As guerras do padre Zé

Em Abrantes, a fome, a toxicodependência, a prostituição, o alcoolismo infantil, o risco que afecta crianças e as sequelas da velhice são enormes - mas têm um adversário à altura. Nos últimos anos, o padre José da Graça construiu uma obra social que procura dar a mão a marginalizados e marginalizáveis, que vai da criação de um banco contra a fome ao Projecto Homem, de apoio a toxicodependentes.

Há alguns anos atrás, as pessoas chegavam à casa da paróquia de São Vicente, em Abrantes, a pedir dinheiro, mas, nos últimos tempos, chegavam perto do padre José da Graça e o que queriam já era apenas algo para comer. Há quem veja nesta diferença apenas uma alteração semântica, mas o pároco percebeu que estava perante uma nova realidade e que a fome em Abrantes era agora uma evidência que já não era possível ocultar mais. "Há 40 anos, a pobreza não era tão estigmatizante como hoje, pois agora ela revela uma desorientação das pessoas que, por qualquer razão, não sabem gerir o pouco que têm e, em alguns casos, têm uma ânsia de se afirmar no que têm, quando não têm possibilidades para o fazer", comenta o padre José da Graça, que sentiu nesta realidade não só um sinal de que Abrantes apresentava graves carências, como também um apelo para fazer o que tinha que ser feito."Abrantes está na confluência do Ribatejo, do Alentejo e da Beira Baixa, as pessoas estabeleceram-se aqui sem cá terem qualquer raiz, vêm com expectativas e depois deparam-se com os vazios", observa. "É na zona de Fontes e de Carvalhal, próximo da albufeira de Castelo de Bode, que a situação é a mais preocupante. As pessoas estão mais afastadas, quase fora da civilização, entraram no consumo excessivo de álcool, há vários casos de prostituição e as próprias crianças, com esta envolvente, têm dificuldades de aprendizagem e mesmo de adaptação, sendo regular o consumo de bebidas alcoólicas nos seus hábitos de nutrição", garante José da Graça.O padre Zé, como é conhecido na comunidade abrantina, compreendeu de imediato que a fome e as múltiplas carências não se tratavam com rasgos de voluntarismo e de boa vontade, mas necessitava de uma organização permanente capaz de responder à miséria, cada vez mais visível e expandida."O concelho de Abrantes tem, sozinho, mais pessoas a beneficiar do Rendimento Mínimo Garantido, instituído pelo Governo, que todos os outros concelhos do distrito juntos. Isto dá uma ideia da dimensão do problema", observa o pároco, notando que, para lá da frieza dos números havia também a crueza do quotidiano. Nas zonas rurais, os dramas habituais são as crianças subalimentadas, os idosos e pessoas de meia idade abandonadas e as prostitutas. Na zona urbana de Abrantes são as magras reformas que originam problemas graves aos mais idosos, cujos recursos não chegam para pagar os consumos da água e da luz, da farmácia e do telefone, muitas vezes o único elo que os liga às famílias.O Banco Alimentar Contra a Fome de Abrantes (BACFA) surge como uma resposta estruturada da paróquia ao flagelo real. "Estamos no início, trabalhamos com empresas, com supermercados, e o nosso objectivo é ficar apenas com os produtos excedentes, aqueles que estão prestes a perder o prazo de validade", explica o pároco. Critica, porém, a "situação paradoxal de a legislação existente dificultar às empresas a doação dos produtos no limite da sua validade, favorecendo pelo contrário a sua destruição e eliminação".O padre reconhece que é difícil conviver entre a ansiedade da pobreza e a rigidez das leis, estruturas e instituições. "O que se passa é que se se aproveitasse o que se estraga das refeições servidas em grandes escolas, hospitais ou quartéis dava para garantir o sustento de muita gente necessitada. Mas isso não é possível porque é a própria legislação que o impede, afirma José da Graça. Além das campanhas de recolha, duas por ano - a próxima será a 8 e 9 de Maio -, o BACFA é também contemplado por empresas que, por livre iniciativa, fazem chegar alimentos aos seus armazéns, cedidos por um benemérito local, como foi o caso de uma empresa que ainda recentemente aí deixou duas toneladas de feijão enlatado.O BACFA não dá nenhum alimento directamente, mas através de instituições sociais a quem garante apoio e onde toma conhecimento se as ajudas estão a ser bem aplicadas. "Se déssemos os produtos directamente às pessoas, estou seguro que, em poucos minutos, tudo desapareceria", observa José da Graça.Além do BACFA, o padre Zé implantou há dois anos, na cidade, o Projecto Homem, de apoio e recuperação de jovens toxicodependentes, além de uma creche e jardim de infância (com 110 crianças) e um centro de apoio a 85 idosos residentes na área urbana de Abrantes. Por outro lado, um centro de acolhimento temporário a crianças e jovens em situação de risco e a abertura de novas instalações para a recuperação de toxicodependentes na aldeia de Sentieiras são projectos já em curso e que se espera sejam uma realidade a médio prazo. O padre Zé garante ao PÚBLICO que, depois disto, vai parar."O Projecto Homem nasceu, teoricamente, em 1983. Eu estava num curso na Universidade Católica e realizei um trabalho sobre toxicodependentes. Depois disso - e porque todos são filhos de Deus - precisei de dar uma resposta pastoral para o problema", conta o pároco abrantino. "A aplicação do projecto, no sentido prático, começou em Julho de 1997. Há um centro de acolhimento (ambulatório) com apartamentos, uma comunidade terapêutica (onde os jovens vivem e de onde apenas se podem ausentar em grupos de dois) e a reinserção social, em que vivem em autonomia e se preparam para a vida", diz o padre José Graça.As instalações têm um total de 26 camas distribuídas por quartos. As camas estão já todas ocupadas e o facto de mais jovens quererem entrar para a comunidade e a perda da relativa privacidade dos seus ocupantes, devido ao desenvolvimento urbano de Abrantes, estão na origem do interesse em organizar uma nova comunidade em Sentieiras, a pouca distância da cidade."Ainda não dei nenhuma alta terapêutica, as primeiras deverão ser no final deste ano, por isso ainda não é possível avaliar os resultados do tratamento que está a ser feito. Este projecto é um programa livre de drogas, sem qualquer psicofármaco, a não ser por prescrição médica. Os jovens começam o dia às sete e meia, fazem o trabalho quotidiano, têm grupos de reflexão e auto-ajuda e organizam-se de modo a ter o tempo quase totalmente preenchido", esclarece José da Graça. Em Espanha, recorda, o projecto de apoio aos toxicodependentes conseguiu até agora que 83 por cento abandonassem o consumo de droga de forma total."O redescobrir que há outras pessoas e a necessidade de dar um sentido à vida são fundamentais. Eu pensava que estes jovens drogados eram solidários entre si, mas não. São terrivelmente egoístas, só vivem para a droga. Quando vêm para aqui são despertados para a existência dos outros e a viver em família. A verdade é que estabelecem fortes relações entre si, apoiam-se e criam grandes amizades", salienta o pároco.Numa comunidade de 26 jovens, como a de Abrantes, é natural que existam tensões no dia-a-dia. "Para as resolver temos a 'caixinha de sentimentos', onde os jovens colocam os seus pedidos de desculpa, as suas questões e os seus problemas que depois são debatidos com os outros, nas sessões de terapia de grupo", sublinha o padre Zé.A expectativa de cura da dependência da droga é grande e são muitas as famílias com jovens com problemas a procurar o seu internamento. O Projecto Homem irá abrir ainda este ano uma delegação em Tomar, com dois terapeutas que estão já em fase de formação e estudo dos princípios e métodos do projecto.