as devidas distâncias, quando, incrédulo, tomei conhecimento de que o Presidente da República, Jorge Sampaio, tinha aceito associar-se à cerimónia religiosa da "beatificação" dos três "pastorinhos" de Fátima.Não está em causa naturalmente a mais que justificada celebração do evento pelos crentes, em geral, e pelos peregrinos de Fátima, em especial. Estão no seu pleno direito e merecem todo o respeito, num país em que se garante escrupulosamente a liberdade de religião e de culto. O que se estranha é que o Presidente da República (aliás, acompanhado pelo primeiro-ministro) tenha resolvido participar como tal, isto é, enquanto chefe do Estado, numa cerimónia religiosa desta natureza, ao arrepio do princípio da não confessionalidade e da neutralidade religiosa do Estado.O episódio é tanto mais inesperado quanto é certo que o Presidente da República sempre se reclamou da sua condição de não crente. Mais importante do que isso, as coisas tornam-se mais delicadas quando, considerada a sua função de representação da colectividade nacional (o que é incompatível com tomadas de posição de natureza religiosa, por definição particulares, e mesmo fracturantes), bem como a sua condição de especial garante da Constituição, que estabelece o princípio da separação entre o Estado e as Igrejas.O que é intrigante neste decepcionante episódio é a racionalidade desta decisão presidencial. Pois é evidente que na opinião pública portuguesa ninguém consideraria ser dever do Presidente aderir à cerimónia de Fátima, já por efeito do seu notório agnosticismo religioso, já pela ideia prevalecente sobre a sua fidelidade aos princípios políticos e doutrinários inerentes a uma república laica, já pelo respeito devido ao princípio constitucional da separação entre o Estado e a religião.A opção é tanto mais comprometedora quanto é certo que o fenómeno fatimista está incontornavelmente associado a tudo o que de culturalmente mais obscurantista e politicamente mais retrógrado marcou o século XX português. E pode também ser interpretada como uma mensagem errada no actual contexto da discussão da lei da liberdade religiosa, das garantias da laicidade do Estado, e da revisão da concordata com o Vaticano. O mínimo que se poderia esperar do Presidente é que não desse a impressão de amnistiar, muito menos de coonestar, a História, nem de compartilhar de uma concepção neoconfessionalista nas relações entre o Estado e a Igreja Católica.Na citada peça do grande dramaturgo, Bruto justifica a sua infidelidade a César invocando a razão do Estado e o interesse público de Roma ("Not that I loved Caesar less, but that I loved Rome more"). Receio bem que o Presidente da República portuguesa não possa invocar em seu favor nenhum motivo de interesse público, muito menos razão de Estado, para justificar a sua inopinada associação à referida celebração religiosa. A única razão até agora invocada - a saber, a "relevância nacional" do evento -não chega manifestamente para justificar a decisão. Por mais relevante que seja para os crentes a cerimónia da beatificação, nada poderia exigir do chefe de Estado de uma república laica a participação nela. Devendo afastar-se liminarmente a ligação dessa decisão à proximidade das eleições presidenciais - porque isso suporia um rasteiro oportunismo político, manifestamente incompatível com tudo o que conhecemos e esperamos deste Presidente da República -, o gesto presidencial só pode ser concebido como uma mal-avisada falha de avaliação sobre a relação que ele deve manter com as manifestações religiosas. Seja como for, produto de feio cálculo político ou de benévola condescendência perante o fenómeno de massas de Fátima, situações destas não podem deixar de contribuir para a crescente decepção da opinião pública em relação aos políticos. Se até um homem como Jorge Sampaio - conhecido pelo forte compromisso com as suas convicções e por uma imagem de intransigente defesa dos valores constitucionais - acaba por ceder à tentação fácil de "flirtar" com a religião, em que não crê, como haveremos doravante de continuar a confiar na vida política?Duvido, aliás, que os próprios crentes de Fátima acreditem na genuinidade do gesto presidencial. Tenho para mim que a generalidade dos cidadãos vêem com muito melhores olhos a fidelidade às convicções e aos princípios do que uma improvável adesão a manifestações religiosas de cujos fundamentos não se partilha. A pertinente dúvida sobre a inocência do gesto pode ser fatal. A verdade é que se pode perguntar com toda a propriedade se há alguma sinceridade nisso.Para ser "presidente de todos os portugueses", no dizer da fórmula tradicional, o Presidentes da República não necessita seguramente de ter o voto de todos os portugueses. Receio, aliás, que a contabilidade eleitoral nesta matéria não revele saldo positivo na mais que esperada reeleição do actual inquilino de Belém. É que a incerta ampliação dos seus apoios nos círculos conservadores católicos não deixará de ser acompanhada pela segura alienação de simpatias na sua área natural de eleição. Francamente, parafraseando o saudoso "diácono Remédios", não havia necessidade...