Júlio Pinto: Ácido sulfúrico

Enche a boca com ácido e não há delicadeza que o detenha. Aos 50 anos, Júlio Pinto é sarcástico por vocação e não resiste ao veneno, mesmo que, como jura a pés juntos, não seja por maldade que se dedica à tarefa ingrata, mas irresistível, de desfazer mitos e arrasar pomposos consensos nacionais. Fala imenso, e está lá tudo: Deus, Marx, Estaline e Saramago, o século XX condensado em surpreendentes teorias sobre o fundo pedófilo da literatura infantil e a capacidade de encaixe da direita portuguesa. Não, não se estava à espera, não era isto que estava escrito. Júlio Pinto foi militante e funcionário clandestino do PCP, simpatizou com o PSR, mas agora está assim: sem paciência para a esquerda mansinha, toda cheia de pruridos e de boas maneiras burguesas. "Sou um simples liberal de extrema-esquerda. Não se pode ser de meia esquerda. Chateiam-me um bocado os gajos que são de esquerda moderada", confessa.Está à mesa e tempera tudo com picante, como as tiras de banda-desenhada cujos diálogos assina e que "O Independente" acolhe há já alguns anos. "Filosofia de Ponta", "Arnaldo, o Pós-cataléptico" e "A Guarda Abília" são motivos de orgulho, campo aberto à invenção desvairada, um mundo de faz-de-conta onde o sexo é servido com muita filosofia, erudições insólitas em contextos banais, citações de Hegel, Platão, Habermas ou Manuel Tiago. Veio ter à BD quase por acaso, depois de um percurso em que alternou jornalismo, desemprego e publicidade. A sua condição de "outsider" - e um novo desemprego motivado pela extinção do semanário "O Inimigo", um projecto que alimentou durante um ano - levou-o à BD, "um género menor" traído pela hibridez: "Não é bem literatura, não é bem pintura. Mas é ali que vejo um território imenso para ir comentando o quotidiano evitando aquele registo realista que, por vezes, me chateia na literatura. A literatura portuguesa é quase toda académica e entediante e feita por pessoas que acabaram de sair da Faculdade de Letras e que querem mostrar ao mundo que sabem o que é uma metáfora e uma metonímia", ironiza. Para género menor, não está nada mal: são tantas as citações, e tão densas as referências a movimentos filosóficos, correntes e contra-correntes, orto e heterodoxias que o texto resulta praticamente ilegível. Mas Júlio Pinto faz questão, acha os filósofos "divertidíssimos" e acredita no poder do "nonsense". "O que havia de novo e inesperado na 'Filosofia de Ponta' era a junção do discurso elaborado e erudito dos filósofos com realidades muito corriqueiras. Ninguém cita Hegel na cama com outra pessoa, mas há coisas do Hegel que se ajustam àquela situação. O Sousa Cintra é capaz de dizer uma frase terrível do Nietzsche, embora ele próprio não saiba que é um nietzschiano".A BD acabou também por ser um subterfúgio para alguém que devora ficção mas não se sente capaz de se aventurar na literatura "a sério": "Há cada vez mais escritores publicados. E a maior parte dos livros não vem acrescentar nada. A Agustina Bessa-Luís, aliás, tem uma expressão fabulosa - 'só há tantos escritores porque as pessoas têm falta de memória'. Se não fossem amnésicas, saberiam que aquilo já foi escrito por outros da mesma maneira. Há mais formas de mostrar a vaidade. Nisso sou um bocado conservador: ainda sou do tempo em que a literatura era a literatura". Claro que também outros argumentos pesam - Júlio Pinto sabe que já acumulou azedumes suficientes para que haja muito boa gente à espera de o apanhar em falso. Alguém que mantém, n'"O Independente", colunas com os sugestivos nomes de "Gremlin Literário" e "Cartilha Paternal", e que afirma convicto que "há salsichas e frigoríficos muito melhores do que alguns livros que por aí andam", não pode dar-se ao luxo de ser um escritor mediano.Apesar do tom distanciado, Júlio Pinto continua atacado pelo vírus do jornalismo. Esteve em todos os lugares, coleccionou pequenas rivalidades e grandes impaciências, e hoje, como qualquer bom "soixante-huitard" (uma criatura estranha, este militante de causas perdidas com sentido de humor), está desiludido. "Em Portugal, o jornalismo é demasiado institucional. E há uma enorme promiscuidade entre jornalismo e poder. Obviamente, já passámos a fase em que os jornalistas se vendiam por um almoço. Mas o jornalismo português em geral confunde um pouco o quarto poder com o quarto do poder. Há demasiados jornalistas no quarto do poder".A publicidade é outra questão mal resolvida. Confessa o pecado - "ninguém é perfeito" -, mas o desemprego tem destas coisas. "Enquanto 'copywriter', tento organizar, de forma eficaz, o espectáculo da mercadoria. Contra o qual estou, aliás.Acho que fiz coisas com alguma graça, mas não é uma coisa que me fascine porque não gosto de ser impositivo. Não sou missionário nem tutor de ninguém", garante. Entre publicidade, imprensa (escreve semanalmente n' "O Independente" e mensalmente na revista "Ler") e rádio (o regresso do "Estado do Tempo", na TSF, está para breve), Júlio Pinto ocupa pacatamente os seus 50 anos de idade. É, admite, "um marginal de sucesso". Teve sorte na vida. Foi preso, mas veio o 25 de Abril; esteve quase a dar origem a uma Lei de Imprensa "completamente idiota", mas o 25 de Novembro cortou o mal pela raiz; entrou para o PCP, mas foi expulso. Quando lhe perguntam a profissão, gosta de responder "artista de variedades". Quando se alonga no currículo, explica o resto: "Tenho 50 anos, vivo com a Sara, sou pai do João, calço 43. Já frequentei os sítios mais estranhos - "O Diário", o "Jornal de Notícias", o "Diário Popular", o "JL", o "Expresso", "O Jornal". Durante anos quis mudar o mundo, mas um dia acordei com a terrível sensação de que o mundo se muda mesmo que eu não esteja lá". Apesar de tudo, acredita na revolução: "No próximo século, não será descoberta a vacina contra o mando, essa terrível doença milenar. Mas talvez daqui a algumas décadas, dois papas depois do João Paulo II, haja um papa que use preservativo. Ainda que o não revele por razões óbvias". E ele? "Eu espero ser menos contemporizador". Apostar na corrosão. Porque aos 50 anos já não está na idade de ganhar juízo.