Peanuts órfãos de Schulz

Foi durante o sono que a morte levou Charles Schulz, o criador da banda desenhada Peanuts, na noite de sábado para domingo. No ano em que a série completava 50 anos de idade e o seu criador já anunciara a retirada por motivos de doença, Snoopy, Charlie Brown e os restantes personagens ficam órfãos. Como o autor não quis que mais ninguém continuasse a desenhar a sua criação, chega ao fim a série que assinalou o renascimento da BD intelectual e para adultos.

Charles Schulz, criador da série de banda desenhada Peanuts, faleceu na noite de sábado na sua casa em Santa Rosa, na Califórnia. Segundo o filho Craig, tinha passado bem a semana e nada fazia prever este desfecho, que ocorreu na véspera da publicação da última prancha dominical desenhada pelo autor. Um cancro no cólon, diagnosticado em Novembro do ano passado, levara o criador de Snoopy a decidir pôr termo à sua carreira. Deixou de desenhar as tiras diárias em Janeiro deste ano, mas, segundo o testemunho de um amigo próximo, Ed Anderson, Schulz sentira de forma particularmente dolorosa a chegada ao fim das pranchas dominicais que, para todos os efeitos, assinalaram o termo de uma carreira longa de quase 50 anos.Quase, porque foi no dia 2 de Outubro de 1950 que a primeira tira dos Peanuts surgiu publicada em oito jornais americanos. Ao longo de décadas, a popularidade desta criação, à qual o artista se consagrou de corpo e alma e sempre num labor solitário, foi crescendo até atingir uma difusão mundial que pode ser avaliada através dos mais de 2600 jornais em 75 países onde é quotidianamente lida por 355 milhões de pessoas.A banda desenhada foi o ponto de partida para a criação de um fabuloso negócio que colocou o artista entre as maiores fortunas da América, movimentando um volume de negócios anual superior a mil milhões de dólares. O investimento no cinema de animação deu lugar, por seu lado, a mais de 50 filmes que ajudaram a vender mais de 300 milhões de exemplares de cerca de 1400 livros de recolhas das tiras e pranchas. Tudo isto, já sem falar no "merchandising" criado à volta dos personagens da série e presente em material escolar, vestuário e outros produtos ostentando as figuras de Snoopy, Chuck (Charlie Brown), Woodstock e outros.Peanuts, Peanuts: Schulz nunca gostou do nome, imposto pelo editor e distribuidor americano. "É o pior título com que alguma vez foi enfeitada uma 'comic strip'. É ridículo, não significa nada e não tem dignidade, coisa que o meu humor tem", confessou um dia numa entrevista a Rick Marshall e Gary Groth ("Comics Journal"). O sucesso da série virá demonstrar que não foi pelo rótulo que os leitores apreciaram uma obra que, segundo alguns, assinalou o renascimento da "strip" intelectual e para adultos.A arte gráfica de Schulz é muito pessoal e os seus personagens são imediatamente reconhecíveis através de traços fisionómicos e um esquema corporal inconfundíveis. Apesar de uma extrema economia de meios e do carácter repetitivo dos seus desenhos, Schulz revela uma prodigiosa capacidade de invenção gráfica - é o caso da "linguagem" de Woodstock ou a presença das partituras musicais nas sequências com Schroeder. Por outro lado, o humor nos Peanuts remete basicamente para o cómico das situações e para os "gags" verbais e visuais - como os que envolvem a sujidade de Pig-Pen.Antes dos Peanuts, apenas Pogo, de Walt Kelly, poderia reivindicar para si esse estatuto e dimensão, numa época em que não era ainda corrente a BD pensar e reflectir sobre os problemas contemporâneos. Nesse sentido, a criação de Schulz abriu uma senda por onde penetraram, já no final da década de 50, os trabalhos de Feiffer (1956) e séries como Andy Capp, Miss Peach (ambos em 1957) e BC (1958).Apesar disso, as campanhas publicitárias sempre quiseram colar o rótulo de "tira" infantil à série. Schulz não podia contratualmente opor-se, mas nunca concordou com isso: "Não desenho para crianças. De facto, desenho para mim mesmo, como todos nós fazemos, segundo creio. Se a minha 'strip' é 'intelectual', não é porque eu tenha feito alguma coisa por isso. Sinto-me lisonjeado, mas tudo o que eu procuro é desenhar algo de subtil, e fazê-lo o melhor que posso."Esse desejo de perfeição revela-se através da clara evolução que a série conhece ao longo dos anos. Snoopy, e para citar apenas um exemplo, começa por ser um simples cão que ladra e corre atrás das crianças, mas um dia põe-se a pensar - "foi seguramente uma das minhas melhores decisões", reconheceu -, ganha espessura e confere aos Peanuts uma dimensão que a obra não tinha inicialmente. Mas nem sempre esse processo é inteiramente consciente, como admitiu o próprio artista: "Nunca tenho a menor ideia do que vai acontecer. Descobri que não era possível redigir um argumento com a ajuda de uma máquina de escrever sem correr o risco de estabelecer um corte com as ideias que o próprio desenho faz surgir. Estas surgem dia a dia."E como é necessário saber aproveitar as ideias que vão brotando, Charles Schulz nunca fez férias em toda a sua vida de desenhador. Confrontado com a possibilidade de um ano sabático para descansar, reconheceu que essa era uma ideia a que sempre resistiu: "Durante muito tempo isso nem sequer me ocorreu. Mas desde há algum tempo que vejo os meus amigos reformarem-se. E eu próprio começo a interrogar-me se não terei desperdiçado a minha vida..." Esta inquietação, manifestada em 1988 numa entrevista, levou-o a admitir que, de uma certa forma, o êxito dos Peanuts se tinha transformado numa servidão de que nunca conseguiu libertar-se. Por isso, não surpreende que o artista tenha transformado o seu trabalho num espaço de prazer e satisfação pessoal. "Sempre quis ser desenhador e sinto que fui bafejado pela fortuna por ter sido capaz de fazer o que desejei durante 50 anos", declarou em Dezembro do ano passado, quando anunciou a sua retirada profissional.Em 1980, com 58 anos, Schulz teve um sério acidente cardíaco que lhe afectou a capacidade de desenhar. Foi confrontado pela primeira vez com as limitações da biologia e a finitude da sua condição terrena. "Não sei durante quanto tempo é que as minhas artérias me deixarão em paz. No dia em que isso não for possível, será que eu desejo que a morte me surpreenda sentado a desenhar a minha última 'tira'?"No sábado passado, veio a resposta. O repouso definitivo do guerreiro decorre, a partir de agora, numa outra dimensão, onde os seus personagens, muito provavelmente, o receberão em festa e com as honras devidas a quem soube olhar o mundo com os olhos da magia, do humor e da fantasia.

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