Galáxias brownianas

O actor Miguel Hurst sonhava com o projecto há uma década. O angolano António Tomás ganhou este ano uma bolsa para escrever uma biografia sobre uma das figuras míticas dos movimentos da independência africana. Assim nasceu a peça-de-teatro-documento "Cabral". Inevitavelmente, o eixo central em torno do qual gira o espectáculo continua a ser o mesmo desde o fatídico 20 de Janeiro de 1973: afinal, quem matou Amílcar?

Na base de "Set and Reset" (1983) está um rectângulo, no interior do qual sequências de duos e trios rasgam e interceptam rectas. Um enorme círculo luminoso abre-se na profundidade do palco, deixando ver um anjo volteador: prólogo aéreo de "Canto/Pianto" (1998), uma obra de traçados horizontais. Na jubilosa coreografia "Five Part Weather Invention" (1999), as geometrias expandem-se a partir de ondas serpenteantes. Estes são movimentos das belas galáxias brownianas que os excelentes bailarinos da Trisha Brown Dance Company trouxeram, 3ª e 4ª feira ao Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e que podem ser vistos amanhã e domingo no Rivoli do Porto, às 21h30.Em "Set and Reset" Trisha Brown trabalhou a partir da fragmentação e sobreposição de materiais coreográficos simples, organizados e reoarganizados espacialmente, sobre a música de Laurie Anderson. Os movimentos, leves, fluem ininterruptamente, explodindo, aqui e ali, em saltos ou projecções de um corpo contra o outro. A dança é feita de quadros abstractos, como os figurinos, feitos de um tecido branco vaporoso e pintados de cinzento e preto com motivos geométricos irregulares (concepção de Robert Rauschenberg). A dança amplia-se em figuras volumétricas (tal como o cenário, do mesmo artista, constituído por duas estruturas piramidais e um paralelepípedo), recortadas pelo encontro de corpos: toques, elevações, suspensões, abraços de subtil sensualidade.Muito embora reencontremos em "Canto/Pianto" a dimensão abstracta da dança de Trisha Brown, esta adquire contornos descritivos que se prendem com a especificidade temática de "Orfeo", de Monteverdi, ópera que Trisha Brown encenou em 1998 (direcção musical de René Jacobs), e da qual nos apresenta agora uma versão exclusivamente dançada. Os exemplos mais claros desta dimensão descritiva são a representação da figura e movimento de A Cobra, no Prólogo, e o movimento em queda controlada, na cena "A Viagem aos Infernos". Conhecendo a versão operática, sublime, falta a esta versão exclusivamente coreográfica a fluidez encantatória da fusão que, em "Orfeo", Trisha Brown consegue entre bailarinos e cantores; entre dança, música e canto ao vivo. Algumas das secções dançadas em "Canto/Pianto", como os maravilhosos movimentos oscilantes e de júbilo dos Pastores e Ninfas, são idênticos aos de "Orfeo". Mas as personagens protagonistas do drama (Orfeu, Eurídice, Mensageira) são interpretadas não por cantores, mas por bailarinos, pelo que o que em "Canto/Pianto" se ganha em amplitude gestual, perde-se em volume poético. A horizontalidade dos movimentos em coro de "Canto/Pianto" expande-se e forma uma nova galáxia em "Five Part Weather Invention". Um galáxia complexa, densa (como a tela riscada a negro concebida por Terry Winters), fruto de uma mente genial, e que, no entanto, nos é oferecida com uma aparência de simplicidade e naturalidade. O movimento de "Five Part Weather Invention" é de permanente regozijo: entre os intérpretes, como no quarteto em que dois bailarinos circundam e provocam os outros, ou no jogo em que um grupo copia os movimentos improvisados de um líder; entre os bailarinos e a música (de Dave Douglas), como acontece quando os intérpretes contrariam a continuidade das linhas serpenteantes, realizando movimentos curtos e golpeantes, como se fintassem a trajectória esperada, ou como acontece no subsequente dueto trauteante; finalmente, regozijo expresso nos pequenos saltos, como quem, a correr, procura evitar as adversidades do terreno, nos braços que se projectam para o alto como quem procura interceptar o voo de uma bola, ou nos tropeções e quedas, quando os bailarinos, desafiando-se a si próprios, se deslocam de costas.