Depois do Colombo, o Gama

O Centro Vasco da Gama abre hoje ao público mas o diferendo com a Parque Expo por causa da proibição de trânsito na Alameda dos Oceanos parece estar para durar. As críticas da Sonae estendem-se também à política de gestão de toda a zona de intervenção. A concepção e decoração do centro comercial foi inspirada no mar e entrar no edifício é como passear num grande navio. Nem faltam os cheiros e o som do mar.

A Expo-98 deu o mote e a Sonae aproveitou a herança da zona ribeirinha. O mar está presente na organização do espaço interior, na decoração, no nome, no som e até... no cheiro. O espaço da antiga Porta do Oriente da Exposição Mundial de Lisboa deu agora lugar a um centro comercial. O Centro Vasco da Gama, junto ao Parque das Nações, em Lisboa, abre hoje ao público e espera receber, durante o primeiro ano de vida, cerca de 18 milhões de visitantes.Em relação ao Colombo, os números são aqui todos mais modestos. O Vasco da Gama tem 161 mil metros quadrados de construção, 46 mil metros quadrados de zona comercial, 162 lojas distribuídas por três pisos, 2940 lugares de estacionamento e cerca de 1500 postos de trabalho. O facto de estar numa zona com bons acessos é uma das vantagens apontadas pelos responsáveis. Mas, a par com o Colombo, também há polémicas com terceiros. Se no caso do espaço de Benfica é com a Câmara de Lisboa - por falta de arranjo do espaço envolvente ao edifício -, já no caso do Centro Vasco da Gama os problemas são com a Parque Expo."Uma parte das acessibilidades que deveriam servir a zona, em especial a Alameda dos Oceanos [artéria central do Parque das Nações], não está operacional, como fora previsto no plano de urbanização", disse ontem Álvaro Portela, da Sonae Imobiliária, durante a apresentação do novo centro comercial. "Há um risco grande de engarrafamento nas acessibilidades ao parque de estacionamento e nas artérias circundantes", acrescentou.A Parque Expo não quer circulação automóvel dentro do Parque das Nações, mas um dos acessos ao estacionamento subterrâneo do centro situa-se precisamente na Alameda dos Oceanos. Agora, a Parque Expo está a analisar juridicamente os moldes em que foi assinado o contrato com a Sonae.Se a Parque Expo mantiver a sua posição, a Sonae coloca a hipótese de pedir uma compensação. "O empreendimento não é um favor feito ao consórcio Sonae Imobiliária/ING Real Estate-. Foi um concurso que ganhámos. Cumprimos o que estava estipulado: suspensão das obras durante a Expo e abertura até ao fim de Abril. e comprámos três lotes de terreno, o que implicava a utilização dos acessos", acrescentou Álvaro Portela.O responsável da Sonae é muito crítico quanto à acção da Parque Expo e da Expo Urbe na dinamização da zona oriental da cidade. Álvaro Portela queixa-se da demora na tomada de decisões: "A licença de construção da Torre S. Gabriel demorou um ano e um projecto de alterações esperou quatro meses para ser aprovado. É preciso acelerar o desenvolvimento de escritórios e habitação, fazer com que venha gente para aqui, trabalhar ou viver.""A Gare do Oriente devia ser a estação multimodal de Lisboa e continua a ser um apeadeiro de terceira. Não está lá o terminal de autocarros suburbanos, como previsto, nem tão pouco os comboios lá páram. Felizmente que o Metro funciona", criticou. "Boas vindas a bordo" é o lema do Vasco da Gama. Com uma arquitectura e decoração acentuadamente marítimas, o interior do centro comercial recria o ambiente de um grande navio. O espaço central é aberto desde o piso inferior - que faz a ligação à galeria de lojas da Gare do Oriente - até à cobertura e os vários pisos têm varandins que imitam amuradas de navio. Janelas das portas em forma de vigia, pequenas escotilhas alinhadas ao longo da separação de cada piso, revestimentos em madeira como se fosse no convés de um navio e, de vez em quando, o som das ondas e dos gritos das gaivotas ou um intenso cheiro a maresia. O cheiro será difundido através do ar condicionado, podendo mudar consoante a altura do ano. No Natal pensa-se que poderá ser o odor do pinheiro, e na Primavera, de flores.Ao longo da linha central da gigantesca clarabóia de vidro central foi instalado um sistema de distribuição de água que escorre para ambos os lados. Em dias de sol, prometem os responsáveis, o efeito luminoso sugere aos visitantes que estão debaixo de água. Tal sistema tem, além do efeito visual, uma componente prática: arrefece o vidro e o próprio espaço interior, reduzindo o consumo de energia em ar condicionado.O centro comercial aposta fortemente na área do lazer e da restauração. Só de uma vez, Lisboa fica com mais dez salas de cinema (1600 lugares), uma sala de "bowling" e 35 restaurantes de diversos segmentos, desde o "fast-food" à cozinha de luxo, passando pela cozinha tradicional indiana, chinesa, italiana e portuguesa. No piso superior, a zona de restauração tem esplanadas com vista para o Mar da Palha. Para Junho, está marcada a inauguração de uma zona junto à cobertura, reservada, do lado nascente, para um restaurante "Nobre", e do lado poente para um "beer deck", com três cervejarias - "Lusitânia", "Portugália" e "Sagres" - com esplanada "para os lisboetas virem beber um cerveja geladinha ao fim da tarde".Das 162 lojas, divididas por 11 lojas-âncora - como o Continente, C&A, Zara, MacModa, CorteFiel, Tribo, Worten -, 116 lojas satélites e 35 restaurantes, apenas cerca de 150 estão já hoje abertas ao público. As restantes, enquanto não ficarem prontas, estarão protegidas por gigantescos posters de imagens marinhas.Um dos corredores é dedicado às crianças. No tecto, um teleférico vai transportando cardumes de peixes coloridos que acompanham o percurso dos visitantes.No piso superior, para desenhar o chão e os tampos das mesas da zona de restauração foram reproduzidas diversas cartas marítimas. O arquitecto José Quintela, responsável pela concepção do centro, disse ao PÚBLICO que tentou "fazer uma tematização subtil, não muito violenta", mas a verdade é que o mar está omnipresente.No piso intermédio, o chão é revestido de alcatifa com motivos marinhos: estrelas do mar e ondas dividem o espaço com pequenas bolhas de ar. Para descansar, há bancos de madeira em forma de prancha de surf. O arquitecto assegura que a segurança não está em causa, pois trata-se de materiais não inflamáveis.