Angola: a extrema-esquerda há 25 anos

Passados 25 anos sobre a tomada de posse do Governo de Transição de Angola (GT) continua a ser esquecido o fenómeno da extrema-esquerda angolana da altura, organizada nos Comités Amílcar Cabral (CAC) como tendência do MPLA, em cujo comité central estavam representados. Os CAC, provenientes do movimento estudantil da Universidade de Luanda, tinham um activismo surpreendente, e apoiavam criticamente Agostinho Neto contra as tendências "Revolta Activa". "Revolta do Leste", FNLA, UNITA, FUA. O seu primeiro grande comício fora de Luanda realizou-se no Huambo, em Agosto de 1974, onde lançámos a consigna "não há independência completa sem democracia popular". Na altura, recordo-me, as populações dos quimbos do planalto central não conheciam Jonas Savimbi mas sim Daniel Chipenda. Quem falava muito de Savimbi eram os colonos portugueses e em especial os madeireiros do Leste. Cerca de um mês depois, estávamos entre os soldados angolanos que, exigindo a desmobilização do exército português, arriaram e rasgaram em pedaços a bandeira portuguesa no quartel do Huambo, ante a passividade do comando português. Após a tomada de posse do GT, lançámos a palavra de ordem "poder popular contra o governo burguês", um pouco à maneira do livro "13 Teses" de Lenine, que editei em Luanda nessa altura. Era uma guerra ideológica sem quartel que culminou com a 1ª Assembleia Popular de Luanda, na qual participaram cerca de 50 mil pessoas com os seus instrumentos de trabalho. Éramos contra a FNLA e a UNITA e pressionávamos os ministros do MPLA a assumir posições defensoras dos trabalhadores. A FNLA de Holden Roberto ameaçou atacar a concentração, no estádio de S. Paulo, pelo que tivemos de pedir protecção militar ao MPLA. Cerca de três meses depois pretendíamos lançar um demolidor 1º de Maio contra as "forças reaccionárias no Governo" e contra os "lacaios do imperialismo". A manhã acordou fresca e com os soldados zairenses da FNLA a cercarem o local e a atirar rajadas de metralhadora contra as pessoas que tentavam manifestar-se. Não desistimos e, passados 20 dias, no mesmo local, concentrámos cerca de cem mil pessoas que aprovaram um caderno reivindicativo em 18 pontos, que foi apresentado ao GT, já completamente dividido e inoperante. Os massacres contra as "massas trabalhadoras pelas forças reaccionárias internas", a "destituição imediata do alto-comissário português general Silva Cardoso", acusado por nós de favorecer a FNLA, a "expulsão de Angola dos ex-pides", que estavam a integrar-se na FNLA e na UNITA, "a repressão contra os estudantes pelo ministro da UNITA", a "sabotagem à economia nacional com a fuga dos técnicos portugueses", a "inflação", a "ingerência do Governo nas questões capital-trabalho, os despedimentos arbitrários, o horário de 40 horas semanais" eram alguns dos pontos do caderno, que juntava preocupações independentistas, políticas a reivindicações laborais. Fazendo eco do nosso radicalismo, o comício gritou, em uníssono, por uma "larga frente anti-imperialista", por um "partido do proletariado", por um "exército popular dirigido pelo partido" e por uma "guerra popular prolongada" contra "os lacaios angolanos do imperialismo". A nossa posição era desfavorável à permanência dos portugueses em Angola porque essa comunidade, assustada pelo comunismo do MPLA e pelo nosso "poder popular", aderiu em peso à FNLA e à UNITA. Desencadeámos inúmeras greves nas fábricas contra os "patrões reaccionários" e contra a "sabotagem económica" e conseguimos paralisar o ensino com uma greve geral contra o ministro da UNITA Jerónimo Wanga que era apoiado por muitos professores portugueses. Os CAC dominavam as estruturas de ideologia, política e propaganda do MPLA em todo o país, bem como os Centros Operacionais militares de muitas regiões e a própria politização das forças armadas do MPLA. Chegou a haver uma fase em que, na verdade, "nós éramos o MPLA" e no nosso seio agudizava-se a discussão a favor e contra o "entrismo". Agostinho Neto apoiou-se nessa força da extrema-esquerda para vencer a FNLA e a UNITA em meados de 75. Mas durou pouco esse idílio. Senhor da situação, Neto foi buscar Nito Alves (que estava ligado às posições do PCP e dos soviéticos) para destruir o poderio dos CAC. Infiltrado na polícia política (onde os CAC nunca entraram), Nito desencadeou uma perseguição impiedosa contra todas as posições dos CAC em todo o país. Perseguido noite e dia, eu próprio tive de abandonar chefia da redacção do jornal "Vitória Certa", órgão oficial do MPLA - recusando-me a publicar um texto de Nito Alves, agora conselheiro de Neto - a coordenação da minha comissão de bairro, e vi seladas as instalações dos jornais "Angola" e "Poder Popular", de que era director. Em Setembro de 75, já com os portugueses em fuga precipitada, os CAC dissolvem-se, dando origem à clandestina Organização Revolucionária de Angola (ORA), mais tarde Organização Comunista de Angola (OCA), que se manifestou contra a "agressão sul-africana e soviético-cubana" a Angola. No dia 11 de Novembro de 1975, Luanda cercada a norte e a sul, já era uma cidade africanizada, sem portugueses. A extrema-esquerda estava na clandestinidade e lança panfletos contra o regime ditatorial de Neto e contra as invasões estrangeiras, o que enfurece o MPLA, que não sabe lidar com essa tendência política não-armada. A nova polícia política (DISA) modelada nas suas congéneres cubana e soviética, procura desesperadamente o centro dessa contestação. Em 1976 o MPLA abateu a primeira vaga de repressão contra a OCA, prendendo cinco dos seus líderes, enquanto outros cem quadros continuavam a fazer trabalho clandestino, editando o jornal "Revolução Popular". Antes, quinze dias a seguir à independência, o bureau político do MPLA dá ordens à polícia política para me prender. "Vamos prender os marxistas-leninistas!", atirou-me, à porta de minha casa, o agente que me deteve, às 2 horas da manhã. O golpe de Estado de Nito Alves, de Maio de 1977 escreveu nas paredes de Luanda "Abaixo os maoístas e seus aliados sociais-democratas". Isto é: enquanto Neto lançou Nito contra a extrema-esquerda, Lúcio Lara (alegadamente social-democrata) fazia aliança com a OCA contra a influência de Moscovo. Em 1978 a segunda vaga de repressão contra a OCA atirou para a cadeia de S. Paulo cerca de cem jovens quadros da extrema-esquerda, negros, mestiços e brancos. A acção da extrema-esquerda angolana em 1975 e o seu fantástico activismo contra "os reaccionários portugueses", contra a FNLA, UNITA, e contra as agressões sul-africana, zairense e sovieto-cubana tem sido esquecida. A grande ironia da política angolana dessa altura: Neto apoia-se em Nito para destruir a extrema-esquerda do MPLA e, em menos de dois anos, Nito faz um golpe de Estado contra Neto. *jornalista angolano