O seu lema é o trabalho

Chegou com vontade de trabalhar e de agradar aos adeptos. Giuseppe Materazzi, 53 anos, veio do Piacenza para treinar o Sporting nos próximos dois anos. O acordo com José Roquette foi rápido e a apresentação aos jornalistas imediata. As suas maiores virtudes são a seriedade e a vontade de apostar nos jovens. Está encontrado o substituto de Mirko Jozic.

Giuseppe Materazzi, italiano, de 53 anos, ex-técnico de futebol do Piacenza, da I Divisão italiana, assinou ontem um contrato de dois anos para treinar o Sporting. No mesmo dia em que o seu nome correu na imprensa desportiva italiana, Materazzi, em Lisboa, concluiu as negociações com os dirigentes da Sociedade Anónima Desportiva do Sporting e à tarde foi apresentado em Alvalade. Um homem de muitos sorrisos, que agradou ao grupo de associados que se concentraram à entrada do estádio e que, tudo indica, é apologista do rigor e do trabalho intenso nos treinos.Materazzi foi uma inesperada escolha para treinador dos "leões", depois de nos últimos dias, e após ter sido consumado o afastamento do croata Mirko Jozic, muitos outros nomes terem sido avançados pela imprensa portuguesa e estrangeira. O inglês Glen Hoddle, o espanhol Javier Clemente, o dinamarquês Møller Nielsen, o inglês Bobby Robson e o italiano Nevio Scala foram alguns dos técnicos apontados com insistência, sem que alguma vez se falasse do agora actual treinador sportinguista.Depois de ter sido um futebolista desconhecido e de uma vida a treinar pequenas equipas da I e II Divisões italianas, Materazzi foi contratado por três razões: a primeira é ser um italiano, o que, sabe-se agora, era a nacionalidade preferida dos administradores leoninos, pelo prestígio que os técnicos de Itália têm hoje; depois é um homem tido por muito sério, rigoroso, objectivo; finalmente, é ainda um treinador que aposta nos jovens - ainda este ano foi ele que lançou Simone Inzaghi, irmão do mais célebre Pippo, da Juventus, que acaba de ser transferido para a Lazio, e também Lucarelli, internacional sub-21.Os objectivos de Giuseppe Materazzi para a equipa de Alvalade são sucintos e claros, embora nem todos de fácil execução: "Pretendo satisfazer a sociedade [a Sporting SAD], os dirigentes e e os 'tifosi', essencialmente. E resultados, que são muito importantes, seguramente."A decisão, segundo o novo técnico leonino não foi difícil de tomar. Foi só escutar com muita atenção o que o Sporting tinha para lhe propor e tomar uma decisão: "Ouvi e gostei da proposta de trabalho que os dirigentes tinham para me oferecer, a vontade, a boa vontade - reforçou - e a ambição da sociedade. Estou bem documentado sobre esta equipa, que é de bom valor. Mas é claro que teremos de trabalhar muito para poder ainda melhorar."O técnico italiano, muito sorridente ao longo de todo o encontro de apresentação aos jornalistas, que acabou para que se cumprisse o seu desejo de descer ao relvado do Estádio José de Alvalade, sabe que dele se espera muito. Mas, acima de tudo, confia nas suas capacidades: "Cabe-me agora demonstrar o meu valor. Eu sempre trabalhei em equipas em situação difícil. Com o Sporting, desta vez, é diferente. O Sporting é um conjunto muito equilibrado, um dos quatro, cinco melhores do campeonato português."Mas é o trabalho intenso e continuado que fazem o lema de Materazzi. E justificou, segundo a ideia pré-concebida que tem do futebol português: "É preciso trabalhar muito para preparar cada jogo. Nenhuma partida poderá ser encarada pela superficialidade."Quem já o teve como técnico, no Bari, de Itália, foi Abel Xavier, internacional português actualmente ao serviço do PSV Eindhoven. Em declarações à rádio TSF, Abel Xavier é de opinião que o Sporting fez uma boa escolha: "É uma grande contratação. É um técnico bastante disciplinador e os seus métodos de trabalho são espectaculares. Sinceramente, acho que tem todas as condições para realizar um bom trabalho.""Quando eu estive no Bari", prosseguiu Abel Xavier, "a equipa lutava para não descer de Divisão. Mas mesmo nessa altura ficou bem patente que gosta de ganhar. E agora, numa estrutura como o Sporting, que luta pelo título nacional, as suas ideias tornarão a equipa mais forte e mais rigorosa no ritmo de trabalho nos treinos. São os métodos italianos, mais exigentes que em Portugal."Giuseppe Materazzi não está na primeira linha dos técnicos de futebol italianos, em termos de carisma ou de prestígio. Mas curiosamente desfruta de grande admiração por ser alguém que, sem se fazer notar por declarações polémicas ou decisões fantásticas, trabalha duramente, tem ideias e dá uma identidade às suas equipas.É considerado um treinador italiano tradicional, ou seja, normalmente aposta no líbero, nas marcações homem-a-homem, mas não tem medo de atacar e é capaz de jogar também em 4-3-3. Mas a escola, essa, é a tradicional escola italiana, de grande trabalho táctico, de rigor nas marcações.Materazzi é da Sardenha, gosta do mar e tem um filho, Marco Materazzi, também jogador e que alinhou na época passada no Everton, de Inglaterra. Treinou na época passada o Piacenza, única equipa italiana que só contrata jogadores italianos, e manteve-o na I Divisão, o que é quase como ser campeão. No ano anterior, as coisas não lhe correram bem - começou a época no Brescia, também da I Divisão, mas demitiu-se antes do meio do campeonato, depois de quatro derrotas seguidas e de alguns problemas entre os jogadores.Nascido a 5 de Janeiro de 1946 em Arborea, na Sardenha, é treinador desde 1979, ano em que fez o chamado "Supercurso" de treinadores. A sua carreira começou na Cerretese (dois anos), depois passou pelos juniores do Bari (dois anos), Rimini, Benevento, Casertana (todos da III Divisão), Pisa e Lazio (dois anos), ambos na I Divisão, regressando depois ao segundo escalão, com Messina, Casertana e Bari, onde esteve quatro anos, os últimos dois no escalão principal. Voltou ao escalão secundário para o Pádua e depois esteve em Brescia e Piacenza. No seu currículo tem apenas um título, com a Lazio - que na altura não era uma equipa de estrelas como a de hoje -, quando conquistou a Mitropa Cup.