Laurissilva, património UNESCO

A totalidade da área da floresta madeirense, classificada já como Reserva Biogenética e incluída na rede europeia de Reservas Biogenéticas, poderá ser hoje sagrada Património Mundial. Floresta originária da Madeira, a Laurissilva, regista características subtropicais e abriga inúmeros endemismos a nível dos estratos arbustivo e herbáceo, para além de uma excelente diversidade de líquenes e de briófitas. No âmbito da fauna, nela vive grande diversidade de invertebrados, com a presença de inúmeros moluscos e insectos endémicos, bem como especial uma avifauna que tem o pombo-torcaz como ave emblemática.

A inclusão da Floresta Laurissilva da Madeira na lista des bens naturais Património Mundial foi recomendada pelo Bureau ao Comité da UNESCO, durante a sua 23ª sessão ordinária a decorrer em Marraquexe, capital de Marrocos. O anúncio oficial da decisão será feito hoje, numa conferência de imprensa.No relatório final a submeter à aprovação do Comité do Património Mundial, com as informações e análise das propostas de inscrição na lista de bens cultuarais e naturais, o Bureau realça que a Madeira conserva "o maior mancha das florestas laurissilvas do Mundo, reunindo um conjunto único de plantas e de animais". "Seria difícil imaginar uma ilha oceânica rica em plantas e com uma área semelhante à da Madeira que contenha uma proporção tão elevada (perto de 90 por cento) de floresta natural intacta", frisa. O documento alerta para a existência de outro parque (Garajonay) na lista da UNESCO, o único obstáculo que a candidatura portuguesa terá de ultrapassar para sair vencedora.A Floresta Laurissilva da Madeira (FLM) satisfaz dois dos quatro critérios naturais considerados fundamentais para a classificação de Património Mundial: a biodiversidade e os processos ecológicos e geológicos em curso. Embora não cumpra os requisitos relativos à história da terra, nem um outro critério que implica a ocorrência de fenómenos naturais excepcionais, a Missão Internacional para a Conservação da Natureza (UINC/UNESCO) conclui que a ilha portuguesa "contém os habitats mais representativos e mais importantes para a conservação in situ da diversidade biológica", sendo não só maior do que as outras florestas de laurissilva como a que apresenta diferenças biológicas. Além de recomendar a elevação a Património Mundial Natural, o Bureau exorta o Comité da UNESCO a felicitar o Estado português pela protecção desta área conseguida na última década (na sequência de um estudo da UICN financiado pela Sociedade Internacional de Dendrologia e de uma vista ao local realizada em 1990 pela World Wide Fund for Nature) e o governo da Região Autónoma da Madeira pelo empenho demonstrado. Propõe também que o Estado-membro seja encorajado a reforçar as medidas de preservação da paisagem e a favorecer práticas de silvicultura exteriormente compatíveis. Finalmente sugere que as autoridades portuguesas discutam com as suas congéneres espanholas a possibilidade de desenvolver conjuntamente, "como Bem do património mundial internacional", o Parque Nacional de Garajonay, na ilha Gomera (Canárias), e a Floresta Laurissilva da Madeira. "Com o Bem do património mundial da Garajonay, a FLM garantiria uma excelente presença das florestas da laurissilva na lista do Património Mundial", justifica o projecto de recomendação. No entanto, devido às semelhanças existentes entre as duas áreas, situadas na mesma região atlântica, o Bureau considera razoável que Portugal e Espanha encarem a possibilidade de uma inscrição conjunta das duas áreas naquela lista, de modo a que este ecosistema saia reforçado. Confrontada com a sua concorrente, a Laurissilva da Madeira (15.000 mil hectares) vence Garajonay (3.000 hectares) em extensão, em diversidade e é, em geral, "mais luxuriosa que a floresta das Canárias, com plantas mais altas, mais húmida e mais fresca". O relatório destaca a "fauna de invertebrados tão rica e ainda quase por descobrir". Maior vantagem ganha a FLM quando comparada com a laurissilva dos Açores, "relativamente degradada" e "menos rica em espécies" que a da Madeira e das ilhas Canárias.A totalidade da área da floresta madeirense (quase 16 por cento da superfície da ilha), dada a sua importância, foi classificada como Reserva Biogenética e incluída na rede europeia de Reservas Biogenéticas, sob a égide do Conselho da Europa. Estas reservas constituem áreas protegidas onde ocorrem ecosistemas, biótipos e espécies únicos, raros ou ameaçados, característicos de uma dada região.A floresta originária da Madeira, a Laurissilva, regista características subtropicais e abriga inúmeros endemismos a nível dos estratos arbustivo e herbáceo (representados nomeadamente nas árvores da família das laureáceas, do dragoeiro e em alguns fetos), para além de uma excelente diversidade de líquenes e de briófitas. No âmbito da fauna, estudos técnicos relevam uma grande diversidade de invertebrados, com a presença de inúmeros moluscos e insectos endémicos, dando também especial destaque à avifauna com o pombo-torcaz como ave emblemática. A FLM esta incluindo no Parque Natural da Madeira (PNM), criado pelo decreto regional 14/82, com o objectivo de realizar o ordenamento biofísico a longo prazo, valorizando o homem e os restantes os recursos naturais existentes". O processo de candidatura a património mundial foi preparado pelo director do PNM, Henrique Costa Neves que, entre 1992 e 1995, procedeu, com uma equipa de técnicos, à determinação da área coberta pela floresta, nível de densidade, dominância, frequência e importância dos vários elementos da sua composição florística, reunidos no livro "Laurissilva da Madeira - Caracterização Quantitativa e Qualitativa". O processo foi desencadeado em 1996, envolvendo o Governo regional e a Comissão Interministerial para a Coordenação e Acompanhamento dos bens portugueses à lista do Património Mundial. A Comissão Nacional da UNESCO, ao submeter em 1998 a esta organização mundial as várias candidaturas de sítios de Portugal continental - em que já estava, desde 1996, o Vale do Côa, como Paisagem e Património Cultural - decidiu recomendar que fosse dada prioridade à laurissilva madeirense, nela integrando as levadas. Para a elaboração do relatório final, que esta tarde será submetido à apreciação do Comité reunido em Marrocos, o grupo interministerial acompanhou em Fevereiro do corrente ano a delegação de peritos da IUCN/UNESCO, chefiada por Hugh Synge.