Oposição sérvia insultada no Kosovo

Uma delegação da oposição sérvia liderada por Zoran Djindjic, líder do Partido Democrático (DS, oposição), visitou ontem o Kosovo mas foi acolhida com hostilidade por um grupo de camponeses sérvios quando chegou ao mosteiro de Gracanica, arredores de Pristina. Cerca de cem pessoas em fúria, apoiantes do Presidente jugoslavo, Slobodan Milosevic, segundo a AFP, rodearam Djindjic e acompanhantes, censuram-nos por se deslocarem à província demasiado tarde e tentaram mesmo arrancar máquinas fotográficas a alguns jornalistas. Escoltado por tropas britânicas da força multinacional (Kfor), e antes de regressar a Pristina para manter conversações com o presidente em exercício da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Knut Vollebaek - na quarta-feira as autoridades jugoslavas recusaram emitir um visto a este responsável que pretendia deslocar-se ao Montenegro -, o líder oposicionista conversou no mosteiro com representantes da comunidade sérvia local, e voltou a ser insultado à saída. "Esperava este tipo de provocações", referiu Djindjic, a principal figura da coligação oposicionista Aliança para a Mudança (SZP) que prossegue uma campanha de protestos no país para exigir a demissão de Milosevic. Para a tarde de ontem decorreu nova acção de protesto da SZP em Prokuplje (250 quilómetros da Sul de Belgrado), apesar do anúncio de uma contra-manifestação dos partidários do Presidente jugoslavo para o mesmo local e à mesma hora. Djindjic e outros dirigentes da coligação compareceram nesta manifestação que juntou perto de quatro mil pessoas segundo a AFP. O Partido Socialista da Sérvia (SPS, no poder), acabou por desistir da sua convocatória, mas um membro do SPS não prescindiu de subir ao terraço da sede do seu partido e disparar seis tiros para o ar quando decorria o comício. Não se registaram feridos. A mediática deslocação do chefe do DS ao Kosovo coincidiu com o prosseguimento do processo de "recomposição étnica" na região. O comandante das tropas alemãs da Kfor, general Fritz von Korff, informou que 16 casas foram incendiadas quarta-feira no velho bairro sérvio de Prizren (Sul do Kosovo). O general deplorou a "indiferença" dos habitantes perante "uma cidade que perde a sua imagem" e admitiu que as suas tropas não podem impedir novos incêndios "sem a colaboração da população". Só na quarta-feira, a polícia militar alemã registou 91 incidentes no seu sector, incluindo roubos, pilhagens e incêndios.Na semana passada, milhares de albaneses saíram à rua para saudar a entrada em Prizren das primeiras tropas do contingente enviado pela Turquia, e esta cidade é agora considerada como um dos centros de onde emerge a nova vaga de "limpeza étnica", que desta vez está a atingir a população não albanesa, sobretudo sérvios, romi (ciganos) e goranos (sérvios islamizados). Em paralelo, prossegue o regresso organizado dos refugiados albaneses, quer dos campos na Albânia e Macedónia, que se encontram praticamente vazios, quer de diversos países ocidentais onde foram acolhidos. Ontem, partiu da Alemanha o primeiro voo organizado após o fim da recente guerra nos Balcãs. O avião transportou 160 dos 15 mil albaneses que se refugiaram na Alemanha após o início dos ataques aliados contra a Jugoslávia e que incrementaram a expulsão, ou fuga maciça, da população albanesa kosovar. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) também informou em Genebra que os refugiados do Kosovo acolhidos no Canadá e Austrália já começaram a regressar às suas regiões de origem. Por esclarecer permanece no entanto o destino dos prisioneiros albaneses detidos em prisões na Sérvia, para onde foram transferidos nos últimos dias do conflito. A Cruz Vermelha já identificou 481 deste detidos, que poderão ascender a alguns milhares, e no passado dia 25 de Junho foram libertados 166 presos. A questão do Kosovo foi ainda o principal tema que dominou as conversações em Skopje, capital da Macedónia, entre o Presidente Kiro Gligorov e o seu homólogo albanês Rexhep Mejdani. Os dois responsáveis não conseguiram ocultar divergências sobre o destino que perspectivam para a província sérvia e para a própria Jugoslávia. "Estamos virados para a Europa [União Europeia] e prevemos duas novas entidades nesta integração europeia dentro de cinco ou dez anos, que podem ser o Montenegro e o Kosovo", sustentou Mejdani. O chefe de Estado macedónio preferiu alertar sobre os "perigos para esta região e para a Europa" relacionados com as "ambições de certos Estados em alterar as suas fronteiras", e desejou a futura integração na Europa de uma "Jugoslávia democrática", onde o Kosovo esteja incluído. A vizinha Bulgária recebeu por sua vez a visita do secretário-geral da NATO, Javier Solana - que no dia anterior já se tinha deslocado à Roménia -, enquanto a Rússia solicitava ao Governo de Sófia a concessão de um "corredor" aéreo e terrestre para prosseguir o envio das suas tropas em direcção ao Kosovo. Ao citar responsáveis da NATO e peritos militares o "Washington Post" referiu na sua edição de quarta-feira que a NATO pode convidar diversos países vizinhos da Jugoslávia a juntarem-se à Aliança, devido à "súbita importância estratégica" assumida pela Eslovénia, Roménia ou Bulgária.