O adeus a Sua Majestade

Marrocos despede-se hoje de Hassan II, o seu rei há 38 anos. Chefes de Estado e monarcas de pelo menos 20 países começaram já a chegar a Rabat para a última homenagem a uma figura elogiada pelo seu papel na paz israelo-árabe, mas durante muito tempo criticada pela situação dos Direitos Humanos no reino. O seu filho e sucessor Mohammed VI tornou-se, horas depois de anunciar a morte do pai, no novo soberano marroquino. Pouco conhecido, preparado para reinar mas mantido até agora à sombra de Hassan, Mohammed VI recebe, aos 35 anos, uma pesada herança. Terá que prosseguir o processo de normalização das relações com a Argélia, enfrentar a difícil questão do Sara Ocidental, e gerir os equilíbrios internos no reino, governado por um primeiro-ministro socialista. Os marroquinos esperam, sobretudo, que o jovem rei modernize o país.

Reis, Presidentes e governantes de todo o mundo estarão hoje em Rabat para assistir ao funeral do rei Hassan II de Marrocos, vítima, sexta-feira, de um ataque cardíaco, aos 70 anos. Os dirigentes mundiais serão recebidos pelo novo monarca marroquino, Mohammed VI, o filho mais velho de Hassan, que ontem foi entronizado, horas depois do anúncio da morte do seu pai. Hassan será enterrado no Mausoléu Mohammed V, ao lado do corpo do seu pai e do seu irmão. Marrocos iniciou 40 dias de luto. "O meu pai, Sua Majestade o Rei Hassan, que Deus abençoe a sua alma, morreu de ataque cardíaco às 16h30 [de sexta-feira] devido a complicações que não puderam ser tratadas", anunciou, solenemente, o príncipe herdeiro aos marroquinos, numa comunicação televisiva. Horas depois, a televisão mostrava os principais dignitários do reino e comandantes do Exército a beijarem a mão ou o ombro do novo soberano, de 35 anos, na sala do trono do palácio de Rabat. As rádios e a televisão começaram a referir-se ao príncipe herdeiro Sidi Mohammed como Sua Majestade, Comandante dos Crentes. A transição pacífica estava assegurada.Milhares de marroquinos juntaram-se nas horas seguintes em frente do palácio, recitando versos do Corão e chorando, entre gritos e desmaios, a morte do homem que reinou em Marrocos durante os últimos 38 anos. A meio da tarde de ontem, Mohammed VI apareceu pela primeira vez em público desde a entronização, saudando timidamente a pequena multidão, antes de entrar num carro.Mohammed VI recebeu ontem inúmeras mensagens de condolências, e elogios ao seu pai - Bill Clinton disse que "o Médio Oriente perdeu um dos seus maiores arquitectos da paz" -, acompanhados já por alguns sinais políticos que revelam as expectativas em relação ao seu reinado. Abdelaziz Bouteflika, Presidente da Argélia, país com o qual Marrocos tem há muito um relacionamento difícil, expressou a "grande estima" que ele e o povo argelino tinham por Hassan II e decretou um período de luto de três dias. A autoproclamada República Árabe Saraui Democrática, do Sara Ocidental (anexado por Marrocos), expressou também "sinceras condolências", embora frisando a necessidade de realizar o referendo sobre a autodeterminação no próximo ano. Hoje, o sucessor de Hassan II receberá pelo menos 20 dirigentes mundiais, entre os quais o Presidente norte-americano, Bill Clinton, o francês, Jacques Chirac, o egípcio, Hosni Mubarak, o Presidente e primeiro-ministro de Israel, Ezer Weizman e Ehud Barak, e o Presidente palestiniano, Yasser Arafat (Barak e Arafat adiaram um encontro previsto para ontem para discutir o processo de paz).Israelitas e árabes lembram-no sobretudo pelo seu papel nos acordos de paz entre o Estado judaico e o Egipto. Ontem Arafat afirmou que, para os palestinianos, a morte do monarca marroquino é "uma catástrofe". Jacques Chirac, que expressou uma "imensa pena" pelo desaparecimento de Hassan II, declarou que "a França perdeu um homem que amava o nosso país e amava os franceses". O Presidente russo, Boris Ieltsin, prestou homenagem à forma "sábia" como o rei conduziu os assuntos do Estado. O Papa João Paulo II recordou-o como "um homem desejoso de desenvolver o diálogo entre os crentes e de contribuir para a paz".Herdeiro político de uma figura com todo este peso, Mohammed VI, a quem o pai deu pouca visibilidade, terá agora que desenvolver um estilo próprio de reinar. Rémy Leveau, um investigador e especialista francês em questões do Magrebe, considera que o novo rei deve apoiar-se bastante no primeiro-ministro, o socialista Abderrahmane Yousoufi, mas sublinhou que "Marrocos é um país que precisa de um símbolo monárquico forte". Na opinião deste analista, a nível interno os militares são mais perigosos para o poder do que os islamistas, e uma eventual retirada do Sara Ocidental (na sequência do referendo de Julho do próximo ano) poderá desestabilizar o Exército. Mas o principal desafio de Mohammed VI será a modernização de Marrocos, que em 1998 estava, na lista dos países por nível de desenvolvimento, muito atrás da Argélia, da Tunísia, do Egipto e da Síria em indicadores como a escolaridade, os cuidados de saúde ou o Produto Interno Bruto por habitante.Com Mohamed VI a assumir o poder, poucos meses depois de outro jovem monarca, o rei Abdallah da Jordânia (cujo pai, o rei Hussein, morreu em Fevereiro), o mundo árabe começa, a pouco e pouco, a conhecer uma nova geração de líderes.