Londres a preto e branco

Por entre colaborações várias, na zona Oeste de Londres, um número indeterminado de colectivos (Restless Soul, Bugs In The Attic), de produtores (Neon Phusion, Phil Asher, I-G Culture, Modaji) e de editoras (People / Main Squeeze, Laws Of Motion, Archive) é responsável por alguma da mais vibrante música do momento.

Enquanto o "centro" da indústria mais virado para as sonoridades dançantes, em Inglaterra, legitima e apoia música de qualidade duvidosa (basta recordar a implantação do euro-trance o ano passado), nas "margens" as manifestações que vale a pena seguir sucedem-se a bom ritmo. É um fenómeno de contornos ainda difusos mas na zona Oeste de Londres uma série de projectos e de produtores (Neon Phusion, G Force & Seiji, Mustang, I-G Culture, Phil Asher, Modaji, Bugs In The Attic, Uschi's Groove, Numberz, Taxi Driver, Tom Noble, Nubian Mindz), de colectivos (Restless Soul, Likwid Biskit, New Sector Movements) e de editoras (Laws Of Emotion, People / Main Squeeze, Archive, 2000 Black) parece procurar avaliar a capacidade de sobrevivência da tradição da música negra no presente através de novas sonoridades. Uma sólida relação com as raízes do jazz, soul, funk, reggae, blues e música afro-latina é o fundamento de todas estas movimentações, mas é a vocação experimentalista e as inúmeras e diferentes combinações que nascem a partir daqui que fazem acreditar na redescoberta de um fascínio velho num tempo novo. Já há quem lhe chame "a versão londrina do nu-yorican soul" ou 'broken beat', mas uma coisa parece certa: por entre inúmeras colaborações e contaminações esta geração está a conseguir colocar outra vez no mapa a música negra 'underground' inglesa. Até agora estas actividades têm-se circunscrito à zona Oeste de Londres, mas alguns outros protagonistas merecem menção pela ligação privilegiada com alguns dos principais personagens desta história. Estão nesse caso editoras como as inglesas Sirkus (da qual acaba de ser lançado o álbum "City Watching" dos Two Banks Of Four - ver crítica de discos), Estereo e Rainy City, as francesas Yellow e Fantomas, a alemã Compost ou a americana Ovum de King Britt. Os Neon Phusion são constituídos por Kaidi Taham, Alex Phountzi e Orin Walters e lançaram recentemente o álbum "The Future Ain't The Same As It Used 2 Be". Nesse disco o trio apresenta uma música intuitiva e vibrante com vozes soul em sobressalto por entre polirritmias, movimentos jazzísticos e linhas de baixo funk., segundo um espírito de "jam-session" nervoso e feito de convulsões permanentes. Kaidi Taham, que também faz parte dos Herbalizer, conta como o trio se formou: "estava a trabalhar no estúdio dos Herbalizer quando conheci o Orin, que estava por sua vez a trabalhar no estúdio ao lado. Mal nos conhecemos verificámos que tínhamos ideias comuns e começámos a trabalhar os dois quase de imediato. Mais tarde o Alex entrou também para o projecto e começámos a pensar no álbum. Queríamos experimentar algo de novo, numa linha jazz futurista, e foi isso que se passou".O álbum de estreia dos Neon Phusion reflecte várias influências e Kaidi Taham não as refuta: "não temos preconceitos quando se trata de misturar música: funk, música africana, jazz, blues, reggae, rock, etc, tudo nos serve. Ouvimos muita música diferente, Tito Puente, Stevie Wonder, Curtis Mayfield, hip-hop, etc, e os nossos discos acabam por reflectir de forma natural toda essa amálgama de sons que nos passa pelos ouvidos". O que é surpreendente no álbum de estreia dos Neon Phusion não é tanto aquilo que se mistura, mas a forma como os diversos fragmentos se enleiam em diferentes combinações, suportados por técnicas de produção onde convivem electrónica e músicos. "Não temos medo de experimentar e de nos expressar de uma forma emocional" diz Kaidi Taham. "Quando começamos uma canção nunca sabemos como é que ela vai acabar... confiamos na intuição e sabemos exactamente quando encontrámos algo de valioso, seja uma linha de baixo, uma percussão, um som de teclado ou uma voz. Cada um de nós vai trazendo novos elementos para cada tema até chegarmos a um resultado final e isso tanto pode ser feito através de 'samples' como de instrumentos convencionais".O tipo de aproximação sonora realizado pelos Neon Phusion e as técnicas de produção são reveladoras da procura de uma sonoridade intuitiva, rude e suja. "O nosso estúdio não tem de nenhuma forma as características e as condições de uma grande estúdio, logo o som que desenvolvemos não é límpido. Pelo contrário, as condições em que trabalhamos ajudam-nos a retirar dos instrumentos um som rude e sujo porque é isso que queremos".O próximo passo dos Neon Phusion são os espectáculos ao vivo: "temos projectos para apresentar o álbum ao vivo com uma banda completa. Eu vou ser o coordenador dessa banda e estou neste momento a colocar tudo em ordem para que proximamente possamos apresentar-nos nesse formato. Os primeiros espectáculos envolverão poucas pessoas mas numa fase posterior estamos a pensar colocar oito ou nove pessoas em palco. Vai ser uma coisa em grande".Em relação às movimentações do Oeste londrino e às inúmeras colaborações que se vão desencadeando entre os mais diversos projectos, Kaidi Taham revela-se entusiasmado: "o que se está a passar é muito excitante! É o princípio de qualquer coisa de muito importante! É o futuro! Todas as pessoas - o I-G, Modaji, Phil Asher, etc - sentem que chegou a sua hora. É um grande círculo de pessoas que está a fazer coisas muito sérias e a colaborar entre si de uma forma muito criativa. Neste momento, por exemplo, necessitamos de espaço no nosso estúdio porque toda a gente quer desenvolver ideias uns com os outros. É uma loucura!".Para além de ser um terço dos Neon Phusion, o cantor, percussionista, flautista, teclista e baterista Kaidi Tatham é a figura central do colectivo Likwid Biskit de I-G Culture. Isto para além de colaborar assiduamente com outros projectos do Oeste londrino como Daz I Kue, Everyday People e Misa Negra e de fazer também parte do colectivo Bugz In The Attic, do qual também fazem parte os dois outros Neon Phusion. "é um nunca mais acabar de projectos" refere Kaidi Taham por entre risos. "para além desses projectos, colaboro regularmente com o Phil Asher, com Modaji e com G Force & Seiji. Gosto muito dos Likwid Biskit porque o I-G é completamente louco e está sempre a escrever música. As coisas estão a crescer o que é muito bom. Algumas pessoas como o Phil Asher, o I-G e o Orin Walters já andam nesta vida há muitos anos e merecem inteiramente o reconhecimento do seu trabalho".O ano passado Kaidi Tatham lançou o excelente máxi-single "Armz Arg Deh' na editora Laws Of Emotion e o próximo passo é a edição de um álbum: "já estou a trabalhar nele" diz o jovem multi-instrumentista. "Vai ter uma série de convidados, entre músicos e cantores, e vai ser constituído essencialmente por canções". Entretanto, Orin Walters também se encontra a gravar um novo álbum com um dos seus outros projectos - os Afronaughts - enquanto se dedica paralelamente aos Blacktonez e desenvolve diversas colaborações a partir do colectivo Bugs In The Attic com I-G Culture, G Force & Seiji da editora Reinforced e com a cantora Melanie Brown. Confusos?Desde que emergiu da sombra do seu mentor, Noel Watson, o disc-jockey e produtor inglês Phil Asher transformou-se numa das figuras centrais da música negra e da música house alternativa inglesas. Depois da selecção de temas para as compilações "Jazz In The House" e da participação em projectos como Black 'N' Spanish (com Orin Walters) ou Bah Samba, Phil Asher é agora uma das figuras centrais de editoras como a People / Main Squeeze e a Laws Of Motion, para além de ser o principal suspeito do colectivo Restless Soul.A sua visão lúcida sobre o que se passa nos dias de hoje em Inglaterra é o reflexo de mais de dez anos de andanças: "a cena da música em Inglaterra é como uma camaleão, está em constante mudança, seja qual for o género de música. Quando se trabalha para o mercado 'mainstream' é fácil delimitar um território e fazer música para ele, mas quando se tenta criar e investigar algo de novo é mais complicado. De qualquer forma, mesmo quando o público não compreende totalmente aquilo que andamos a fazer, é possível manter uma certa frescura e viver daquilo em que se acredita. Faço parte da editora People, trabalho com o Modaji e com o Orin Walters dos Neon Phusion e reparo que a música nunca esteve tão boa. Trabalhamos com muita instrumentação e músicos de sessão e adoro isso. Nunca existiu tanta música inglesa do meu agrado como agora: I-G, Modaji, Neon Phusion, Mustang, Da Lata, etc, todas essas pessoas estão a descobrir novos caminhos e isso é muito excitante".Na música de toda esta geração existe um sentimento profundo de ligação com as raízes da música negra e com Phil Asher não é diferente: "olhamos para o passado com respeito mas apenas no sentido em que gostamos de o recriar. Toda a música é referencial, apenas os génios conseguem fazer música completamente original. Interessa-nos entender a essência de alguma música do passado mas apenas porque a queremos mudar. A maior parte da música que está a ser feita aqui no Oeste é tocada porque a utilização de 'samples' tornou-se abusiva. Não é que isso seja fundamental, porque a maior parte das vezes as pessoas não distinguem se estão a ouvir 'samples' ou instrumentos, mas é isso que está a suceder".Como todos os restantes cúmplices, Phil Asher é um homem de muitas identidades: "Os Restless Soul são um colectivo formado por mim, por Luke McCarthy, Modaji e Taxi Driver. Somos um autêntico 'gang' que, de vez em quando, se reúne e discute ideias. É como uma família. Para além dos Restless Soul, neste momento mantenho o projecto Phoojun. Quando faço remisturas para uma grande editora a qualidade de som tem que ser muito boa mesmo que o conteúdo não seja grande coisa...[risos]. Quando gravo para a People, a Archive ou a Laws Of Motion interessa-me mais o contexto que está para lá do som; a vibração e o sentimento que a música consegue transmitir. Existe um grande espaço de manobra quando se está a fazer música para alguém que acredita no teu trabalho". Hoje à noite Phil Asher vai estar no Frágil, em Lisboa, e amanhã, no Rocks, em Vila Nova de Gaia, para duas sessões como DJ onde é esperada uma atmosfera de diversão: "gosto de criar um bom ambiente mas depende também muito das pessoas. Gosto de passar alguns temas esquisitos que exigem algum conhecimento de história da música mas também não me esqueço da diversão. Existe tanta música boa a sair neste momento que o difícil é escolher. Já estive em Portugal algumas vezes e diverti-me sempre. Desta vez não vai ser diferente".A deslocação de Phil Asher a Portugal acontece no momento em que acaba de ser lançada a compilação "Now Here's The Future" e antecede a edição de "Laws Of Emotion Compilation Vol. I" com faixas de Modaji, Neon Phusion, Alex Attias, The Truth, Tom Noble e Kaidi Tatham, entre outros. "A primeira é uma compilação que fiz para a Slip N' Slide, com faixas de Tony Allen, Soul Ascendants e S.K. Radicals, enquanto a segunda pretende ilustrar um pouco da sonoridade da Laws Of Emotion. Mais tarde será lançada uma compilação também da People e da subsidiária Main Squeeze. Todas estas editoras acabam por constituir um refúgio para cantores, músicos e produtores que querem desenvolver ideias em grupo. São a versão moderna da Salsoul ou da Motown", afirma Phil Asher em final de conversa.I-G Culture é outro dos personagens mais importantes desta história. Por entre traços de hip-hop, funk, soul, jazz ou reggae as visões originais deste músico / produtor têm conhecido expressão nos colectivos Likwid Biskit e New Sector Movements. Com este último pseudónimo assinou aliás recentemente um contrato com a Virgin para o lançamento de um álbum proximamente. Para além destas actividades dirige ainda a subsidiária da editora People, a Main Squeeze. Para esta editora assinou projectos como os Numbers (Demus dos Two Banks Of Four) e Bembe Segue, ao mesmo tempo que desenvolve um projecto com Dego dos 4 Hero sob o nome de Runaway. Enquanto a Laws Of Motion aposta em música envolvente, a People e a Main Squeeze são editoras mais vocacionadas para a experimentação e produzem sonoridades mais sujas.As outras editoras que vale a pena conhecer são a Archive e a Black 2000. A primeira é dirigida pelo italiano Enrico Volcov e agrupa projectos que também gravam para a People, a Laws Of Motion e a 2000 Black como Nubian Mindz, Mustang (o suíço Alex Attias dos Beatless), Theo Parish, Domu, Phoojun (Phil Asher), Dego e Mark Mac (dos 4 Hero) ou Paradox. A 2000 Black é da responsabilidade de Dego e de I-G Culture e, como não poderia deixar de ser, alimenta-se de toda esta febre de colaborações, assimilando projectos como Mustang ou Domu.Além de músicos, produtores ou editoras, para que uma determinada actividade musical fique conhecida e ganhe projecção é necessário que exista alguém que se interesse por ela e a divulgue. Gilles Peterson, patrão da editora Talkin' Loud, Patrick Forge, DJ e mentor dos Da Lata e Dego dos 4 Hero, têm sido três peões fundamentais na legitimação de toda estas confusas movimentações. Nos programas de rádio (Peterson na Radio One, Forge na GLR e Dego com Phil Asher na Kiss FM) e nas sessões de DJ em redor do mundo os novos temas são testados e as raízes desta música, do jazz ao soul-funk, são recordadas. Não admira por isso que as grandes apostas dos três senhores para o ano 2000 sejam respectivamente: Gilles Peterson - Two Banks Of Four; Patrick Forge - Neon Phusion / Afronaughts e Dego - I:G Culture. Algumas das sementes do futuro da música negra britânica estão a ser plantadas na zona Oeste da cidade.