Amava o teatro como poucos

Estava em ensaios da peça "Barcas", baseada nos autos de Gil Vicente, sob a direcção de Giorgio Corsetti, no Teatro S. João do Porto. Foi encontrada ontem sem vida no quarto do hotel. Morreu uma grande actriz, inteligente, rigorosa, culta, intransigente. O seu amor pelo teatro era inesgotável. Bem como a sua paixão pela poesia. É uma triste perda para o teatro português.

Actriz por excelência, com um currículo invulgar, para quem o teatro era antes de mais nada "a criação do actor", Fernanda Alves, nascida em Junho de 1930, morreu ontem no Porto. O seu corpo foi encontrado sem vida no quarto do hotel em que estava hospedada. Fernanda Alves estava a trabalhar nos ensaios da peça "Barcas", baseada nos autos de Gil Vicente, sob a direcção de Giorgio Barberio Corsetti, espectáculo cuja estreia estava prevista para o dia 28 deste mês. A actriz havia já participado, em 1997, num trabalho de Corsetti, no Porto, na peça "Os Gigantes da Montanha" de Pirandello.No ano passado, Fernanda Alves obteve uma grande sucesso com a peça "O Cerco de Leninegrado" de José Sanchis Sinisterra, na Companhia de Teatro de Almada, contracenando com a actriz Fernanda Borsatti, espectáculo que teve depois uma curta estadia no Teatro D. Maria II. Nesta casa, ainda no ano passado, entrou no elenco (em substituição de uma actriz) e encenou a peça "A Sobrinha do Marquês" de Almeida Garrett, integrado nas comemorações do bicentenário do nascimento do escritor. Fernanda Alves tinha feito, aliás, em 1966, a sua primeira experiência no campo da encenação precisamente com esta peça, no Teatro Experimental do Porto. Igualmente no TEP, a actriz entrou, em 1968, na peça de Ionesco "O Novo Inquilino". Ainda no ano passado, Fernanda Alves participou, na Cornucópia, num projecto de Daniel Worm intitulado "Trilogia Monocromática", sobre poesia de Herberto Helder, Luis Miguel Nava e Luiza Neto Jorge. A actriz leu poemas desta poetiza.O seu currículo é, não só vasto, mas riquíssimo. A sua ligação artística aos encenadores Carlos Avilez, Mário Barradas, Mário Feliciano, Giorgio Corsetti e Joaquim Benite, entre outros, marcaram o seu percurso. A Companhia de Teatro de Almada, CTA, homenageou-a na edição de 1997 do Festival Internacional de Teatro e no ano passado estreou ali a peça "O Cerco de Leninegrado" de José Sanchis Sinisterra. Joaquim Benite, director do CTA, que admirava e era muito amigo da actriz, disse ao PÚBLICO que Fernanda Alves era uma grande personalidade do teatro: "Era uma das grandes actrizes portuguesas, de uma extrema inteligência e muito culta. Ela amava o teatro e era uma mulher intransigente, rigorosa e de uma seriedade inultrapassável. Não era nada espontânea na sua relação com o teatro, analisava tudo ao pormenor e sobre diversos ângulos. Foi uma honra para mim trabalhar com ela".Para Carlos Avilez, director do D. Maria II, com quem trabalhou no Teatro Experimental de Cascais, TEC, Fernanda Alves, por quem ele tinha igualmente uma enorme admiração, era uma actriz de "grande talento e inteligência, de uma qualidade fora do comum". Avilez recorda, por exemplo, a peça "O Vento nas Ramas do Sassafras" de René de Obaldia em que Fernanda Alves desempenhou brilhantemente um monólogo em alexandrinos: "Era, além disso, uma mulher de uma grande verticalidade e coerência, que defendeu sempre as suas ideias". No TEC, entrou também na peça "Ivone Princesa da Borgonha" de GombrowiczOutra das grandes referências do percurso de Fernanda Alves foi a peça " A Grande Imprecação Diante das Muralhas da Cidade" de Tankred Dorst, estreado em Janeiro de 1974, no Instituto Alemão, em Lisboa, numa encenação de Mário Barradas. Este espectáculo, pela momento político e cultural que se vivia em Portugal e pela polémica que desencadeou com a censura tornou-se premonitório. O 25 de Abril estava à porta. Com a sua interpretação nesta peça obteve o Prémio da Casa da Imprensa. Também com Mário Barradas, no Cendrev de Évora, em 1994, entrou na peça de Shakespeare " Tudo Está Bem Quando Acaba Bem". Em 1987, no Teatro S. Luiz, entrou em "Seis Personagens à Procura de Autor", de Pirandello numa encenação de Mário Feliciano.Fernanda Alves terminou o Conservatório em 1958 de onde saíu com o 1º Prémio, Prémio Augusto Rosa e Prémio Eduardo Brazão. Ainda nos anos 60 fez parte do Teatro do Gerifalto, da Companhia Nacional de Teatro, tendo pertencido, a seguir, entre outros, ao Teatro Moderno de Lisboa, ao Teatro Estúdio de Lisboa, à Casa da Comédia ("Quase Por Acaso Uma Mulher", de Dario Fo, 1986) e ao Teatro Hoje (Teatro da Graça) onde entrou nas peças "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" de Fassbinder (1986) e "O Verão" de Edward Bond (1989). Foi uma actriz muito activa no nascimento do chamado teatro independente, tendo fundado, em 1971, o grupo Os Bonecreiros, com Mário Jacques e João Mota e, em 1975, a Barraca, com Maria do Céu Guerra e Helder Costa. Pertencia ao elenco do Teatro Nacional D. Maria II desde 1978, onde participou em peças como "Auto da Geração Humana", "Felizmente Há Luar", "Filhos do Sol", "As Três Irmãs", "O Gebo e a Sombra", "Anatol", "A Louca de Chaillot", "A Casa de Bernarda Alba" ou "O Poder do Dinheiro". Esteve também ligada ao cinema, à televisão e à literatura, tendo participado activamente em tertúlias e grupos culturais como o do Café Gelo, em Lisboa, onde conviveu, por exemplo com os poetas Mário Cesariny de Vasconcelos e Luiza Neto Jorge. Era casada com o poeta, tradutor e jornalista Ernesto Sampaio.