Mais do que uma questão de sobrevivência

Desde 1997 que a imprensa musical em Portugal não tem parado de crescer. Surgiram novas publicações, experimentaram-se novos formatos e exploraram-se novos conteúdos. Quais as causas que estão por detrás deste surto? Limita-se a acompanhar o crescimento do mercado? E o futuro como será? A palavra aos profissionais da escrita.

O acentuado crescimento que o mercado musical português conheceu nos últimos dois anos originou toda uma nova frente de investimentos em sectores de actividade directa ou indirectamente ligados à esfera da música. Para além da indústria fonográfica, que registou em 1998 um incremento de vendas bem acima da média europeia, o negócio das promotoras de concertos parece ir de vento em poupa, como o prova a oferta maciça de espectáculos calendarizados para 1999. Mas não só. A imprensa musical foi outro dos ramos em que o influxo mercantil mais se fez sentir, e nunca como hoje coexistiram tantas publicações de âmbito musical no mercado português. A juntar às publicações especializadas já existentes - o semanário "Blitz" e os suplementos Sons, do PÚBLICO, e "DN Mais", do "Diário de Notícias" - são vários os exemplos de novos títulos que a partir de 1997 começaram a surgir nas bancas. São os casos da "Promúsica", "Dance Club" e "Riff", publicações de âmbito estritamente musical, e da "Voice", "City", "Inside" e "Raio X", que extravasam o nicho musical e inscrevem os seus conteúdos em outras áreas da cultura popular, com particular incidência no cinema e nos jogos vídeo. E a enxurrada não se fica por aqui: no presente mês de Agosto espera-se o primeiro número da revista "Muzyka" e em Setembro surgirá a "On", uma publicação nascida de um acordo entre a Rádio Comercial e a Rádio Cidade que será distribuída gratuitamente com o semanário "Independente". Paralelamente ao circuito das publicações especializadas, o espaço reservado à música tem vindo de igual modo a crescer na maioria das revistas destinadas aos "teenagers" - "Super Pop", "Super Jovem", "Bravo", "Ragazza", "100% Jovem" e "Teenager" -, no muito alternativo universo das "fanzines" e ainda em títulos como a "Flirt", com linhas editoriais que incidem nos diferentes aspectos da cultura contemporânea. Do conjunto de opiniões recolhidas pelo PÚBLICO junto dos responsáveis pelas diferentes publicações, a ideia geral é a de que este surto de novos títulos se limitou a acompanhar o crescimento quantitativo do mercado musical português, embora nem tudo se resuma a uma questão de números. Para Anthony Smith, director da revista "City", "o mercado português, depois de um crescimento em termos de quantidade, vive agora um 'boom' em termos de qualidade. Como acontece noutros países europeus, começa a haver uma maior segmentação do mercado e existem nichos de mercado com produtos a condizer". A prová-lo está o aparecimento de duas publicações que abordam géneros musicais específicos, casos da "Dance Club", dedicada à música electrónica, e da "Riff", que consagra as suas páginas à linha mais dura do rock.Mas por detrás da aparente vitalidade do crescimento esconde-se um conjunto de questões, mais ou menos consensuais, que confirmam que nem tudo são rosas no jardim da música escrita em Portugal. A frágil penetração da imprensa nos hábitos de leitura dos portugueses é algo com que as diferentes publicações inevitavelmente se debatem, ao mesmo tempo que surge um dado incontornável: quem ouve música não tem necessariamente que ler sobre ela, mas quem a lê é por regra um ouvinte leal e dedicado. Por outro lado, a frequência com que novos títulos aparecem e desaparecem traz à tona a velha questão da fidelidade do leitor, na medida em que cria desequilíbrios nas expectativas do mercado e gera desconfiança entre o público consumidor. As publicações necessitam por isso de cada vez mais tempo para sedimentar um nome na praça pública - o tempo provou não ser o melhor aliado da maioria dos "aventureiros". Também ao nível da qualidade são várias as questões que se colocam. Segundo João Botas, chefe de redacção da revista "Promúsica", os profissionais da escrita musical, à imagem do que ocorre nos grandes órgãos de comunicação social, são de uma forma geral mal pagos e não têm estabilidade na carreira, o que por vezes se reflecte na respectiva produção jornalística. E lança a este respeito novas e peculiares achas para a fogueira: "É deveras curioso o elevado número de jornalistas que estão nesta altura a trabalhar em editoras, não só porque se ganha muito mais, mas também por haver excesso de jornalistas para o mercado que temos." Ainda a propósito da relação entre os profissionais da comunicação social e os misteres da indústria fonográfica, Botas avança duas questões de fundo que atravessam toda e qualquer prática jornalística: "A publicidade rareia, e, como é escassa, acaba por funcionar como uma fonte de pressão sobre a orientação editorial das publicações. As editoras, como principais anunciantes, sabem disso muito bem. E depois há a bem conhecida falta de transparência, para não dizer promiscuidade, na relação entre editoras e 'media'. As viagens ao estrangeiro para entrevistas ou concertos são disso um bom exemplo."As publicações musicais que apareceram recentemente no mercado português debatem-se na sua maioria com os condicionamentos financeiros inerentes a um negócio que a quase totalidade dos seus responsáveis considera "mais arriscado que lucrativo". São poucos os que acreditam que as dimensões do mercado sejam suficientes para acolher um número tão significativo de títulos, e a opinião geral é a de que uma triagem terá inevitavelmente de ser feita nos próximos tempos. Numa altura em que as expectativas da indústria fonográfica para os próximos anos apontam para uma atenuação do crescimento, as diferentes publicações enfrentam uma linha de demarcação decisiva: desaparecer ou prosseguir. Aqui importa menos a garantia da sobrevivência e mais a aposta numa evolução sustentada capaz de abrir as portas a um futuro que se pretende estável e duradouro. Mas há ainda assim quem acredite que tudo pode ser diferente. Luís Rey, director da revista "Voice", é da opinião de que existe espaço para uma série de publicações a partir do momento em que elas sejam diferenciadas e bem feitas: "O jornalismo musical em Portugal está preso a um conjunto de estigmas que fazem com que as publicações sejam muito semelhantes entre si: dá-se demasiado valor à crítica musical, não se trabalha a imagem de forma coerente com o tipo de texto e fazem-se reportagens que se limitam a acompanhar os lançamentos discográficos. É contra isto que se deve lutar, e a sobrevivência das diferentes publicações que hoje existem no mercado depende cada vez mais da novidade que cada uma delas pode e deve induzir."