É o sapato que vai cantar ou é a Cesária?

Esta noite, num Grande Auditório do Centro Cultural de Belém completamente esgotado, Cesária Évora vai receber uma homenagem de Portugal, organizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, através do Instituto Camões, e será agraciada com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuído pelo Presidente da República. Antes de Cesária e dos seus dez músicos subirem ao palco, actuarão Elba Ramalho e o grupo Voz de Cabo Verde, que se deslocaram de propósito a Lisboa. É a consagração portuguesa da cantora caboverdiana que, a partir de França, o mundo já tinha consagrado. Em entrevista ao PÚBLICO, Cesária fala da relação com Portugal, de Amália, das viagens, do álcool que deixou de beber, do dia a dia no Mindelo - a sua cidade, na ilha de São Vicente. É lá que, quando parar de andar pelo mundo, vai ficar deitada de costas, a contar estrelas.

Aos 57 anos, Cesária, a Cize do Mindelo, continua coquete: colares, pulseiras e anéis de ouro, o cabelo bem arrumado, as unhas das mãos e dos pés pintadas de azul petróleo. Senta-se para falar, enquanto fala fuma muitos cigarros e bebe copos altos de café com leite (lembra-se do dia exacto em que deixou de beber álcool). Porque acha que não sabe falar português, tem uma intérprete, a jovem Jaqueline, a seu lado. Mas Jaqueline pouco entrará nesta conversa. Cesária fala português e fala crioulo, onde quer e quando quer. Desde que seja de pés descalços, como agora. É o hábito. É do Mindelo, onde o chão é mais quente, "uma coisa assim que a gente quer, mesmo com falta de chuva". CESÁRIA ÉVORA - Com certeza. Havia de ser com sapato por causa de uma homenagem?Lá no tempo colonial não era de brincadeiras. Muita coisa se passou naquela terra. Eu sempre tive a minha liberdade, quando queria tomar o meu 'double whisky', eu tomava, podia ser no meio de ministro, de presidente, não me interessava, porque eu estava a comprar com meu dinheiro... [ergue o copo para a máquina fotográfica] É para dizer que não é whisky, é café com leite! Ando com um fastio de álcool, deixei de beber em 1994, 15 de Dezembro, vai fazer cinco anos. Eu tinha que apontar o dia! Agora o dia em que comecei é que já não me lembro... [risos]