Que se fado!

São 26 conversas com gente do fado, cantores e guitarristas, entre os quais Amália, que Baptista-Bastos entrevistou e compilou no volume "Fado Falado", agora editado. No fado, descobriu o autor uma "interpelação a nós próprios", e, em Argentina Santos, uma "mulher absolutamente espantosa". No fado, há quem responda da mesma maneira que Pedro Abrunhosa à pergunta: "O que é que vamos fazer?"

Baptista-Bastos achava o fado "absolutamente execrável", com "melodias pobres e letras desconchavadas", antes de se lançar na aventura de fazer o livro "Fado Falado", que acaba de ser editado. Para este escritor, jornalista e conversador nato, de quem sairá em breve uma nova versão da obra "As Palavras dos Outros", o fado reduzia-se às vozes de Amália Rodrigues, Lucília e Carlos do Carmo, João Braga e, numa fase posterior, Carlos Zel. E, mesmo assim, só fado narrativo, que lhe "contasse histórias". Nestes cinco vislumbrava uma profunda ligação da voz ao sexo. Entretanto, ao fim dos seis meses - entre Outubro de 1998 e Março deste ano - que levou a entrevistar os 26 fadistas presentes em "Fado Falado" (Ed. Ediclube, com prefácio de José Saramago e fotos de José Santos, exceptuando um retrato de Amália assinado por Ângela Camila), a sua opinião sofreu uma rotação de 180 graus. "Entrei em estado virginal", confessa o escritor que logo de seguida começou a ver o fado, através dos seus intérpretes mais significativos "como uma interpelação a nós próprios" e, a outro nível, "uma construção dos bairros de Lisboa". Alcindo de Carvalho, Amália Rodrigues, António Chainho, António Rocha, Argentina Santos, Beatriz da Conceição, Camané, Carlos do Carmo, Carlos Zel, Fernanda Maria, Fernando Maurício, Fontes Rocha, Frutuoso França, Gabino Ferreira, João Ferreira-Rosa, Joel Pina, Jorge Gomes, Jorge Tuna, Luís Goes, Machado Soares, Mário Pacheco, Mercês da Cunha Rego, Mísia, Raul Nery e D. Vicente da Câmara, pela ordem que aparecem no livro, foram os mestres e discípulos desta viagem ao âmago dos que fizeram do fado uma forma de vida. Porque mais do que um livro sobre o fado - que também é, "na sua componente de relação" - "Fado Falado" descobre pessoas. Razão porque Baptista-Bastos fez anteceder cada entrevista de uma ficha pessoal na qual, entre outros dados, constam as habilitações literárias dos entrevistados, "um dado sociológico extremamente importante".De tal forma assim é que o próprio Baptista-Bastos se descobriu a si mesmo no decurso deste processo, ao longo de uma "aprendizagem" feita da "relação com o fado através das pessoas que o cantam". Fatal (o fado é sempre fatal...) como o destino (o fado é sempre destino...). "Em meia dúzia de meses fiquei a gostar muito de fado", confessa.Dos fadistas com quem falou, Baptista-Bastos ficou particularmente deslumbrado, de "boca aberta", como diz, com Argentina Santos, a velha fadista analfabeta que os conhecedores podem ouvir no restaurante que ela própria dirige, o "Parreirinha de Alfama": "Tive, como diria o Eugénio de Andrade, um alumbramento com aquela mulher. Uma mulher absolutamente espantosa, a cara dela tem a geografia da cidade de Lisboa. Argentina Santos é um bairro, no que um bairro tem de mais específico e de mais resistente à aculturação. É também uma grande mulher do jazz, a voz humana em pleno voo, às vezes canta como se estivesse a orar a um Deus desconhecido. Já fiz centenas de entrevistas e ponho a Argentina Santos taco-a-taco, em grandeza, em sabedoria, em singeleza, com o Visconti, o Orson Welles e o Lucas Pires, três das maiores entrevistas que fiz na minha vida".De Amália, que já entrevistara várias vezes antes, reteve o "pressentimento dela de que algo de terrível lhe iria acontecer, que era a morte" mas também um "certo registo de júbilo" fruto de "uma modéstia exposta que é uma vaidade escondida". Amália que Baptista-Bastos compara a Fernando Pessoa: "Ambos sabiam que eram génios". Já em Beatriz da Conceição descobriu Baptista-Bastos uma forma menos ortodoxa de encarar o fado - essa "estranha forma de vida" - e as suas exigências. Estranha ao ponto de, questionada sobre o que irão fazer os fadistas quando deixarem de cantar, dar esta "resposta terrível": "Vamos foder!" "Terrível" é uma forma de expressão, há tormentos bem piores. Como o "sentido de tragédia, de tristeza, da irreversibilidade das coisas, uma ligação entre Eros e Tanathos" que o escritor descortinou na maioria dos entrevistados. "Para cantar o fado é preciso estar apaixonado", afirma mesmo Mercês da Cunha Rego, voz pouco conhecida, confirmando esta dialéctica de pulsões de vida e pulsões de morte. Também a velha polémica sobre se existe um fado de esquerda e um fado de direita é avaliada em "Fado Falado". As respostas variam, segundo o autor, entre os fadistas de direita, que dizem que não, e os de esquerda, que dizem que sim. Ao fim destas 26 conversas, Baptista-Bastos chegou à conclusão de que o fado "acompanhou toda a trajectória do movimento proletário e sindical do povo português", existindo, como tal, "um fado anarquista" e um "fado comunista", a par de um "fado do António Ferro, da política do espírito", conotado com o regime do Estado Novo. A nenhum dos entrevistados Baptista-Bastos perguntou onde é que estava no 25 de Abril.Mas fossem quais fossem as divergências entre os entrevistados, Baptista-Bastos encontrou neles uma característica comum: "Não têm falhas de carácter. Num meio pequeno como o do fado, nenhum diz mal dos outros. Há uma espécie de recolher obrigatório".Ficou a pena de não ter podido entrevistar alguns fadistas já desaparecidos. Como Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha e, principalmente, Alfredo Marceneiro. "Era um 'manhoso', gostava de o ter encostado à parede e de lhe perguntar porque é que, quando estavam certas pessoas, cantava uns fados e, quando estavam outras, cantava outros diferentes". A esta questão "Fado Falado" não responde. Para António Rocha, "quando se canta, o momento é religioso". E Amália dizia que "o fado é uma coisa que não se procura."