Meira Asher faz história no festival Ritmos

A música da israelita Meira Asher é a verdadeira música do mundo. Não do mundo da tradição, mas do mundo actual, em agonia, à beira do novo milénio. A sua passagem pelo festival Ritmos/Festas do Mundo, no Porto, provocou arrepios. E algum escândalo.

Ninguém ficou indiferente ao espectáculo alucinante que Meira Asher apresentou, sábado, no festival Ritmos/Festas do Mundo, que ontem terminou no Porto. "Loucura total", exclamaram, deslumbrados, os que aguentaram o embate. "Vamos fugir deste inferno!", arrepiaram-se uns quantos, que não suportaram ter de enfrentar cara a cara o pesadelo. Festa e alegria são palavras sem sentido na carnificina que a israelita trouxe ao Palácio de Cristal, onde o festival teve lugar. Pelo contrário, a sua "performance" terá constituído, para alguns, um fardo difícil de suportar. Foi um vómito de sangue, um combate de vida e de morte contra a passividade e a indiferença. "Este projecto é um sinal de alarme que retrata o indivíduo vítima de uma realidade repetitiva, brutal e alienante. Uma realidade que contamina toda a gente com as doenças crónicas da cobardia e da apatia", diz Meira Asher, a propósito de "Spears into Hooks" e da prestação ao vivo que lhe corresponde.Conseguiu plenamente os seus intentos, esta israelita de olhos encovados e cabeça rapada, de ascendência russa, que traça um paralelo entre o holocausto nazi e o holocausto palestiniano e para quem a paz entre as nações só será possível quando todos os pesadelos forem expostos à luz do dia. Foi isso que ela fez, arrasando os nervos de uma assistência que nunca soube muito bem como reagir à violência do impacte, mas que, subjugada por uma espécie de hipnose, se manteve imobilizada diante da torturadora. "Aquele que foi torturado tende a tornar-se no torturador" constitui, aliás, outra das máximas defendidas por Meira Asher. Tudo se conjugou para tornar a noite de sábado do Ritmos/Festas do Mundo numa ocasião especial e, provavelmente, dolorosa. A começar pelo aspecto cénico do palco. Ao invés da habitual parafernália de instrumentos étnicos, era todo um arsenal de máquinas, ecrãs de vídeo, percussões electrónicas e computadores que se exibia aos olhos curiosos, e um pouco assustados, da assistência. Ainda antes do ritual ter início, um som electrónico incomodativo saía das colunas para criar uma atmosfera que tornava cada vez mais ténues as esperanças daqueles que acreditavam ainda ser possível haver festa. Mas quando Meira Asher e o seu grupo de terroristas sónicos puseram os seus dispositivos do inferno a funcionar, todas estas esperanças caíram por terra. Sobre vagas industriais de electrónica onde a melodia e o menor "groove" rítmico nunca passaram de utopia, Meira Asher gritava e gesticulava como uma possessa. Luzes estroboscópicas eram apontadas ao público, enquanto os fumos e, num dos temas, fogo real, ajudavam a intimidar, na celebração de uma cerimónia de shamãs sem fé que transportam para o próximo milénio a estética apocalíptica dos Einstuerzende Neubaten e dos actuais Faust. Dois ecrãs de vídeo exibiam imagens não menos dantescas, de experiências ou operações cirúrgicas em corpos humanos, chagas, ferimentos e sofrimentos sortidos, tortura e caos, alternando com sinais geométricos de carácter mágico. Sobre tudo isto, uma frase, repetida do princípio ao fim num placard electrónico instalado em frente a uma das mesas de samplers e sintetizadores, acentuava ainda mais a tónica do medo: "Birkenau, aqui e agora". O Palácio de Cristal tornava-se no campo minado de um perigoso jogo de memórias e ambiguidades. O mundo inteiro é um campo de concentração do qual é impossível escapar. Sucederam-se os samples onde se armanezavam as dores de vítimas reais e estilhaços de música étnica afogada numa orgia de loucura. Durante a interpretação de "Weekend away break", um dos temas mais violentos de "Spears into Hooks" - a descrição do campo da morte de Birkenau como uma estância de férias, ao som de uma valsa de Strauss e das canções de Marlene Dietrich - dançou a dança do mal.O "espectáculo" que Meira Asher apresentou no Ritmos/Festas do Mundo, excedeu as expectativas dos que já conheciam o álbum e defraudou as dos incautos. Quem procurava a festa - que também não chegou a acontecer na primeira parte, com a actuação dos Istanbul Oriental Ensemble a pautar-se por alguma monotonia - saiu machucado debaixo dos gritos de "Morram!" Morram! Morram!", que Meira escarrou em "The Flood", "o dilúvio", outro dos temas de audição dolorosa de "Spears into Hooks". Mal terminou o exorcismo, a chuva começou a cair...