As vozes da floresta

O desenho não traz novidades, a música de Phil Collins não tem o fôlego das partituras de Alan Mencken em outros filmes da Disney. A única transgressão é a mini-tanga. Mas a culpa não é dos macacos, que reproduzem os bem humanos padrões familiares.

Na versão dobrada de "Tarzan", as canções de Phil Collins foram interpretadas por Luis Represas. E um português gritou uma vez como Johnny Weissmuller, o Tarzan do nosso imaginário."Tenta ser aquilo em que acreditas/Dois sóis um só sentir/Deixa-te ir p'lo coração/ Tu vais saber seguir", canta Luis Represas. É a versão portuguesa de "Two Worlds Reprise" produzido e orquestrado por Phil Collins para "Tarzan". Além deste, Phil Collins compôs mais quatro temas, entre os quais "You'll Be in My Heart", e todos são interpretados por Luis Represas."A importância de transmitir às crianças o 'não ao racismo', à beira do ano 2000, como faz este filme, redobrou ainda mais o prazer de ter colaborado nele", diz Represas.Baseada no clássico imortal de Edgar Rice Burroughs, esta é a primeira longa-metragem de animação da história de Tarzan, a de um bebé orfão que é encontrado na selva e adoptado por uma família de gorilas e que, mais tarde, se vê repartido por dois mundos, o dos animais junto do qual cresceu e o dos homens a que, na realidade, pertence. O "Tarzan" da Disney é uma mensagem de solidariedade e de fraternidade dirigida às crianças neste fim de século. É um apelo à tolerância, ao direito à diferença e à solidariedade num mundo ameaçado pela violência e pela morte.Como as outras animações da Disney, também este filme foi "dobrado" para português por uma equipa de actores que, dentro de um estúdio, sob a direcção de Carlos Freixo, interpretaram em português, durante vários dias, as várias personagens da história. Bernardo Costa fez de jovem Tarzan, Filipe Duarte de Tarzan adulto - não grita tanto como Johnny Weissmuller, só o faz uma vez quando alguém mata um leopardo -, Carla de Sá, de Jane Porter (na versão original, foi Minnie Driver), Elsa Galvão de Terk, Alexandre Melo, de Clayton e Pedro Pinheiro de professor Porter (na versão original, Nigel Hawthorne).Na Matinha Estúdios Som, em Lisboa, dobra-se actualmente outro filme da Disney, "Toy Story 2". Passa-se o mesmo que em todos os outros filmes. Os actores são escolhidos num casting (habitualmente três por voz, dos quais, por sua vez, se selecciona um), segundo o tipo de voz considerado mais próximo da versão original e segundo a qualidade da interpretação, como explica Carlos Freixo. As vozes são depois enviadas para a Walt Disney, em Los Angeles, que dá a última palavra sobre a escolha dos actores. No caso de "Tarzan", foram ouvidas 50 vozes para serem escolhidas seis. Dentro do estúdio, os actores interpretam as personagens, tentando sincronizar a sua voz com as imagens que se visionam num monitor colocado à sua frente. No exterior, à beira de uma mesa de mistura, o director artístico coordena o trabalho. "Ora bem, vamos rever mais uma vez. Às 8 e trinta e dois em ponto, Prova A, Woody foi raptado. Prova B...desenho minucioso do raptor", diz Carlos Freixo, que faz a voz de Hamm, o porco cor-de-rosa de "Toy Story". Ao microfone, o actor tenta adaptar a voz às imagens que correm no ecrã. Repete, volta atrás, torna a repetir, moldando a voz consoante a entoação que pretende. As gravações de "Toy Story 2", sob a direcção do actor Rui Paulo, vão prolongar-se durante as manhãs e as tardes do resto da semana, sendo apenas interrompidas para breves intervalos.A voz portuguesa de Tarzan pertence ao actor Filipe Duarte. Foi escolhido no "casting", levou o filme para casa e, ao longo de uma manhã e de uma tarde, gravou a voz. "Gosto de fazer dobragens e dá-me sempre prazer participar num trabalho de qualidade como este", diz, considerando a dobragem "parte integrante do trabalho de actor", já que se trata de "interpretar não de imitar".Este trabalho é feito em Portugal com tanta ou mais qualidade do que em outros países, assegura Carlos Freixo. Aliás, diz que os portugueses várias vezes receberam mesmo parabéns de Los Angeles. Há 12 anos que "dobra" para português filmes de animação, um tipo de trabalho para o qual considera ser necessário "noção de ritmo, bom ouvido, voz flexível". Ele foi a voz de Simba no "Rei Leão II", a interpretação que o marcou mais, mas também "emprestou" a voz a Pateta e a Roby Williams em "Flubber" e participou em "Toy Story I" e em "Pochaontas". É um género de trabalho que requer "muitas horas, muita atenção e uma concentração permanente". A voz tem de "acertar" com os tempos do vídeo para sincronizar o som com a imagem e repetir até ficar bem. A mistura é habitualmente realizada em Londres de onde se fazem também as indicações para as alterações. No caso de "Tarzan", por exemplo, foi sugerida a correcção de quatro falas. O actor Rui Paulo, intérprete do célebre Becas da Rua Sésamo, foi outra das vozes de "Tarzan" - Tantor, o elefante bebé, amigo do herói. Também ele considera ser necessária uma "atenção redobrada". O resultado final ficará sujeito à apreciação de um grupo de espectadores especialmente exigente: o público infantil.