A farda do rock

A noite começou por ser fria, mas o concerto de comemoração dos 20 anos de carreira que os UHF deram sábado passado na Praça Sony, em Lisboa, terminou quente e sorridente. Tudo pela causa de uma banda que cresceu pela "esperança de um sabor diferente".

Foi uma noite fria de Verão em Lisboa aquela que recebeu sábado passado a visita dos UHF no concerto de apresentação da antologia "Eternamente". Serviu para comemorar os 20 anos de carreira de uma das bandas mais representativas do movimento do rock português nascido no inicio dos anos 80. Com pouco público e um ambiente muito morno, de início chegou-se a temer pela causa de uma festa que não só era gratuita como visava também assinalar o Dia Mundial de Luta Contra a Droga. E se não fossem as centenas de jovens vindas expressamente do Cadaval para ouvir António Manuel Ribeiro e os seus pares, o inicio da actuação dos UHF teria sido injustamente penosa. Com o ambiente ainda frio, os UHF iniciaram a actuação com um conjunto de temas pertencentes à fase mais recente da sua obra. Canções como "Dentro de mim" e "Foge comigo Maria" ainda cativaram a atenção dos mais disponíveis. Mas o primeiro verso de "Dançando na noite" terá espelhado melhor que tudo o resto aquilo que foram os primeiros momentos de um concerto que perduraria ainda por duas longas horas: "À beira do Tejo/a noite calada", cantou nesse tema António Manuel RibeiroSe voz havia na noite ela estava toda centralizada no revitalizado Palco 6, a montra maior da música moderna portuguesa por alturas da Expo que os responsáveis pelo Parque das Nações tiveram agora a sensatez de fazer renascer. Voz é como quem diz, porque as actuações que aí decorriam dos Runcold, primeiro, e dos Anger, depois, assemelham-se mais a puras descargas de baterias decibélicas, do que propriamente à voz branda saída do sopro de uma suave - embora fria - noite de Verão. Talvez instigados pelo turbilhão de ruído saído do palco 6, as gentes que até então se haviam mostrado tão plácidas começaram a concentar-se em redor da Praça Sony e a agitar-se ao ritmo do rock genuinamente urbano e singularmente português dos UHF. Agora já não eram só os jovens do Cadaval, mas "de Santarém, do Porto, de Arruda dos Vinhos, Lisboa, Almada e até duas pessoas vindas expressamente de Paris", disse António Manuel Ribeiro. Naquela altura já o anfiteatro lisboeta se mostrava muito bem composto, e foi então que os UHF, muito em particular o seu vocalista e mentor, começaram também eles a crescer. António Manuel Ribeiro vestiu a sua velha farda de rocker para não mais a largar: interpelou o público e com ele dialogou pela noite fora, recitou o poeta Al Berto e fez alusões carregadas de ironia ao atribulado percurso de 20 anos que os levou na noite de sábado à Praça Sony. "Quero ver todos com os braços no ar, com esta prenda que nos estão agora a dar", pediu o vocalista dos UHF, numa das várias rimas articuladas noite dentro por "um homem que se sente um poeta". "Poeta rima com pateta. Mas esta noite não sou nem uma coisa nem outra. Esta noite sou cantor de rock 'n' roll", clarificou, de chapéu de "cowboy" vestido, o pistoleiro do rock português. Ao lado da nova formação dos UHF, António Manuel Ribeiro é pai até nas horas mortas. Os restantes membros - incluindo as duas belas coristas que se apresentaram em palco - eram tenras crianças quando a aventura dos sons e da estrada cativou para a paixão da música o pai António e os restantes membros fundadores da banda de Almada. "E porque de pontes se faz a vida, porque de pontes se faz o amor", foram estes, juntos e unidos, que apagaram as 20 velas de um bolo tragado com a "esperança de um sabor diferente", naquele que foi o momento mais alto da noite: Renato Gomes e Carlos Peres - José Carvalho não pode estar presente - juntaram-se a António Manuel Ribeiro e mataram as saudades de "Geraldina", "Cavalos de corrida" e de um dia numa garagem da Costa de Caparica a escrever "Rapaz caleidoscópio". Antes tinham-se ouvido "Um copo contigo", "Rua do Carmo" e uma nova versão de "Sarajevo", presente em "Eternamente". Ouviram-se ainda uma "cover" de "The one I love", dos R.E.M - os UHF iniciaram o concerto com uma versão de "Guantanamera" e encerraram-no com "Menina estás à janela" -, e os clássicos "Jorge morreu", o primeiro trabalho discográfico da banda, "Toca-me", "Na tua cama", "Dança comigo" e "Uma palavra tua". A Praça Sony rendia-se finalmente à alma rock dos UHF, embebiba de frenesim e saudosismo e bem acompanhada por um conjunto de oito figuras sinfónicas, primeiro, e depois por Carlos Moisés e Nuno Flores, da Quinta do Bill. O concerto terminaria com a subida ao palco de Alexandre Rocha, coordenador do Projecto Vida. Em conjunto com a modelo Fernanda Serrão - que contracena com António Manuel Ribeiro no vídeo recém editado de "Uma palavra tua" - Rocha entregou aos UHF o disco de prata correspondente a dez mil unidades já vendidas de "Eternamente". No fim, com todos os intervenientes da noite reunidos em palco, haveria ainda tempo para uma versão de "Roadhouse blues", dos Doors. E aí António Manuel Ribeiro não podia ter sido mais acintoso: "The future's uncertain, and the end is always near", cantou, numa alusão àquilo que tem sido a sua própria carreira. António Manuel Ribeiro não foi, não é, nem será Jim Morisson. Mas por aquilo que os UHF deram a ver na noite de sábado passado, por aquilo que os UHF deram a ver em 20 anos de uma carreira de dedicação única à música nacional, haverá outro "rocker" igual em Portugal?