Garrett: a vida e o homem

Mais do que a obra, é o homem e as atribulações da sua vida, que estará no centro da mini-série de 4 episódios que a RTP produzirá em torno de Almeida Garrett. Com realização de Francisco Manso e argumento de António Torrado, conta no seu elenco com nomes como Eunice Muñoz, José Wilker ou Zezé Motta. A poucos dias do início das filmagens, o PÚBLICO falou com o realizador.

Com início da rodagem marcada para 17 de Outubro, em Angra do Heroísmo, Açores, a RTP vai produzir uma mini-série biográfica de ficção sobre Almeida Garrett (1799-1854) com argumento e diálogos de António Torrado e realização de Francisco Manso.O primeiro dos quatros episódios, de 52 minutos cada, será exibido em horário nobre no primeiro canal da televisão pública, no princípio do ano. Segundo Francisco Manso, 50 anos - conhecido do grande público pela longa-metragem "O Testamento do Senhor Napumoceno" -, a série é "uma forte aposta da RTP", que conta também com a participação do Ministério da Cultura (MC), através do Instituto do Cinema, do Audiovisual e Multimédia. Ao projecto, no âmbito das comemorações do bicentenário do nascimento do escritor, associaram-se ainda as câmaras municipais do Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Coimbra, Montemor-o-Velho e Angra do Heroísmo, a Região de Turismo do Centro, a Reitoria da Universidade de Coimbra e o Governo Regional dos Açores, através das Secretarias Regionais da Cultura e do Turismo. Com um orçamento total de 140 mil contos, dos quais 80 mil oriundos da RTP e 32 mil do MC, Manso conta com uma equipa técnica com mais de 40 elementos, um elenco de 80 actores a que se têm que juntar, em cenas de reconstituição histórica mais delicadas, cerca de 300 figurantes. Entre o triângulo em que habitualmente é enquadrada a figura de Garrett - o político liberal, o escritor romântico e o "dandy" incompreendido - "a série", sublinha Manso, "quer dar sobretudo a conhecer, mais do que a obra, o homem, dos seus primeiros passos até à morte: os seus percursos contraditórios, as suas paixões amorosas, as lutas políticas em que se envolveu, num período particularmente complexo da História de Portugal".Desde Março a preparar a série, em particular os exteriores onde decorrerão as filmagens, Francisco Manso está consciente do desafio que tem pela frente (sobretudo quando as reconstituições históricas "made in Portugal" raras vezes conseguem ter consistência). "Tratando-se de uma biografia filmada não queremos deixar nada ao acaso", afirma o realizador. E dá exemplos: a cena do desembarque das tropas de D. Pedro na Praia do Mindelo, no Porto, em 8 de de Julho de 1832, terá por cenário a fragata "D. Fernando e Glória"; os exílios no estrangeiro a que, ao longo da sua atribulada vida, foi forçado serão filmados em lugares "que tiveram vida e ainda hoje a mantêm" - como o Solar dos Condes de Resende, o Museu Romântico do Porto, na Quinta da Macieirinha, ou a Casa da Cultura. Interiores que serão, garante Francisco Manso, devidamente enquadrados por imagens captadas em Inglaterra, França e Bélgica, evocativas dos períodos de exílio do autor de "Frei Luís de Sousa" naqueles países.Outro ponto de honra, para Francisco Manso, é o guarda-roupa: "O seu rigor e qualidade, numa obra com estas características, é outro aspecto determinante e que não será descurado." "É um projecto bastante ambicioso e complexo porque tem muitas mudanças de 'décors'. Vamos filmar numa época do ano", nota o realizador, "em que a luz é mais bonita e donde se pode tirar um maior partido. Mas em que, simultaneamente, os dias são mais curtos e em que o estado do tempo é mais imprevisível. A qualquer momento pode chover, o que torna as coisas mais complicadas." O plano de rodagem está traçado: entre 17 e 24 de Outubro decorrem as filmagens em Angra do Heroísmo, seguindo-se Lisboa (27 de Outubro a 4 de Novembro), Coimbra (de 5 a 12 de Novembro), Montemor-o-Velho (12 a 21 de Novembro) e, finalmente, o Porto (entre 24 de Novembro a 18 de Dezembro). "Vamos trabalhar durante 9 semanas em rodagem contínua, 11 horas por dia e apenas com um dia de folga por semana", refere o realizador. Apesar de tudo, Francisco Manso está optimista. Além de estar satisfeito com o argumento de António Torrado - "excelente", nas suas palavras - conta com um naipe de actores em que se destacam Eunice Muñoz (que interpretará a criada Brígida que tanto influenciou o jovem João Baptista), os brasileiros José Wilker (na figura do ministro plenipotenciário António de Vasconcelos) e Zezé Motta, além de Carlos Oliveira (Almeida Garrett), João Mota, Júlio Cardoso, António Reis, António Capelo, Carlos César, Belarmino Ramos, Paula Guedes, Sofia Sá da Bandeira ou Carla Bolito.A RTP2 já se associou às comemorações do bicentenário do nascimento do autor de "Viagens na Minha Terra", com o documentário realizado por Anabela Saint-Maurice, "A Viagem de Garrett", que foi para o ar a 27 de Fevereiro.

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