Conversa com vista para... Victor Mendes

Conseguido o contacto, um telemóvel, liguei, curiosa em perceber como reagiria ao meu desafio. Os celulares despistam os mapas, mesmo que imaginários, das nossas cartografias. Eu a situá-lo no Alentejo da sua ganaderia ou, vá lá, em Espanha, num circuito privado de "tentas", e eis que me responde de ... Trento. Com uma voz solar, propôs-me que esperasse o seu regresso, daí a uns dias. Só passadas várias semanas é que foi possível agendar o encontro. Mas a voz nunca deixou de ter o sol a iluminá-la, das muitas vezes que adiou a conversa, por andar em trânsito constante por terras de Espanha e de França. Aí sim, por congressos, conferências e corridas, os toiros eram o denominador comum de todas as deslocações. Preferimos ambos a calma da hora de almoço. Num Hotel, em Vila Franca de Xira. A primeira pessoa que me falou da "arte" de Victor Mendes foi Andréa Férréol. Era um "matador" que ela gostava de seguir pelas praças do sul de França. Encontrava nele um garbo e uma alegria na arte do toureio, cada vez mais raro de se ver no actual mundo das faenas e das lides. Como não sou dada ao universo tauromáquico, fiquei mais curiosa quando uma notícia de jornal me contou que Victor Mendes tinha feito uma conferência notável numa Universidade espanhola. E que havia uma bolsa para alunos de Direito com o seu nome. Pela televisão vi-o, uma vez, numa das raras corridas que cumpriu em Portugal. Percebi então melhor as palavras da Andréa. De estatura média, corpo maciço e rosto, também ele sólido, entrou na arena com porte: espesso, concentrado, fitando o toiro com o desejo de um dançarino que se dirige ao par da noite. Par que vai voltear com ele, a seu (?) mando. Voltearam ambos, naquela corrida, e eu bem vi como a lide do "matador" ia tentando a misteriosa sorte de sedução do animal. E gostei do jeito, em festa, da sua "arte". O silêncio dos últimos anos, à volta do seu nome, acentuou em mim a vontade de lhe chegar perto.

MJS - Estas conversas começam sempre com um pedido - peço-lhe que me faça a sua ficha.VM - Sou um ser humano, do sexo masculino, a quem puseram o nome de Victor Manuel Valentim Mendes, que nasceu no seio de uma família simples, humilde, feliz e equilibrada, numa terra do Ribatejo, chamada Marinhais, no concelho de Salvaterra de Magos. Concretamente há 42 anos. Esse, sou eu. E depois... que nasceu com a divina herança ou, se calhar, com a matéria-prima mais que suficiente para chegar a ser "figura de toureio", que é quase um milagre no mundo dos toiros.MJS - Fale-me desse tal milagre que é a "figura de toureio".VM - Dentro do universo que é o toureio há diferentes níveis. Muito, muito diferentes. Atingir o mais alto nível é da ordem do milagre. Considero que o toureio é uma arte, mas é também uma profissão. Ao fim e ao cabo, trata-se de um homem jovem que se mentaliza e se prepara, psicologicamente, fisicamente, para a oportunidade de se realizar como toureiro. É uma profissão, porque se acaba por viver de e para. E pode sempre acontecer muita coisa pelo caminho...MJS - Quando é que descobriu em si a vontade de se entregar a essa arte e a essa profissão?VM - A minha aficción começou cedo. O meu pai era aficcionado, os meus tios também, mas não havia ninguém na família profissionalmente ligado aos toiros. Com 12 anos já vinha aqui para as "esperas" brincar com os toiros. O que me valeu algumas galhetas do meu pai. Pode-se nascer com aptidões, mas o meio ambiente é fundamental, como um caldo de cultura indispensável para o seu desenvolvimento. Aconteceu comigo e, para isso, foi muito importante virmos viver para Vila Franca. Aquilo que em mim, desde muito pequeno, era uma grande curiosidade, transformou-se, por todo o ambiente que aqui se vive, numa certeza absoluta sobre o que queria ser e fazer na vida - lidar toiros, lidar com toiros. MJS - A família contrariou esse seu interesse?VM - Não, pelo contrário. Deram-me até força para este meu desejo continuado de aprender mais e saber até onde podia ir. Vivi uma terrível luta interior - a luta entre uma grande paixão e a consciência da minha ignorância e de tudo o que tinha de aprender. Estava sempre a pôr-me à prova.MJS - A sua formação escolar como é que foi? Ressentiu-se por via desse entusiasmo que o habitava?VM - Fui sempre um aluno certinho. Fiz o Ciclo Preparatório, a seguir fiz o curso geral dos Liceus no antigo Colégio Sousa Martins e, depois, acabei o Curso Complementar. Sempre em Vila Franca. Sem dificuldade. Mas o meu hobby eram os toiros. Para outros era a bola, ou a vela, ou outros desportos. Para mim só havia o toureio. Procurava ir a todas as "ferras", aos "tentaderos", às corridas. Antigamente, havia uma referência em Vila Franca - o Café Central. Juntavam-se lá notáveis vilafranquenses. Vinham também bandarilheiros, forcados, vários profissionais do toureio e faziam-se tertúlias. E eu gostava de ir para lá ouvi-los e respirar aquele ambiente. Em Vila Franca havia e há muita gente aficcionada da corrida de toiros integral. Falava-se essencialmente do que se passava em Espanha em torno da sorte de varas e da morte do touro. E eu ia prestando muita atenção ao que se dizia sobre a componente que leva ao equilíbrio entre o que é brutal e o que é lógico numa lide.MJS - Qual é a qualidade essencial para se conseguir esse equilíbrio?VM - A agressão para o toiro nunca é fácil. Temos que ter uma espécie de termómetro, temos que nos aperceber da sua raça, do seu carácter, das suas virtudes. O equilíbrio vive da "arte" do toureio e das qualidades do toiro em se deixar lidar. O toureiro tem que saber "templar" e dar também oportunidade ao toiro para "pensar" mais as investidas.MJS - "Pensar"?VM - Sim, "pensar"! O toiro aprende durante a lide! Adquire sentido! Mas o toiro não é um inimigo. O toiro é um cúmplice do mesmo jogo. E tem que ser consequente em relação aos estímulos que o toureiro lhe dirige. O carácter e a personalidade do toiro estão presentes não só na sua capacidade de agressão e de combatividade, mas na sua nobreza, na sua categoria, no ritmo, no movimento que, numa simbiose muito especial, colocam-no sempre por cima de qualquer outra circunstância. É ele o ponto de partida de tudo.MJS - O momento em que o toiro entra na praça, é o momento em que o toureiro o vê pela primeira vez?VM - Há casos em que o toureiro se preocupa em ir ao campo ver o lote de toiros que vão ser lidados na corrida tal, na praça tal. E depois recorda-se dele, quando o vê entrar no "ruedo". Às vezes está-se meia-hora ou mais a observá-los no campo, no seu habitat natural, a fixar as suas características morfológicas, a maneira como andam, como olham, como se comportam no meio dos irmãos.MJS - Parece quase um namoro, em vez de ser com a menina à janela, é com o toiro no campo.VM - É isso mesmo, é quase um namoro.MJS - Lembra-se dos toiros que lidou? Quantos foram?VM - Estoqueei uns 2.500 toiros de morte e toureei em 1.138 corridas. Ao longo de 17 anos de uma carreira tremendamente intensa.MJS - 2500 toiros 2500 é obra, Victor Mendes! Consegue lembrar-se de todos?VM - De muitos. Pela negativa e pela positiva. Indultei três toiros: dois na Colômbia e um no Peru. Uns animais espectaculares, de uma nobreza rara. Fui visitar um deles, passado um ano. Não pode imaginar como foi bonito vê-lo no campo, tranquilo, no meio de um ramalhete de vacas. Em Espanha, na época, o regulamento não permitia o indulto. Agora já é de novo possível. E deu-se morte a muitos toiros de uma grandeza tal, que até custava matá-los. Não mereciam. Pela força de comportamento e de carácter demonstrada na praça, durante a lide, tinham ganho o direito de não serem mortos a estoque. Superavam a lógica da lide. Eram maiores do que a sorte do estoque, sorte que afinal preside à sua própria criação. Mas há uns que merecem a liberdade de uma vida tranquila como reprodutores, como sementais de uma grandeza especial. Embora a genética não seja, também com os toiros e com as vacas, uma ciência matemática e exacta. Juntar o muito bom com o muito bom dá, às vezes, mau ao quadrado. O que é o grande desapontamento dos ganaderos. Há quem diga que os toiros reflectem a personalidade dos ganaderos, sabia?MJS - Não, não sabia. Nem imagino como.VM - Os ganaderos não seleccionam as suas ganaderias da mesma forma e cada uma transporta depois, na praça, a nível de comportamento dos toiros, esses diferentes critérios de selecção. Há ganaderos que procuram a suavidade e a nobreza, que os toiros venham de largo, alegres. Outros preferem a agressividade e a violência desde o arranque. E os cruzamentos são feitos tendo em vista a optimização dessas tendências. Eu, por exemplo, na minha ganaderia, conheço o historial genealógico dos animais desde 1948 - da mãe para o semental, que depois deu outro semental, por aí fora. Muito importante também é o modo de se organizar os tentaderos. É aí que se vê e se mede a "reata" dos animais.MJS - "Reata"?VM - "La reata", do castelhano. O que traz um toiro na "reata" é a herança genética que ele carrega nas costas - porque a mãe foi extraordinária, o avô foi sensacional, a avó ainda mais... No caso dos machos, o tentadero realiza-se para ver se o novilho tem a harmonia morfológica, a nobreza de personalidade, a velocidade na investida, o comportamento geral que vai dar ao ganadero a ideia de que aquele jovem toiro pode ou não vir a ser um bom semental. Ou se pode ou não vir a ser lidado. Depois observa-se, logo nas tentas, o encaminhamento da personalidade do toiro. Por exemplo, se se põe a escarvar, ou a berrear, não é bom sinal. E a avaliação dessas qualidades, positivas ou negativas, é que depende dos critérios de apreciação de cada ganadero. Mas o mais importante nas tentas diz respeito às novilhas, às fêmeas. É nelas que se vai ver o resultado do acerto ou do erro que o ganadero cometeu nos cruzamentos. O que é fundamental para a manutenção do nível da ganaderia. É nas fêmeas que se encontra a transmissão do equilíbrio da espécie. MJS - As fêmeas são "tentadas" mas não são lidadas nem têm direito a nome nos cartéis, embora tenham grandes capacidades tauromáquicas!? VM - Claro que têm grandes capacidades tauromáquicas. São elas as portadoras dos genes do comportamento dos toiros.MJS - Larguemos as ganaderias e as tentas por agora. Fale-me da sua ida para Espanha, terminados os estudos em Portugal.VM - Acabado o liceu, fiz o Serviço Cívico estudantil e matriculei-me em Direito. Mas não me dei bem com a anarquia daqueles tempos revolucionários. E, sempre com os toiros à minha volta, decidi matricular-me na Complutense de Madrid. Como não havia equivalência, tive primeiro que me preparar para a entrada na Universidade. Mas só por lá andei um ano.MJS - Queria mesmo ser advogado?VM - O meu pai era escrivão de Direito e foi Chefe de Secretaria no Tribunal de Vila Franca e eu cheguei a estagiar durante uns meses aqui, no Tribunal, para me ambientar com os processos e para ajudar à minha formação. Mas, todo o meu tempo livre, era dedicado aos toiros. E a Espanha era o destino que me apaixonava, habituado como estava a ir com o meu pai a corridas em Badajoz e em Mérida.MJS - Então o que quis sempre verdadeiramente ser foi "matador de toiros", é isso?VM - Não assumi, perante mim mesmo e de uma forma directa, o compromisso de ser um profissional de toureio como "matador de toiros". Quis-me provar primeiro. A oportunidade surge, em Benavente, quando, com 18 anos, fiz o Serviço Cívico a alfabetizar adultos. Nessa altura mantinha contactos com os irmãos Badajoz que eram bandarilheiros e tinham uma pequena escola de toureio em Coruche. Foram eles que me deram a ideia de tentar ser bandarilheiro profissional. Nesse mesmo ano, quando era compatível fazer o Serviço Cívico e matricular-me em Direito, fiz a minha prova de praticante de bandarilheiro. MJS - Onde?VM - Em Coruche. Faço-me bandarilheiro profissional e, olhe, dei nas vistas. Comecei a ser adulado, requisitado por muitos.MJS - Há no mundo dos toiros, como no futebol, "olheiros"?VM - Claro, já vai ver o que se passou comigo. No entusiasmo de ouvir que era um bandarilheiro sensacional e que podia ir muito mais longe, passo a ir cada vez mais aos tentaderos ver os "matadores", vou alimentando uma cada vez maior curiosidade e uma vontade de me aproximar da elite do toureio e ia treinando com a muleta como eles faziam... E fui contratado, já estudante de Direito, para a corrida de 11 de Maio de 1977, em Vila Franca, aquela que foi a última grande corrida de toiros de morte em Portugal. Havia uma autorização especial para a corrida ser picada, mas os três "matadores" - os Mestres José Júlio, António de Portugal e Raiyto de Venezuela, decidiram depois matar os 6 toiros do dia. O que deu azo a um processo muito complicado, como pode imaginar. Ora, o Raiyto de Venezuela trazia consigo o Gonzalito, que era moço de espadas do Curro Romero. Um "olheiro". Gostou tanto de me ver bandarilhar um dos toiros do Raiyto que me perguntou logo se eu não queria ser toureiro e tentar a sorte em Espanha. Vi estrelinhas a brilhar à minha volta!!! E aí, sim, tive o primeiro choque com a família. A minha mãe ficou inconsolável.MJS - Vai para Madrid - Direito e toiros!!VM - Acabei por ficar muito pouco tempo em Madrid. E esqueci rapidamente o Direito. O Gonzalito puxou-me para Sevilha, para que fizesse os tentaderos e ali contactasse com os grandes toureiros. E lá vivi, dois anos e tal, em pleno bairro de Triana, em casa da tia Gertrudes, uma velhinha adorável que me ganhava às cartas - "las quarenta", no antigo Hotel Triana. Treinava horas a fio no pátio do Hotel. Comecei mesmo pelo baixo, sem senhorios. Foi um período apaixonante. Recordo-me de um rapaz, de Palma de Maiorca, que era "barman" e que queria ser toureiro. Era o único de nós, no meio de venezuelanos, mexicanos, etc. que tinha um carro, um Fiat 127, em 5ª ou 6ª mão. Cada um de nós dava 25 pesetas, enchia-se o depósito e lá partíamos para os tentaderos mais famosos - dos Alburejos, em casa dos Domecq, dos Peralta, do senhor Marquês de Albaserrada... Posteriormente cheguei a tourear muitas corridas de toiros dessas ganaderias. MJS - Considera-se um intuitivo?VM - Sim, sou um intuitivo, mas com uma enorme obsessão pelo profissionalismo. Menos virado para a estética, porque a "arte" quando acontece, e é sempre fruto de uma inspiração, é também preciso que por trás dela haja uma grande tranquilidade de espírito, uma grande madurez, e essas só com muita técnica se conseguem atingir. MJS - Que toureiros, no seu entender, melhor representam essas qualidades que reputa de indispensáveis?VM - Luís Miguel Dominguin e Paquirri. Gosto do toureiro poderoso, do lidador que conjuga o domínio técnico total com uma personalidade de classe - um "tio", na verdadeira acepção do termo. Paquirri ajudou-me muito, foi meu mestre e tive mesmo a honra de sair em ombros, a seu lado, numa tarde em que toureámos juntos.MJS - O que é que liga Dominguin a Paquirri?VM - O poder, o garbo, "la majeza"!MJS - E o grande Antonio Ordoñez?VM - Foi uma "figura" rara, um Mestre muito especial. Não há o direito de se estabelecer qualquer tipo de comparação com os demais. Tudo nele se encaminhava para uma brilhantez artística ímpar: a maneira como andava, como olhava, como falava. Era diferente de todos. Era subtil, o que dificultava, por vezes, o acesso. Tinha que se lhe dar " comida à parte", como se diz na gíria taurina. Era senhor absoluto, único, daquele toureio "rondeño", assentado, pleno de sentimentos e de expressão, de muito, muito garbo. E o Mestre, para além desse dom extraordinário que nasceu com ele, também teve a necessidade de se dar o tempo necessário para poder lapidar o seu talento e adquirir maior conhecimento técnico para enfrentar a cara do toiro. Antonio Ordoñez estabeleceu uma fronteira, altíssima, na arte de tourear e é uma referência para toda a história do toureio. No conceito da "arte" é a referência máxima.MJS - Houve um longo caminho a percorrer até à sua "alternativa"?VM - Longo e duríssimo. Houve momentos em que pensei desistir. Julgava que era mais fácil. Fui, durante três anos, novilheiro em Espanha. A progressão é a seguinte - começa-se por novilhadas sem picadores. Com novilhos de cerca de dois anos e meio, que não se picam, só se matam. Depois passa-se a novilheiro com picadores, em praças de 2ª e 3ª categoria e, às vezes, de 1ª, em que o novilheiro é como se fosse um matador de toiros júnior. Se, a seguir, sentes em ti uma madurez e uma evolução, propõem-te tomar a alternativa de matador de toiros. Tomei a alternativa, longe da fronteira, longe dos meus "paisanos", na Monumental de Barcelona, a 13 de Setembro de 1981. Antes, em 1980-81, tive que fazer a tropa, em Cavalaria 1 - Santarém, porque a prorrogação dos prazos que me tinha sido concedida, para os estudos e outras cavalarias, terminara!MJS - Quem é que se lhe ofereceu para tomar a "alternativa"? VM - A empresa Balaña. Uma das grandes espanholas. São estes empresários que definem os destinos das maiores praças do mundo.MJS - Como é que foi a corrida?VM - Linda. O meu padrinho foi Palomo Linares e a testemunha, José Mari Manzanares. A ganaderia era também de grande prestígio, de Carlos Nuñez. Foi linda aquela tarde. Cortei três orelhas, saí em ombros. Aquilo também foi entendido, da minha parte, como uma continuação, já que o único matador de toiros português que, naquelas épocas, tinha feito campanha por França e Espanha, tinha sido morto por um toiro, precisamente na Monumental de Barcelona - o José Falcão. E durante um certo impasse de anos não voltou a passar por ali nenhum outro "matador" português. Faltava como que um elo.MJS - Qual é para si a Praça das Praças?VM - A evidente, a mais difícil, a mais gratificante, a mais importante, a mais dura, a que se entrega mais também, aquela que tira e que dá é, sem dúvida, a Monumental de Madrid, Las Ventas.MJS - Como é que definiria o espírito tauromáquico português?VM - É um espírito de festa, mas de pouca paixão. Com honrosas excepções. Há poucos aficcionados com alma de toureiro. Em Espanha é completamente diferente.MJS - Tinha alguma imagem especial da Virgem a acompanhá-lo sempre?VM - Não. Aí era muito diferente dos meus companheiros. Muitas vezes entrava na "capilla", mas só para estar tranquilo. Não necessitava de imagens e de velas. A imagem tinha-a na cabeça. Bastava.MJS - Porque é que decidiu parar a sua carreira de "figura de toureio"?VM - Sabe, Maria João, a época de 80 foi uma época de transição. Tive a sorte de a viver. De há 10-12 anos para cá, a entrada das televisões, com a negociação dos direitos de imagem, com a luta das audiências no mundo das corridas de toiros, transformou muito o comportamento empresarial do toureio. O toureiro passou a ter que ser um "showman". As qualidades que lhe referi que eram as que se procurava observar num toureiro para o definir - o comportamento, o equilíbrio, a técnica, a postura, o carácter, já pouco contam. E eu, depois de 17 anos como "figura de toureio", de um estilo diferente, resolvi assentar numa vida mais tranquila. Talvez a minha ambição tenha esmorecido. Ou talvez tenha achado que já tinha atingido o que queria atingir. Não sei. A família, os filhos, pesaram muito na minha decisão. Mas não me afastei dos toiros. Não parei. Ainda há muito para andar.MJS - Barrancos?VM - Barrancos merecia um estatuto especial, pela genuinidade da paixão daquele povo. Esquecido para ali e com muito mais afinidades com Espanha do que com Portugal. É, também e sobretudo, um problema de ordem cultural. A discussão e a decisão foram hipócritas e injustas. Há políticos portugueses, com responsabilidades, que em Espanha assistem a corridas com toiros de morte e que pedem depois à Comunicação Social que não refira a sua presença nesse contexto!!.MJS - Toureio feminino?VM - Ainda está para vir. Falta às mulheres peso e espessura para enfrentar o peso-pesado do toiro. Há tentativas muito interessantes. O caso recente da Cristina Sanchez, é uma delas. Só que, quando se aproxima o momento do alto nível, não vinga.MJS - Não reconhece às mulheres capacidade para a "arte" de tourear, para "templar"?VM - Não foi isso que eu disse. Claro que reconheço às mulheres essas qualidades. Mas a lide do "matador", da "figura de toureio", faz-se com animais tremendamente pesados e sérios e não vejo que as mulheres possam, morfologicamente, enfrentá-los. Ainda não vi. Se vier a acontecer - "chapeau"! Estarei lá para aplaudir.MJS - Qual é a sua palavra de eleição?VM - Ser.