Um Nobel embaraçoso

No dia em que se comemora o cinquentenário da atribuição do Prémio Nobel da Medicina ao médico e investigador português António Egas Moniz, o PÚBLICO revisita a sua obra. Inventor da angiografia - uma forma de tornar visíveis áreas do cérebro ou do sistema circulatório, injectando uma solução que faz contraste nas radiografias -, Egas Moniz acaba por receber o Nobel pela "descoberta do valor terapêutico da leucotomia", uma prática que consistia na remoção da matéria branca que une os lobos frontais do cérebro. Apesar de Egas Moniz dizer que esta intervenção só deveria ser efectuada em doentes sem qualquer outra esperança, um investigador norte-americano começou a utilizá-la indiscriminadamente, transformando-a na terrível lobotomia, uma operação que transforma homens em vegetais, celebrizada por Jack Nicholson no filme "Voando sobre um Ninho de Cucos".

Durante 49 anos, até José Saramago ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, António Egas Moniz era o único Nobel português. Mas se Saramago congregou o orgulho nacional, o neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa sempre foi sinónimo de um certo embaraço, pois o seu nome está associado com um procedimento cirúrgico de prestígio duvidoso: a lobotomia. Egas Moniz procurava encontrar formas de tratar doenças mentais incuráveis, mas um médico norte-americano usou e abusou da sua técnica, tornando-o numa prática com laivos criminais.Foi a investigação no campo da cirurgia cerebral que valeu a Egas Moniz o Nobel da Medicina de 1949, partilhado com o suíço Walter Rudolf Hess. "A descoberta do valor terapêutico da leucotomia em algumas psicoses" foi o principal argumento da atribuição do galardão a Egas Moniz, que inventou também a angiografia - uma forma de tornar visíveis áreas do cérebro ou do sistema circulatório, injectando uma solução que faz contraste nas radiografias. Este trabalho, aliás, tinha-o já colocado na lista dos candidatos ao Nobel, em 1928 e 1933. Mas em 1935, Carlyle Jacobsen e John Fulton, cientistas da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, apresentaram em Londres os chimpanzés que tinham tornado dóceis depois de lhes terem cortado o lobos pré-frontais (lobotomia), áreas do cérebro relacionadas com o comportamento emocional e social. Egas Moniz estava presente na conferência e teve a ideia de tentar o mesmo procedimento em seres humanos. Todos os animais têm lobos frontais reduzidos, ao contrário dos seres humanos. E, uma vez que apenas os humanos sofrem de doenças mentais, parecia plausível que uma intervenção cirúrgica nesta zona desse bons resultados.Egas Moniz teorizava que algumas doenças mentais eram causadas por uma ligação anormal dos circuitos neuronais, que os fazia viver repetidamente os mesmos pensamentos patológicos. Essa ligação, julgava ele, poderia ser interrompida através da cirurgia. Juntamente com o cirurgião Almeida Lima, experimentou primeiro injecções de álcool, através de buracos feitos no crânio a sete pacientes. A seguir, experimentou cortar mesmo as ligações fibrosas (a chamada "matéria branca") que unem os lobos frontais. Nasceu assim a leucotomia, ou corte da matéria branca.Os resultados não eram muito conclusivos: apenas cerca de um terço dos pacientes operados apresentavam melhorias. Outro terço ficava sem alterações e os restantes pioravam. A apatia e a insensibilidade afectiva eram efeitos secundários frequentes. No entanto, Egas Moniz não testou muito o seu procedimento, nem acompanhou os pacientes que submeteu a este tratamento durante muito tempo.Mas, apesar de alguma "inconsistência na fundamentação científica da intervenção de Moniz", como reconhece o neurocirurgião João Lobo Antunes no prefácio da fotobiografia "Retrato de Egas Moniz", lançado hoje pelo Círculo de Leitores, o trabalho de Egas Moniz foi apoiado pelos mais sólidos neurocientistas da época. A verdade é que não existiam medicamentos eficazes para o tratamento das desordens psiquiátricas - os doentes acabavam encerrados em asilos e até jaulas -, pelo que a leucotomia parecia uma esperança. Isto ainda que a taxa de sucesso fosse praticamente semelhante aos 25 a 30 por cento de casos de doentes que recuperavam espontaneamente. Egas Moniz publicou os seus resultados em várias revistas internacionais, mas realçava que a técnica deveria ser usada apenas em doentes para os quais não havia outra esperança. Mas, nos Estados Unidos, o neurologista Walter Freeman tornou-se um adepto fervoroso desta intervenção. Tal como o português, Freeman começou a trabalhar neste campo em meados da década de 30, e operou cerca de 20 mil pacientes até 1949, ano em que o Nobel foi atribuído a Egas Moniz. Nas suas mãos, no entanto, a cirurgia tornou-se uma técnica verdadeiramente terrível: inseria um picador de gelo pelos olhos dos pacientes, com um martelo e anestesia local, e destruía de uma forma indiscriminada os seus lobos frontais. Por isso baptizou o seu método lobotomia (corte dos lobos) em vez de leucotomia (em que apenas a matéria branca era cortada). Era um procedimento de uma violência tal que mesmo cirurgiões de tarimba que assistiam às suas intervenções vomitavam e desmaiavam. Só que este método era considerado uma forma barata de lidar com os doentes mentais - a maioria ficava completamente apática e, logo, inofensiva -, prisioneiros ou simplesmente pessoas que se revoltavam com a sua vida. Freeman não tinha pejo em confessá-lo, dizendo que era melhor para um paciente "ter um intelecto simplificado capaz de acções elementares do que um intelecto em que reina a desordem da síntese subtil. A sociedade pode acomodar-se ao trabalhador humilde, mas justificadamente desconfia do pensador louco".O doente não tinha de dar o seu consentimento: bastava que um parente ou responsável pelo paciente manifestasse esse desejo. A actriz norte-americana Frances Farmer, cuja antipatia pela autoridade e simpatias pelo comunismo levaram a que fosse internada numa instituição psiquiátrica, foi uma das suas vítimas. A história foi contada num filme com Jessica Lange e numa canção dos Nirvana. A distinção do Nobel para Egas Moniz surgiu já bem perto dos dias finais da lobotomia. "Glória à ciência portuguesa", gritava o "Diário de Notícias" na primeira página da edição de 28 de Outubro de 1949. Freeman ganhou novo impulso e redobrou a sua actividade, mas a lobotomia começou a ser abandonada a partir de 1952, quando teve início a época do tratamento das desordens psiquiátricas através de medicamentos. Reconheceu-se que a lobotomia não era uma cura, mas uma espécie de colete-de-forças irreversível, que permitia lidar facilmente com os doentes.