Estrelas brasileiras seduzem Londres

Não é comum, mesmo no Brasil, ver juntos num palco Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Gal Costa, ainda por cima acompanhados por Elza Soares e Virgínia Rodrigues. Mas foi o que aconteceu anteontem em Londres, no Royal Albert Hall. A receita dos bilhetes, esgotados uma semana antes, reverte a favor dos meninos da rua do Brasil.

Em 1969, no seu exílio londrino, Caetano Veloso escreveu a canção "London, London". Nessa altura, a sua aparência (barba, bigode, cabelo comprido) era a de um "hippie" mal-encarado. Anteontem à noite, de novo em Londres mas trinta anos depois, Caetano cantou-a perante as mais de cinco mil pessoas que esgotaram por completo o Royal Albert Hall para assistir a um concerto onde Caetano (agora grisalho e bem-disposto, de fato escuro e gravata vermelha) partilhou pela primeira vez um palco estrangeiro com um grupo de outras estrelas de primeira linha da música popular brasileira: Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Elza Soares e Virginia Rodrigues. Como foi em Londres e a amizade o justificou, também esteve com ele Georgie Fame, um cantor que nos anos 60 compôs "A Balada de Bonnie & Clyde" e que é, há muitos anos, fã declarado da música do Brasil.O lema de tão inesperada reunião de estrelas foi a canção de Caetano "Desde que o samba é samba" (vertida para o inglês "Since the samba has been samba") e a causa, nobre, foi o apoio à Task Brazil Trust, uma associação dedicada a recuperar os meninos da rua do Brasil. Foi, por isso, um concerto de beneficência, e além do preço - elevado - dos bilhetes, os organizadores distribuiram ainda pequenos envelopes brancos que, no final, podiam ser selados e entregues com uma nota no interior. As portas do Royal Albert Hall abriram-se às 19 h e, pouco depois das 20 h, entra em palco o primeiro de três grupos brasileiros sediados em Londres, o Grupo Folia, anunciado que "chegou pra balançar". Balança 15 minutos e sai. Seguem-se-lhe duas escolas de samba, cada uma com perto de meia centena de elementos: a London School of Samba e os Quilombos do Samba. Artilharia pesada, passo leve e exuberância quanto baste. À tempestade segue-se a bonança de um intervalo. Vinte minutos depois, as luzes voltam a apagar-se na sala e o palco ilumina-se para assistir à tomada de posse dos músico (são seis e ali ficarão, fieis e obedientes, nas próximas duas horas). Atrás dos músicos vem Elza Soares cantando os primeiros versos de "Desde que o samba é samba". E atrás dela vêm as restantes estrelas que, no palco, da esquerda para a direita, alinham por esta ordem: Gal Costa, Caetano, Gil, Elza, Virgínia e Chico. A sala pré-aquecida pelas baterias sambistas, reage bem à exibição primeira das estrelas tropicais, que cantam juntas e em pequenos solos.Depois dos aplausos, o palco fica entregue a Virgínia Rodrigues, que na sua voz - tão estranha quanto possante - ali irá expor a afro-alma baiana em quatro temas de "Sol Negro", o seu álbum de estreia. Começa bem, com o tocante "Negrume da noite", mas a voz não está nos melhores dias. Quando, no final, canta "Vou-me embora chorando/o meu coração sorrindo", entra a lendária e efusiva Elza Soares, 40 anos de carreira no activo.De "maillot" apertadíssimo e semi-transparente, mescla de Célia Cruz e Tina Turner, Elza protagoniza ainda um desequilibrado dueto com Virgínia. Quando esta sai, dispara um samba e vai por aí, sacudindo o público com os seus famosos rugidos "scat" (a lembrar Armstrong ou um trompete com surdina) e laivos "funk" à flor da pele. Do seu mais recente álbum, "Carioca de Gema", atira: "Eu sou o samba/a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor". E ninguém se atrevia a duvidar que era. Nem Gil, chamado por ela à ribalta.Ainda com Elza - e aqui sim, num dueto inventivo e enérgico - Gilberto Gil canta "Mas que nada", de Jorge Ben, pondo a sala quase toda de pé. Segue-se um sussurrante "Saudade da Bahia", como se Caymmi pudesse ser filtrado por João Gilberto; "Vendedor de caranguejo", de Gordurinha (e de "Quanta"); "Garota de Ipanema", de Jobim; e uma versão funk-reggae de "Something", dos Beatles.Prosseguindo as cortesias, Gil chama então o britânico Georgie Fame e, juntos, cantam "Toda menina baiana". Fame canta em inglês, claro, e faz "a-a-a-a/o-o-o-o" em dialecto universal, pondo, mais uma vez, a sala em alvoroço. Fame explica, depois, que a sua convivência com a música brasileira o levou a escrever "o seu próprio samba". Canta-o (ainda com Gil) e sai.É a vez de Gil chamar Gal Costa, cantando com ela um bem sincopado "Aquele abraço" - com Gal, vestida de branco e de braços abertos, simulando esse abraço de cá para lá do palco.Já sem Gil, Gal atira-se a "Falsa baiana", mantendo o registo sambista até ao quase-hino "Canta Brasil", a voz viva e sagaz por entre as notas, a resistir bem à passagem dos anos. Depois, faz as honras a Chico: "Eu quero chamar aqui, agora, essa extraordinária pessoa, esse compositor maravilhoso, amigo de todos nós: Chico Buarque!" E, por entre uma tempestade de aplausos, ainda canta com Chico antes de ele recuar uns bons anos na memória e devolver-nos, em versões mais soltas, "Homenagem ao malandro" e "Quem te viu, quem te vê". É também a sambar ("A minha pátria-mãe/tão distraída...") que Chico se despede do público e chama a última estrela da noite: "The man I love, the man Brazil loves: Caetano Veloso!" Abraço forte e um extraordinário dueto já protagonizado por ambos, há uns bons anos atrás: "Festa imodesta".Os aplausos ainda seguem Chico quando ele se retira e Caetano abre o seu "Livro": "Onde o Rio é mais baiano". Depois, uma homenagem conjunta a Noel Rosa e Tom Jobim, com uma bem conseguida mescla de "O x do problema" e "Só danço samba". Visivelmente bem disposto, chama Virgínia Rodrgues para cantarem juntos "uma canção do carnaval da Bahia". Com Caetano, Virgínia parece outra e o dueto, num ritmo lento e hipnótico, anda perto do sublime.Chega a vez - inevitável? - de "London, London", composta em Londres, em 1969, quando Caetano se viu forçado a exilar-se fora do Brasil. Depois voltam todos, para mais um samba (Caetano segura nas mãos uma bandeira do Brasil e, ao vê-la, a plateia redobra os aplausos) e para fechar em glória com "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso e, já num derradeiro "encore", o "Samba do Avião", de Jobim. No auge da festa, a apoteose "Samba Brazil 2000", iluminada a fogo-de-artifício.Muito longe da festa, a sul do continente americano, milhares de crianças preparam-se para mais uma noite sem luz nem destino, sem saberem da pequena vela entretanto acesa do outro lado do Atlântico.