O homem que viveu entre a noite e a vida

A madrugada de sábado levou-o. O coração de Orlando de Carvalho parou aos 73 anos e pôs fim à vida de um homem que "ainda vai fazer muita falta à sociedade portuguesa", nas palavras de Óscar Lopes. Jurista, poeta, homem de compromisso cívico e político, deixa um rasto marcado pelo peso das lágrimas. Milhares o temeram enquanto professor, milhares reconheceram nele um homem que conhece cada letra da palavra amizade. Daquela, autêntica, não se faz só de amens...

A noite e a vida. O poeta morreu de noite mas soube-se de manhã que o professor nos deixava na vida. O poeta despediu-se certamente na madrugada de sábado, esse inconfundível terreno da existência em Orlando de Carvalho que ontem morreu em Coimbra. O coração finou-se no espaço e na penumbra desse tempo da escrita e da solidão. O tempo da respiração que o poeta dividia com o homem da ciência jurídica, da biografia nascida no espartilho de um tempo em que a paixão do ensino o obrigava a resistir à escuridão dos tempos dentro de portas de um Portugal soturno, bisonho, autoritário. Talvez daí venha o hábito de viver pela noite dentro, de ocupar a alma na hora do lobo à solta cá fora até que o cravo vermelho o parou. De encarar os alunos já a salvo de um mau humor mortal, deixando-os "apenas" a braços com uma personalidade exigente.O espírito que viveu entre a noite e a vida acenou lá de longe ao seu país de falésias e dunas. Foi-se embora com os seus poetas, aqueles outros que nunca tiveram medo do discurso, de Rilke e Maiakowski a Neruda, de Saint-John Perse a Victor Hugo a Élouard, de Raul Junqueiro a Gomes Leal. Afinal, todas as criaturas que povoam "Sobre a Noite e a Vida", Centelha,1985, a herança de 25 anos de poesia, um caleidoscópio situado entre 1959 e 1984 dedicado "a uma mulher, a uma raiz, a um país - tão reais e presentes que seria inútil nomeá-los".De Coimbra partiu Orlando para a viagem final, essa que o leva do convívio de todos os que, comparados com Camões, vivem mas já estão mortos. Esse homem da arte insubmissa, livre pensador, marxista e católico, indomável resistente e teimoso, exigente e amigo, deixa atrás de si o peso de muitas lágrimas. Todos os que, reconhecendo em Orlando de Carvalho, uma personalidade tremenda, ruidosa, déspota na exigência, - um autêntico "monstro" que aterrorizou milhares de estudantes de Direito que embicavam nos Direitos Reais para chegar ao suadíssimo canudo - , sabem que conviveram, ainda que em muitos sem consciência disso, com um homem ímpar. Não deixarão, por isso, de o chorar na metáfora de lágrimas que a saudade é. De chorar um "monstro", mas sagrado, que despertou gerações inteiras para o compromisso cívico e político, alertou-os para a ambivalência do poder, para a gestão delinquente do Estado. Ninguém foi tão generoso como ele na compreensão das lutas estudantis, mas também ninguém foi tão exigente no plano pedagógico.Há muito que Orlando não era um homem deste tempo. Na memória de um último encontro, uma derradeira angústia: "Qualquer dia já só existem - no sentido literal em que cada um de nós é uma representação de um ente físico, de uma consciência e um produto de assimilação cultural - os que são mediáticos." Orlando detestava estes tempos de democracia virtual, de consensos, de opiniões definitivas e tonitruantes debitadas de um pequeno écran com um ar coloquial e "clean". Detestava as rodas de amigos influentes que ditavam as "modas", que promovem e despromovem talentos. Abominava os intelectuais que vivem de dar a chancela aos poderes, dos jogos florais e dos ditos de espírito para animar a mesa do Princípe que a todos junta. Nunca teve medo das suas opiniões. Veja-se o seu olhar sobre os intelectuais e a política. "O intelectual porque só tem poder temporal, tenta tê-lo - foi sempre assim. Para isso usa a lábia ( a retórica) e a hipocrisia". Ou de política falando: "Nenhum político me marcou. A barganha não cabe na minha 'sagesse'. Dos políticos penso o mesmo que penso dos monarcas. Sempre fui partdário dos reis mortos". Ao mesmo tempo, como apreciava a amizade construída no cimento da divergência, da radicalidade de opiniões opostas, mas sempre esculpidas pelo cinzel do respeito e apreço pela dimensão humana e intelectual do outro. Para a história da Universidade de Coimbra e dos homens fica a relação de Orlando com Afonso Queiró, amigo de Salazar e um dos mais destacados apoiantes do Estado Novo na Universidade de Coimbra. Quando era tão só um jovem assistente de Ciências Políticas, Orlando defendeu as eleições livres e fez campanha por Norton de Matos. Viu de imediato o seu contrato suspenso na Faculdade de Direito mas Afonso Queiró escreveu a António Oliveira Salazar, presidente do Conselho, e conseguiu a sua recontratação ainda que mudando de ramo de ensino. Passou para as Ciências Jurídicas. Em 1961 foi preso pela PIDE mas Afonso Queiró e muitos outros professores conservadores estiveram do seu lado. Disse Orlando que a PIDE não se submeteu às pressões destas figuras proeminentes do Estado Novo e o soltou por falta de provas. Menos de um ano depois volta a ser preso em Caxias e é submetido a interrogatórios e torturas. "O professor Queiró interessou-se muito por mim ( como mais tarde pelo Joaquim Namorado e pelo Alberto Vlaça) e foi dos vários professores com influência no poder que sempre lutou pela minha contratação."Foi libertado mas viveu sempre com a PIDE na sua sombra. E sempre com Afonso Queiró a defende-lo bem como a outros professores de esquerda. Orlando de Carvalho e Afonso Queiró eram dois homens que se apreciavam intelectualmente. "Ele era um homem do regime mas nunca se aproveitou disso em benefício próprio. Foi membro da Câmara Corporativa mas nunca foi ministro. E defendeu sempre a contratação livre por mérito intelectual. Tinha amigos na oposição que nunca abandonou e que nunca lhe negaram a sua estima quando teve dificuldades no período do PREC", disse Orlando numa entrevista ao EXPRESSO em Novembro de 1997. Orlando era assim na amizade. Implacável na exigência intelectual, generoso e afectuoso na dádiva.Mas o professor foi também - quiçá sobretudo - o poeta que deve dar a ver de certa e irredutível maneira. O poeta que fixou para a vida a memória do compromisso lido nas palavras de Élouard: ou seja, um escriba despido da toga de puro mediador. Comprometido com as palavras que moldam a arma transformadora do verbo, do sentimento, da cultura na construção do poeta que deve ajudar os homens a serem homens.Talvez por isso o jurista tenha andado estes últimos dos anos a despedir-se de todos nas palavras fortes da uma amargura de quem vive um tempo que não ama - ou não entende! - enquanto o poeta já em 1984 nos deixara o seu próprio epitáfio no "Fim", que encerra "Sobre a Noite e a Vida", último grito poético:"'O nosso amor não mora nestes rios' disseste, mas das últimas amarras tinham partido todos os navios".