O papel de Santos Costa no Estado Novo

O artigo "As Mudanças Invisíveis dos Anos 50", do historiador Fernando Rosas [publicado na separata 18 do coleccionável Século XX, distribuída no PÚBLICO de 2 de Janeiro do ano 2000], suscita-me algumas considerações para que a verdade dos factos seja respeitada e para que os actuais e futuros historiadores possam deles ficar conhecedores.Fernando Rosas refere num artigo, bem como no livro "Do Marcelismo ao Fim do Império" recentemente publicado, sob a direcção do historiador J. M. Brandão de Brito, à existência de duas facções políticas dentro do regime do Estado Novo: - uma considerada "reformista" chefiada por Marcelo Caetano;- outra denominada "ultramontana" com o seu líder, o então ministro da Defesa, coronel Santos Costa.Durante mais de 30 anos, privei, por razões familiares, com o general Santos Costa e nunca constatei existir no espírito deste antigo ministro de Salazar quaisquer propósitos ou planos de pretender chefiar um partido ou dirigir uma facção política ou qualquer corrente ultramontana. O gen. Santos Costa era marcado por um forte espírito de missão e por um ideal de grande patriotismo. Nunca passou na sua mente a apropriação ou ascensão a lugares mais altos do poder.Em toda a literatura publicada por Fernando Rosas, e já é bastante, sempre que se refere à actuação do gen. Santos Costa na vida político-militar, é dado grande relevo aos propósitos provenientes de vários sectores políticos, inclusive do então gen. Craveiro Lopes, de pretenderem afastar Santos Costa do poder. A razão de ser destas pressões é mais simples do que o narrado por este e outros historiadores: o objectivo único destes sectores foi sempre retirar a Salazar o apoio incondicional do sector militar, para mais facilmente lhe retirarem o poder. E o ministro Santos Costa tinha de facto nas suas mãos o poder militar. O próprio gen. Delgado ao desembarcar no aeroporto de Lisboa, numa das suas chegadas dos EUA, declarou aos que o aguardavam, ao saber da notícia do afastamento de Santos Costa: "Caiu a viga mestra do regime."Mas, reportando-me ainda ao citado livro, na página 36, Fernando Rosas refere-se à existência de uma "operacionalização do poderoso esquema militar-policial de prevenção geral preparado há vários meses e desencadeado a partir da reunião dos altos comandos com Santos Costa, a 19 de Maio de 1958. Pura fantasia! Uma gratuita deformação dos acontecimentos! Primeiro, a reunião não teve lugar em 19 de Maio, mas sim em 22 de Maio; segundo, nesta reunião, o ministro da Defesa esclareceu os comandos de que nunca desejou proclamar o regime monárquico, lamentando-se de esta acusação ter sido publicada na imprensa diária visada pela Censura. Lamentou ainda que dentro da própria situação se começavam a desenhar propósitos de fazer substituir Salazar e que, na mesma situação, surgiam intenções de luta pelo poder por indivíduos chegados à política muito depois do 28 de Maio, desconhecedores das dificuldades que se tinham enfrentado e dos sacrifícios que se tornou imperioso suportar. (Tenho em meu poder a acta desta reunião com o nº7.) Note-se que apesar de o ministro Santos Costa ter saído do Governo por imposição de Craveiro Lopes, conforme referiu o seu filho, coronel João Craveiro Lopes, na "Crónica do Século" da RTP1, seu pai continuou a conspirar, culminando a sua actuação política com o 13 de Abril de 1961, no pretenso golpe do gen. Botelho Moniz com a finalidade de afastar Salazar.No mesmo programa da RTP1, "Crónica do Século", um grupo de coronéis lembrando a "brigada do reumático" de 1974, o sr. coronel Viana de Lemos, que foi membro do Governo do Estado Novo até 24 de Abril de 1974, parece ter virado democrata com contornos de esquerdista revolucionário após esta data. As suas afirmações e insinuações sobre as gratificações que afirma terem sido concedidas a contínuos e motoristas, dizendo não saber bem se por ordem do ministro da Defesa se por ordem da PIDE, considera o signatário uma calúnia de baixo nível. O maior pecado do sr. coronel foi o da omissão: na realidade, não referiu que a "corte" de oficiais que no secretariado-geral da Defesa Nacional da privança do gen. Botelho Moniz, não se sabe por ordem de quem, exerciam acções de espionagem sobre o pessoal do gabinete do ministro Santos Costa. Na altura, pessoalmente, dei conta disso, até porque era então ajudante de campo do ministro, e posso garantir a veracidade dos factos! Também no programa da RTP1 "Crónica do Século", os intervenientes, com bastante fantasia, referiram que uma geração ou fornada de oficiais, depois de terem frequentado cursos na NATO, nos EUA, Alemanha, Bélgica e Holanda, de regresso às fileiras, eram portadores de ideias democráticas e conhecimentos militares mais modernos e que ultrapassavam em muito a escola francesa, etc, etc.Não me alongando no assunto por desnecessário, garanto que o exposto apenas se trata de pura especulação. O ministro Santos Costa foi o grande impulsionador da presença de oficiais das nossas Forças Armadas nos cursos referidos e das ideias e actualizações das novas organizações militares da NATO estava inteiramente a par. O marechal Costa Gomes, então ten. coronel em serviço no Secretariado Geral da Defesa Nacional era dos oficiais que mais directamente informavam o ministro das novas organizações das divisões Pentómicas, bem como outras matérias relacionadas, por exemplo, com o M36. Tenho em meu poder os respectivos documentos comprovantes do que acabo de referir. Foi ainda com o ministro Santos Costa que se construíram todas as infra-estruturas da NATO existentes até agora no país, onde modestamente fui colaborador, nomeadamente nas bases aeronavais de Espinho e Montijo. *tenente-coronel da Força Aérea na reforma