Três milhões para remodelar Bom Jesus de Braga

O trânsito automóvel está a mais no Bom Jesus do Monte, em Braga. O projecto de remodelação da estância, avaliado em três milhões de contos, vai proibir a entrada de carros no recinto. De futuro, quem for ao santuário vai ter que o fazer a pé e pagar para lá entrar. Para que as pedras barrocas, cobertas de múltiplos simbolismos, possam transpirar o seu verdadeiro significado e as árvores não se confundam com o lixo.

Um área de cinquenta e dois hectares pode acolher um pouco de tudo. No caso da estância do Bom Jesus, em Braga, há muito que as tílias e acácias centenárias convivem com a multidão de turistas que, nesta época do ano, afluem ao santuário, que tem a maior via-sacra em pedra do Mundo. Os escadórios e monumentos do século XVIII, com a marca inconfundível do barroco, os jardins, que inspiraram Camilo Castelo Branco, coabitam, de há uns anos para cá, com um novo elemento: o automóvel. Em preparação há já quatro anos, o projecto de remodelação do Bom Jesus (proposto pela confraria do Bom Jesus do Monte) pretende conferir alguma paz ao caos reinante. Prevê um investimento de três milhões de contos, tem um prazo de dez anos para ser concretizado e espera a aprovação do Fundo de Turismo, para avançar.Em Junho de 2001, uma parte da remodelação do Bom Jesus já terá que estar pronta. O que quer dizer que, ainda este ano, terão que ser lançados os concursos públicos para as primeiras intervenções na instância: a recuperação do Hotel Sul-Americano (fechado há cinco anos) e do Hotel do Lago (em ruínas há cinquenta anos). Mas a principal alteração ao modo de funcionamento da instância tem a ver com os acessos. Na periferia do Bom Jesus, serão construídos quatro parques de estacionamento, como adiantou ao PÚBLICO José Marques, presidente da referida confraria. Num qualquer fim-de-semana do ano, a afluência de carros ao monte pode chegar aos dois mil veículos, que vão estacionando pelos locais permitidos e os não permitidos, quando o espaço escasseia. Já no Verão, a fila de carros pode começar na Rodovia, no início da subida para o monte. O plano de remodelação do Bom Jesus, a que o PÚBLICO teve acesso, é bastante claro quando refere que aquele equipamento "evoluiu para uma situação de 'parque suburbano'", determinando, por isso, uma "carta de acessos e circulação, a vedação da área da instância e a criação de acessos exclusivos por 'portas'".Todo o percurso sagrado (que inclui o Jardim do Éden e os Passos da Ressurreição, neste momento separados pelo trânsito automóvel), assim como a mata e restante área circundante, serão transformados em zona pedonal, havendo até a intenção de passar a cobrar-se uma quantia em dinheiro para aceder à instância. Esta imensa zona pedonal será revestida a granito. Com a renovação da zona pedonal, será igualmente tida em conta a reflorestação de algumas espécies arbóreas, algumas delas parcialmente destruídas, devido a podas mal feitas. A tília, o carvalho, o tulipeiro e as magnólias serão replantadas, enquanto que as mimosas serão, em parte, erradicadas, por estarem a ter um crescimento excessivo.À parte este aspecto sagrado, a confraria quer ainda explorar as potencialidades turísticas do Bom Jesus, pelo que vão ser espalhadas pelo parque, um pouco à semelhança do que já acontece hoje, casas de artesanato. Uma parte da mata será adaptada à prática do golfe, ao mesmo tempo que haverá também uma área restrita para os piqueniques, "para evitar o lixo", sublinha José Marques. Do projecto, faz igualmente parte a construção de uma piscina semicoberta, para servir os hotéis, e de um "court" de ténis.A par desta reorganização do espaço, haverá a reabilitação do espólio patrimonial do Bom Jesus. A começar pelos já referidos hotéis do Lago e Sul-Americano. A poente, mesmo à beira do Sul-Americano, o Salão de Chá (também conhecido por "Casino") que é aproveitado para banquetes, vai ser renovado, assim como a colunata em ruínas que ladeia este edifício e que José Marques diz já ter sido "um ringue de patinagem". As traseiras desta silenciosa casa branca escondem um jardim cuidado, com bancos em pedra à sombra das árvores e um gradeamento verde que expõe a cidade.A ideia é recuperar o Salão de Chá, mantendo a função de casa de banquetes, e renovar totalmente o edifício suspenso por colunas (agora com a pintura descascada coberta por musgo), de modo a transformá-lo num salão polivalente para congressos. A antiga casa dos correios passará a ser um restaurante típico com preços acessíveis (a constituir uma alternativa aos preços dos restaurantes do Hotel do Elevador e do Parque, recentemente renovados) e o museu será também reaberto. "Serão retocadas todas as capelas, desde as imagens, as estátuas de barroco e neoclássico do escadório, cada uma com um simbolismo próprio...", enumera o presidente da confraria.Como o monte sagrado nasceu indefeso e alheio à evolução do tempo, há uma imensidão de aspectos práticos que só agora estão a ser repensados. Um deles são as casas de banho. As centenárias e exíguas casas de banho junto ao Hotel do Elevador (também ele centenário) não foram feitas a pensar no turismo de massa e, por isso, estão fechadas, por falta de condições, sendo urgente programar uma nova estratégia higieno-sanitária.Os custos do projecto, que só estará concluído em 2010, são de três milhões de contos, em parte comparticipados pelo Fundo do Turismo. Mas José Marques espera que a confraria do Bom Jesus do Monte adquira o estatuto de utilidade pública para pedir o apoio de mecenas. Enfim, prevê-se que todo um espólio barroco e neoclássico que jaz no Bom Jesus seja reaproveitado, de modo a que o lugar sagrado de outrora adquira a paz original.