Um segredo mal guardado

"Uma História Secreta", assim se chama a nova compilação dos Divine Comedy. Mas é uma verdade relativa, reconhecem Neil Hannon e companhia, que nesta entrevista também admitem que reunir os seus êxitos foi uma espécie de "massagem ao ego".

Os Divine Comedy estão de malas aviadas para a "major" Parlophone. De maneira que, para acertarem contas com a independente Setanta, na qual editaram seis álbuns de estúdio desde 1993, acabam de lançar um "best of" intitulado "A Secret History", que contém temas tirados desses discos todos, à excepção do primeiro, que hoje renegam. Estiverem em Lisboa para um "showcase" promocional no Lux, na noite de 26 de Agosto, antecedida no dia anterior por uma sessão de autógrafos na Fnac do Colombo e de uma maratona de entrevistas no hotel onde ficaram hospedados. O que é habitual é os Divine Comedy seram exclusivamente representados pelo cantor e compositor Neil Hannon. Desta vez, no entanto, Hannon dividiu com o percussionista Rob Ferrer e o guitarrista Stuart Bates os seus compromissos com a imprensa. A ideia principal que os três quiseram fazer passar é que esta compilação é um segredo não particularmente secreto. Neil Hannon declarou: "A compilação chama-se 'Uma História Secreta', mas a verdade é que há diferentes níveis de secretismo - em territórios como Portugal só tardiamente nos tornámos conhecidos, ao passo que em França por esta altura já devem estar fartos de nós. Acabámos por optar por dar a primacia aos êxitos, porque, quando se compra um 'best of', é mesmo para ter aquelas canções que se ouviu sem parar na rádio. Nós até tivemos êxitos, bastantes mais que a maior parte das bandas; só que, como nos mantivemos incógnitos durante tanto tempo temos tendência para desenvolver uma mentalidade do tipo 'nós não somos realmente famosos'. De modo que esta compilação é um bocado uma massagem ao ego."Stuart Bates reforçou o raciocínio: "A maior parte das canções escolheram-se a si mesmas, por assim dizer: é uma compilação dos singles, dos que foram lançado e dos que também o poderiam ter sido nos dois primeiros álbuns - porque desses discos não se fizeram singles." Rob Ferrer adiantou um objectivo mais prosaico: "Ainda não conseguimos atingir o nosso propósito maior, que é sermos realmente famosos. A BBC 1 tem um programa semanal com os maiores golos da jornada e passam sempre as mesmas músicas, coisas do tipo dos Lightining Seeds. Queremos que as nossas canções também entrem nesse programa."Além das selecções do fundo de catálogo, "A Secret History" inclui dois novos temas, também explicados pelo percussionista: "'The pop singer's fear of the pollen count" foi uma canção que primeiro gravámos para o álbum de estreia e que era um dos temas favoritos do público nos nossos concertos, por isso decidimos regravá-la. 'Gin soaked boy' foi escrita por alturas de 'Casanova', mas então achámos que não estava no espírito do resto do disco. Ficou pronta praticamente no dia em que a gravámos - houve muita experimentação envolvida e, como era algo de tão novo, preferimos deixá-la de fora."Revendo a carreira dos Divine Comedy, esta compilação pode também funcionar como um resumo peculiar dos anos 90. É o que pensa Neil Hannon: "Os anos 90 foram uma década perfeita para nós. Graças aos samplers tornou-se possível às pessoas entrar em contacto com o velho som das grandes orquestras e com o easy listening, fazendo-as compreender que existe vida para além da pop convencional. Não é que nos consideremos especialmente pós-modernos, mas não é menos evidente que esta corrente nos tem ajudado a chegar ao público."Há uma cidade para cada discoNa capa de "The Secret Story" Neil Hannon aparece "nas nuvens", o que é natural, visto esta ser uma compilação das suas cintilações nos tops. Mas, antes disso, cada álbum foi ilustrado por fotos suas em diferentes cidades. Aproveitámos para lhe perguntar a que se deve a associação dos Divine Comedy a esses espaços urbanos. O que é outra maneira de apresentar a retrospectiva que a presente compilação ensaia."Liberation": Londres, Agosto de 1993"Os discos dos Divine Comedy não são sobre cidades específicas, mas as sessões fotográficas acabaram sempre por ser naquelas que melhor os traduziram. Acabo por escolhê-las quase por instinto, mas também em função das minhas possibilidades económicas. Assim tirei as fotos de 'Promenade' em Richmond Park, em Londres, simplesmente porque na altura não tinha dinheiro para ir mais longe. De resto, até tirei umas fotos com um veado, mas acho que fiquei desfocado." "Adoro a pirâmide do Louvre, porque é possível ver os edifícios circundantes do século XVIII através dos seus vidros, que os estilhaçam em milhares de fragmentos. Também escolhi Paris, porque nessa altura eram mais os franceses do que os ingleses que compravam os nossos discos. Para além disso, eu tinha um grande fixação no cinema da nouvelle vague.""Bom, aí os bilhetes de avião foram bastante mais caros, mas Veneza era quase obrigatório, atendendo ao tema do álbum, que era sobre sexo e a liberdade interior. Além disso, atraiu-me a ideia de aparecer na capa de um álbum com a palavra 'Casanova' escrita em letra grande. Fizemos sessões fotográficas durante três dias em Veneza e a maior parte resultou num desastre. No final, porém, havia dez fotos brilhantes e a que foi escolhida para capa era perfeita para dar conta da vertente superficial do álbum. Depois dei entrevistas para a promoção desse álbum em Florença, uma relação que me ocorreu por causa do romance 'A Room with A View'. A transposição cinematográfica no filme "Um Quarto com Vista sobre A Cidade" de James Ivory foi importantíssima para mim durante a adolescência. Não é uma obra de arte, mas deixou-me espantado por celebrar o sexo na completa ausência de romance." "Toda a gente acha que somos tão europeus, mas nesse álbum assumi uma atitude de 'crooner' à americana, de modo que as fotos tinham de ser tiradas em Nova Iorque. Fizemos uma sessão no museu Guggenheim e no Central Park, mas as fotos que saíram são de mim dentro de um táxi nova-iorquino, quando chovia a cântaros. Porque a atmosfera de chuva com muitos azuis pareceu-me assentar que nem uma luva a álbum sobre o amor não correspondido.""Foi uma situação bastante irónica. Escolhi Viena por causa da sua conotação com a fantasia artística do final do século passado. Mas a verdade é que encontrei muito pouco, ou mesmo nada desse legado na cidade actual. Fui à procura de uma cidade de arte nova, e o que era em arte nova era pouco mais que o topo dos edifícios. As fotografias que lá tirei dão conta do que encontrei no lugar disso: muito granito e um simbolismo hipersoturno. O que acabou por se revelar perfeito para traduzir a atmosfera do álbum, que é bastante monolítico."